Livros Espíritas
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Tanto isso é verdade que muitas das melhores mensagens e dos mais convincentes fenômenos ocorrem quando o sensitivo - seja ele médium praticante ou não - encontra- se 'distraído' com uma atividade manual rotineira e repetitiva que não o induz a nenhum esforço especial de concentração extenuante. Alguns dos melhores insights me ocorrem, por exemplo, pela manhã, enquanto me barbeio. É a típica atividade automatizada que libera a mente para um trabalho, próprio ou alheio, dos mais interessantes. Idéias que, provavelmente, foram discutidas, pensadas ou implantadas durante o sono fisiológico emergem, naqueles momentos de relaxamento, precisamente quando a atividade consciente está reduzida a um mínimo possível, quase ao nível zero, ocupada apenas em tarefas rotineiras, em movimentos e cuidados automatizados, cedendo 'espaço' mental para pensamentos e idéias do subconsciente ou do inconsciente. Em uma de tais ocasiões, fui surpreendido com uma expressão desconhecida que somente depois de atenta pesquisa descobri que provinha da língua alemã - que desconheço -, e que tinha estreita conexão com certas questões que então compareciam, com certa freqüência, à minha mente, nas horas de meditação. Isto quer dizer que, assim que a mente oferece o 'espaço' de que vimos falando, tornamo-nos receptivos a certos 'recados' do inconsciente ou de seres invisíveis que, embora distantes, estão a nós vinculados por qualquer motivo. É essa, também, a razão pela qual fenômenos de vidência, clariaudiência ou intuição ocorrem a tantas pessoas - mesmo que não sejam médiuns praticantes - no estado crepuscular entre a vigília e o sono, nos momentos que antecedem ao mergulho no sono comum ou na 'volta', quando a pessoa, ainda sonolenta, não despertou de todo. O que nos leva a outra especulação; a de que esse estado de 'esvaziamento' da mente pode ser também resultante de um desdobramento, ou seja, de um afastamento maior ou menor do perispírito em relação ao corpo físico, pois, como sabemos, a consciência 'vai' com o espírito, em vez de 'ficar' no corpo físico. Como, também, a dor física, que desaparece enquanto estamos desprendidos do corpo, seja pelo sono fisiológico, seja pela hipnose ou pela anestesia. São hoje muito bem documentados tais fenômenos, não apenas na literatura espírita mas, também, na observação científica, especialmente pelos médicos, nos casos de morte aparente com retomada da vida no corpo. Como também vimos em A memória e o tempo, o dispositivo da consciência, durante o processo do desdobramento, permanece no corpo físico por alguns momentos, de onde a pessoa contempla seu próprio 'fantasma' desdobrado; em seguida, fica como que dividida entre corpo físico e corpo espiritual para, finalmente, emigrar para este último. Uma vez nesta terceira posição, o cérebro físico, embora continue energizado e vitalizado, pois o espírito continua preso a ele pelo cordão fluídico, está como que 'vago', disponível para receber impressões e imagens, não apenas de seu próprio espírito desdobrado, como de outros espíritos, tanto encarnados como desencarnados, próximos ou mais distantes. Todo esse procedimento ocorre em estado de relaxamento, de descontração, de repouso, durante o qual a realidade física externa fica como que isolada da realidade interna, espiritual, mental. Parece lógico, portanto, concluir que talvez não haja aqui um processo efetivo de bloquear o pensamento e fazê-lo estancar nas fontes profundas da mente mas, sim, uma técnica segundo a qual o perispírito, parcialmente desdobrado no corpo físico, leva consigo o dispositivo da consciência, deixando 'vagos' e em disponibilidade, os mecanismos correspondentes no organismo físico, por onde circulam idéias, imagens e pensamentos sob seu comando. É como se a consciência, ao afastar-se, permitisse que 'alguém' a substituísse no comando do organismo. De tudo o que ficou dito fica-nos, portanto, a conclusão de que, em vez de um esforço quase físico ou mental de concentração, o médium precisa é exatamente do contrário, isto é, de um estado de relaxamento que crie, em si mesmo, a receptividade necessária ao desempenho de sua tarefa. O esforço de concentração resulta não apenas improdutivo, mas contraproducente, dado que, em vez de criar um relaxamento propício aos processos mentais, mantém o corpo e a mente em estado de tensão indesejável. Segue-se que o fluxo incessante do pensamento não é propriamente estancado como quem fecha uma torneira e, sim, continua a fluir em outro contexto, ou seja, no âmbito do espírito, sem circular, contudo, pelos dispositivos conscientes ou orgânicos do cérebro físico. Esta hipótese parece reforçada quando nos lembramos de que o espírito nunca está inconsciente, a não ser em