Livros Espíritas
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A flor abre às carícias do Sol e das lágrimas do rocio; de igual modo a Alma se expande sob a influência radiosa da grande Natureza. Sob essas poderosas impressões, tudo nela se comove e vibra. Ela ora, e sua prece é um grito de reconhecimento e de amor. Da prece, passa à contemplação, essa forma Superior do pensamento, onde se infunde misteriosamente em nosso imo o sentido augusto, o sentido divino da obra universal. Mas a contemplação não basta. A verdadeira vida é a ação; a lei nos impõe a luta e a provação; somente por elas adquirem-se méritos. Nossos deveres e nossa tarefa cotidiana nos absorvem, nos retêm longe das fontes puras do pensamento. Eis por que é bom, é salutar, voltarmo-nos, de tempos a tempos, para a Natureza, a haurir forças e inspirações. Quem quer que a desconheça ou a ignore, padece, diminui-se. Aos que a amam, ela comunica, em compensação, o socorro moral, o viático necessário para marchar através dos abrolhos e das brumas da vida, para o fim supremo, luminoso, longínquo. De igual modo que o mar, e mais do que ele ainda, a montanha é paciente, fortificadora. Possui um princípio regenerador, que dá a calma aos nervos, a saúde aos degenerados, um meio de levantamento para a débil Humanidade. Na montanha, as agitações febris, as preocupações da vida fictícia e acabrunhadora das cidades esvaem-se para dar lugar a um modo de existência mais simples, mais natural. A altitude é uma escola de energia para aqueles que a cidade não enfraqueceu de todo. As vastas perspectivas aguçam a vista. Os pulmões se dilatam ao ar puro dos cimos. Os obstáculos estimulam nossos esforços; a ascensão e a escalada nos dão músculos de aço. Ao mesmo tempo em que as forças físicas se desenvolvem, as potências intelectuais se reconstituem, as vontades se retemperam. Ficamos habituados a agir, a vencer, a desprezar a morte. A razão disso está em que a montanha tem seus perigos. Seus atalhos são escarpados, seus precipícios aterradores. A vertigem nos espia nas alturas. O vento aí é áspero em certos dias e o raio retumba freqüentemente. Ou então são as brumas repentinas que nos envolvem e nos escondem o perigo. Às vezes, é preciso caminhar sobre estreitas cornijas, entre o abismo e a avalancha, evitar as aberturas escancaradas das geleiras, descer os declives escorregadios que terminam nos sorvedouros. No correr das minhas excursões, ouvi freqüentemente troar, de eco em eco, o pesado ruído das quedas de pedras e de massas de neve. Em certo recanto selvagem dos montes, em certa quebrada solitária, nós nos encontramos, repentinamente, em presença de cruzes que marcam o lugar onde muitos viajantes pereceram. Em compensação, há também lá, no alto, todas as ebriedades, todas as harmonias da luz e os encantos que as planícies não conhecem. Percebe-se aí a sinfonia universal e misteriosa dos ruídos, dos perfumes, das cores, a íntima e doce música das brisas e das águas. Ali se goza melhor a melancolia das tardes, quando o aroma dos prados e dos bosques sobe do seio dos vales até aos cimos. Então, a Alma do homem rompe os laços que o encadeiam à carne, e paira no éter sutil. Goza ele, nesse instante, de êxtases quase divinos. Não é sem razão que os fatos mais consideráveis da história religiosa se têm passado sobre os cimos. O Merom, o Gaya,(28) o Sinai, o Nebo, o Tabor e o Calvário são os altares soberbos de onde sobe, em poderoso transporte, a prece dos iniciadores. Nas almas de escol, a majestade dos grandes espetáculos desperta os sentidos íntimos, as faculdades psíquicas, e a comunhão com o Invisível se estabelece. Mas, em graus diversos, quase todos sentimos essa influência. Nesses momentos, o que há de artificial ou de vulgar, em nossa existência, desaparece para dar lugar a impressões sobre-humanas. É qual clareira que se abre no meio de nossas trevas, através das densas fumaradas que nos escondem habitualmente o céu e asfixiam as mais belas inteligências. Em um instante percebemos o mundo superior, celeste, infinito. Então, as irradiações do pensamento divino descem, qual benéfico orvalho, à maravilhada Alma. Longe dos preconceitos e das rotinas sociais, a Alma se expande livremente; encontra o seu gênio peculiar: o “awen” dos druidas. Suas seguras intuições lhe dizem que todos os sistemas são estéreis e que somente a grande mãe-natureza, o grande livro vivo, nos pode ensinar a verdade e a beleza perfeitas. Nas horas de recolhimento profundo, seja quando o Sol lança a prodigalidade de sua púrpura sobre a assembléia dos montes, seja quando a Lua derrama sua luz argêntea no meio do silêncio formidável, um diálogo solene se estabelece entre a Alma e Deus. Esses grandes pousos da vida são indispensáveis para que nos retemperemos, nos reconheçamos, para que possamos ver o fim supremo e nos orientemos, em passo seguro, para esse fim. Então, à semelhança dos profetas, descemos dos