Livros Espíritas
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A doutrina do perispírito está no mesmo caso; o Espiritismo não foi o primeiro a descobri-lo. Mas, assim como Copérnico para o movimento da Terra, ele o estudou, demonstrou, analisou, definiu e dele tirou fecundos resultados. Sem os estudos modernos mais completos, esta grande verdade, como muitas outras, ainda estaria no estado de letra morta. VI O perispírito é o traço de união que liga o mundo espiritual ao mundo corporal. O Espiritismo no-los mostra em relação tão íntima e tão constante, que de um ao outro a transição é quase insensível. Ora, assim como na Natureza o reino vegetal se liga ao reino animal por seres semivegetais e semi-animais, o estado corporal se liga ao estado espiritual não só pelo princípio inteligente, que é o mesmo, mas ainda pelo envoltório fluídico, ao mesmo tempo semimaterial e semi-espiritual, desse mesmo princípio. Durante a vida terrena, o ser corporal e o ser espiritual estão confundidos e agem em acordo; a morte do corpo apenas os separa. A ligação destes dois estados é tal, e eles reagem um sobre o outro com tanta força, que dia virá em que será reconhecido que o estudo da história natural do homem não poderia ser completo sem o estudo do envoltório perispiritual, isto é, sem pôr um pé no domínio do mundo invisível. Esse paralelo é ainda maior quando se observa a origem, a natureza, a formação e as propriedades do perispírito, observação que decorre naturalmente do estudo dos fluidos. VII É sabido que todas as matérias animais têm como princípios constituintes o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono, combinados em diferentes proporções. Ora, como dissemos, esses mesmos corpos simples têm um princípio único, que é o fluido cósmico universal. Por suas diversas combinações eles formam todas as variedades de substâncias que compõem o corpo humano, o único de que aqui falamos, embora seja o mesmo em relação aos animais e às plantas. Disto resulta que o corpo humano não passa, na realidade, de uma espécie de concentração, de uma condensação ou, se quiserem, de uma solidificação do fluido universal, como o diamante é uma solidificação do gás carbônico. Com efeito, suponhamos a desagregação completa de todas as moléculas do corpo: recuperaremos o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono; em outros termos, o corpo será volatilizado. Esses quatro elementos, voltando ao seu estado primitivo por uma nova e mais completa decomposição – se os nossos meios de análise o permitissem – dariam o fluido cósmico. Sendo esse fluido o princípio de toda a matéria, ele mesmo é matéria, embora num completo estado de eterização. Passa-se um fenômeno análogo na formação do corpo fluídico, ou perispírito: é, igualmente, uma condensação do fluido cósmico em torno de um foco de inteligência, ou alma. Mas aqui a transformação molecular se opera diferentemente, porque o fluido conserva sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo humano têm, pois, sua fonte no mesmo fluido; um e outro são matéria, conquanto em dois estados diferentes. Assim, tivemos razão de dizer que o perispírito é da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria. Como se vê, nada há de sobrenatural, já que o perispírito se liga, por seu princípio, às coisas da Natureza, das quais não passa de uma variedade. Sendo o fluido universal o princípio de todos os corpos da Natureza, animados e inanimados e, por conseguinte, da terra, das pedras, razão tinha Moisés quando disse: “Deus formou o corpo do homem do limo da terra.” Isto não quer dizer que Deus tomou terra, petrificou-a e com ela modelou o corpo do homem, como se modela uma estátua com argila e como acreditaram os que tomam as palavras bíblicas ao pé da letra; mas, sim, que o corpo era formado dos mesmos princípios ou elementos que o limo da terra. Moisés acrescenta: “E lhe deu uma alma vivente, feita à sua semelhança.” Ele faz, assim, uma distinção entre a alma e o corpo; indica que ela é de natureza diferente, que não é matéria, mas espiritual e imaterial como Deus. Diz: uma alma vivente, para especificar que nela só está o princípio da vida, ao passo que