caso de alienação mental que, por mais que dure, é sempre temporário. Temos, disso, evidente demonstração no mecanismo da chamada mediunidade sonambúlica ou inconsciente, na qual o médium como que entrega seu corpo físico ao espírito manifestante, permanecendo consciente, ao seu lado, e até exercendo, quando bem treinado, certo controle para que o espírito, se turbulento, não provoque tumultos indesejáveis. Mesmo os médiuns que mantêm, no corpo, certo grau de consciência - ela pode estar distribuída entre o corpo físico e o espiritual - acompanham a manifestação que se realiza por intermédio de seus corpos físicos, assistem aos gestos, ouvem a voz, mas não conseguem interferir para que os seus pensamentos se reproduzam, e não os do manifestante. Assim, mesmo tido por inconsciente, no corpo físico, o espírito está sempre consciente, embora sem poder interferir de maneira mais drástica, como às vezes gostaria de fazer para conter impulsos de violência ou de incontinência verbal do manifestante. Ao discorrer sobre fenômenos de alucinação, Boddington volta a lembrar que a concentração, da maneira pela qual muitos a entendem, deve ser evitada e não, desejada. Acha ele - e como ficou dito há pouco, essa também é minha experiência - que a pressão e a tensão da chamada concentração devem ser excluídas ou neutralizadas, precisamente para não criarem dificuldades ao exercício das faculdades de que precisamos, livres de distorções e deformações alucinatórias. É preferível e desejável, no desempenho do trabalho mediúnico, a tranqüila espera, em estado de relaxamento e descontração. Tanto o desenvolvimento da mediunidade, portanto, quanto sua utilização regular devem ser regidos pelo princípio da espontaneidade, sem forçar nada, seja para desenvolver faculdades mediúnicas a qualquer preço, seja para produzir fenômenos de qualquer maneira. De tais esforços podem resultar não apenas fenômenos alucinatórios ou fantasiosos, mas também exaustão física e mental indesejáveis. Por outro lado, quanto mais a consciência do médium interferir com o fluxo normal de suas faculdades e dos fenômenos que por seu intermédio se produzem, menos satisfatório será o resultado de seus esforços, e, em conseqüência, de seu trabalho, não se trata aqui de sufocar, reduzir ou extinguir as manifestações próprias da consciência, mas de redirecioná-las, de forma que, no momento oportuno, o pensamento do médium ceda sua vez ao pensamento dos que desejam se manifestar por seu intermédio. Claro que tudo isto diz respeito, basicamente, ao fenômeno da incorporação, como ainda veremos mais adiante, uma vez que, no exercício da mediunidade psicográfica, as coisas se passam, em certas modalidades, de maneira diversa. Como ainda veremos, o médium pode manter sua mente totalmente ocupada até com pensamentos alheios ou seus mesmos e continuar a psicografar um texto coerente e de elevado teor doutrinário ou filosófico, como na psicografia mecânica, na qual ele apenas 'empresta' seu braço ao manifestante, mas fica com o controle de tudo o mais da sua instrumentação mediúnica, podendo até atender, pela mesma psicografia, outro espírito, com a mão desocupada, e ainda um terceiro manifestante, pela psicofonia. 24. DE NOVO A PASSIVIDADE Finalmente, resta um aspecto a abordar neste módulo, que é precisamente o da tão falada passividade, de que cuidamos páginas atrás, sob outro aspecto. Um momento de meditação nos assegurará de que passividade não é mais do que a resultante do próprio estado de relaxamento que estamos falando. É um estado de expectativa, sem açodamento, sem ansiedade, sem tensões, embora não seja também uma entrega total, pois o médium disciplinado e bem treinado saberá sempre como exercer certo controle sobre a manifestação, ainda que sem condições para criar bloqueios ou influenciar o pensamento alheio que flui por seu intermédio, a ponto de modificá-lo substancialmente. É certo que as idéias que acolhe de uma entidade manifestante são vestidas com seu vocabulário habitual na língua com a qual ele, médium, esteja familiarizado ou com outra que ele saiba utilizar com proficiência. Nos fenômenos de xenoglossia, o espírito fala por seu intermédio uma língua desconhecida. Em todas essas variedades, contudo, ele funciona como um instrumento passivo, sim, mas não inerte, incapaz de participação consciente e até vigilante, postura que ele costuma manter, em espírito, desdobrado do corpo físico, enquanto a entidade se serve deste para transmitir sua comunicação. O experimentado Boddington adverte, porém, que é tão importante para o médium a capacidade de entregar-se passivamente ao trabalho de filtragem de uma personalidade alheia - diríamos que também para a sua própria - como a de resistir à manifestação.
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