cimos, engrandecidos, iluminados de uma claridade interior. Aos apelos do meu pensamento, as recordações despertam em multidão. Eis-nos nos Pireneus, em ascensão ao pico de Ger, perto de Eaux-Bonnes. Para atingir a plataforma rochosa, espécie de mirante que constitui o cimo, é preciso empoleirarmo-nos sobre uma aresta, aguda qual lâmina de navalha, de cinqüenta metros de comprimento, acima de um vertiginoso abismo profundo de dois mil pés! Mas, dali, que vista! Toda a cadeia central se desdobra, desde os montes Malditos até o pico de Anie, cujo negro cimo emerge de um mar de nuvens, qual ilha do seio do oceano. A atmosfera é tão límpida, tão pura, que se distinguem os contornos dos montes mais longínquos. O Vignemale, o grupo dos grandes picos do Bigorre, com suas finas arestas, suas cores de geleiras, suas neves imaculadas, erigem-se quais brancos fantasmas sob a ardente luz do meio-dia. Graças à transparência do ar, os picos espanhóis, situados para além de cem quilômetros, mostram-se com tanta nitidez, que se poderia supor estarem próximos. Eu os torno a ver, como se fosse ontem, esses cimos grandiosos, dominando linhas de cristal que se sucedem até ao fundo do horizonte: o enorme Baleitous e, além, em uma aberta, o sombrio Monte-Perdido. Mais próximo, as formas familiares do Moné, do Gabizo, os pilones do Masboré, a brecha de Roland, velhos conhecidos que saúdo, de longe, com prazer. Serenidade inalterável envolve esta assembléia de gigantes, reunida em um conciliábulo eterno. No primeiro plano, o pico granítico de Ossau, solitário e feroz, continua seu sonho de cem séculos. Mais longe, esses cabeços avermelhados que se escalam para o sul pertencem à vertente espanhola, áspera, devorada pelo Sol, mas rica de colorido! Dessa vertente, explorei muitas vezes os circos selvagens, tão pouco conhecidos e de tão difícil acesso, as gargantas, despenhadeiros onde se precipitam torrentes invisíveis, que conseguiram cavar um leito subterrâneo no meio de um caos infernal. E que atalhos, cortados em forma de cornija nos flancos das paredes a pique! Aos nossos pés, abre-se o abismo, a muitas centenas de metros; sobre nossas cabeças, o abutre, de vorazes apetites, descreve grandes círculos. Entre essas cristas recortadas, alonga-se o Bramatuero, corredor sinistro, cortado de nevadas e lagos gelados, onde um padre italiano, que ia para Lourdes, foi assassinado, alguns dias antes da minha passagem. Mais adiante, escondido no fundo de um circo em forma de funil, de paredes abruptas e desornadas, Panticosa, estação terminal espanhola. O sítio é triste; por toda parte, do fundo das gargantas, eleva-se o estrondo das águas, semelhante aos rumores de uma tropa em marcha ou ao rodar surdo dos carros. Voltemos ao pico do Ger. Sobre a geleira vizinha, um guia me faz notar um ponto negro imóvel, que eu tomo por um rochedo. Mas a seus gritos, o objeto se desloca, move, escapole lentamente. Era um animal. Os gritos do guia despertaram os ecos da montanha. De todos os recantos do solo, das quebradas selvagens e das gargantas estreitas saem milhares de vozes. Dir-se-ia uma legião de duendes, de gnomos, de Espíritos escarninhos. O efeito é surpreendente. Lancemos um último e demorado olhar sobre esse panorama esplêndido. Sob a cúpula azulada, as altas montanhas se tingem de tintas fundidas, de pureza e de riqueza incomparáveis. O sol do meio-dia derrama sobre elas uma profusão de claridade, um jorro de luz dourada, que aumenta ainda o prestígio de suas formas fantásticas, atormentadas. Um mundo inteiro de torres, de agulhas, de picos canelados, de zimbórios, de campanários, de pirâmides, se levanta sob o céu, amontoado gigantesco de linhas, ora rudes e ásperas, ora arredondadas pelo rude trabalho das águas. Depois, aqui e ali, no intervalo, altas pastagens verdejantes, semeadas de currais, de onde sobem, em estreitos fios, fumos azulados; percebem-se as espessas florestas que bordam a fronteira, cascatas cintilantes, lagos tranqüilos, risonhos prados e planaltos gelados, tristes, desertos de cascalhos e entulho, ruínas de montanhas derruídas. Diante desse espetáculo, todas as impressões se fundem na sensação do imenso. É um esplendor de formas, de aspectos e de cores que não se podem descrever com as pálidas palavras da linguagem terrestre. O homem se reconhece bem pequeno; todas as suas obras lhe parecem efêmeras e miseráveis em face de tais colossos. Que estes se agitem somente, levantando os ombros, e todo trabalho humano desaparece, desmoronando-se. Mas a Alma se engrandece pelo pensamento. Um mundo de intuições e de sonhos desperta. Ela sente que esses espetáculos são um simples antegozo das maravilhas que o destino lhe reserva em sua ascensão eterna, de orbe em orbe, na sucessão dos tempos e dos mundos siderais.
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(28) Montanha da Índia onde o Buda recebeu sua revelação.
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