o corpo, formado da matéria, por si mesmo não vive. Estas palavras: à sua semelhança, implicam uma similitude e não uma identidade. Se Moisés houvesse considerado a alma como uma porção da Divindade, teria dito: Deus o anima dando-lhe uma alma tirada de sua própria substância, como disse que o corpo tinha sido tirado da terra. Estas reflexões são uma resposta às pessoas que acusam o Espiritismo de materializar a alma, porque lhe dá um envoltório semimaterial. VIII No estado normal, o perispírito é invisível aos nossos olhos e impalpável ao nosso tato, como o são uma infinidade de fluidos e de gases. Entretanto, a invisibilidade, a impalpabilidade, e mesmo a imponderabilidade do fluido perispiritual não são absolutas; é por isso que dizemos no estado normal. Em certos casos é possível que ele sofra uma condensação maior, ou uma modificação molecular de natureza especial, que o torna momentaneamente visível ou tangível; é assim que se produzem as aparições. Sem que haja aparição, muitas pessoas sentem a impressão fluídica dos Espíritos pela sensação do tato, o que é indício de uma natureza material. Seja qual for a maneira pela qual se opera a modificação atômica do fluido, não há coesão como nos corpos materiais; a aparência se forma e se dissipa instantaneamente, o que explica as aparições e as desaparições súbitas. Sendo as aparições o produto de um fluido material invisível, tornado visível em conseqüência de uma mudança momentânea na sua constituição molecular, não são mais sobrenaturais do que os vapores que, de modo alternado, fazem-se visíveis ou invisíveis pela condensação ou pela rarefação. Citamos o vapor como ponto de comparação, sem pretender que haja similitude de causa e efeito. IX Algumas pessoas criticaram a qualificação de semimaterial dada ao perispírito, dizendo que uma coisa é matéria ou não o é. Admitindo que a expressão seja imprópria, seria preciso recorrer a ela, em falta de um termo especial para exprimir esse estado particular da matéria. Se existisse um mais apropriado à coisa, os críticos deveriam tê-lo indicado. Filosoficamente falando, e por sua essência íntima, o perispírito é matéria, como acabamos de ver; ninguém poderia contestá-lo. Mas não tem as propriedades da matéria tangível, tal como se a concebe vulgarmente; não pode ser submetido à análise química, porquanto, embora tenha o mesmo princípio que a carne e o mármore, na realidade nem é carne nem mármore. Por sua natureza etérea, pertence, ao mesmo tempo, à materialidade por sua substância, e à espiritualidade por sua impalpabilidade, de sorte que o vocábulo semimaterial não é mais ridículo que semiduplo e tantos outros, porque também se pode dizer que uma coisa é dupla ou não o é. X Como princípio elementar do Universo, o fluido cósmico assume dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o primitivo estado normal, e o de materialização ou ponderabilidade, que é, de certa maneira, consecutivo àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível. Mas, ainda aí, não há transição brusca, porquanto podem considerar-se os nossos fluidos imponderáveis como um termo médio entre os dois estados. Cada um desses dois estados dá lugar, naturalmente, a fenômenos especiais: ao segundo pertencem os do mundo visível e ao primeiro os do mundo invisível. Uns, os chamados fenômenos materiais, são da alçada da Ciência propriamente dita; os outros, qualificados de fenômenos espirituais, porque se ligam à existência dos Espíritos, são da competência do Espiritismo. Mas há entre eles numerosos pontos de contato, que servem para mútuo esclarecimento e, como dissemos, o estudo de uns não poderia ser completo sem o estudo dos outros. É à explicação desses últimos que conduz o estudo dos fluidos, de que faremos, ulteriormente, assunto para um trabalho especial.
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(4) N. do T.: No original: phénomène de la végétation.
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(5) N. do T.: Allan Kardec valia-se da teoria do calor, em voga no século XIX, segundo a qual o calórico seria o fluido responsável pelos fenômenos térmicos.
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