Livros Espíritas
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Apesar de acostumados ao espetáculo permanente da c hegada de estrangeiros à cidade, dada a sua privi legiada situação no deserto, os transeuntes de Palmira notaram, com profundo interesse, a passagem daquele beduíno seguido de humilde serviçal a puxar um mísero camelo arquejante de cansaço. Sem dúvida, rec onheceram-lhe o perfil de judeu -nos traços característicos do rosto, na energia serena que lhe transparecia do olhar. Saulo, por sua vez, transitava com ar indiferente, como se convivesse naquele cenário, de há muito tempo. Ciente de que o irmão do antig o mestre era ali negociante dos mais conhecidos e abastados, não teve dificuldade em obter informações de um compatrício, que lhe indicou a residência. Acomodando-se numa estalagem comum para ref a zer-se das fadigas da viagem, consultou a bolsa para regul ar o seu programa. O dinheiro esgotava se, mal chegaria para remunerar o companheiro dedicado que lhe fôra amigo fiel em toda a penosa viagem. Depois de informado do “quantum” a pagar, verificando a insuficiência dos recursos, falou -lhe com humildade: — Judá, de momento não tenho o bastante para compensar melhor o serviço que me prestaste. Entre tanto, dou-te metade da importância e mais o camelo em pagamento do restante. O próprio servo comoveu -se com o tom humilde da proposta. — Não precisa tanto, senhor — respondeu confuso —, o valor do animal basta e sobra. Desse modo, não ficará desprevenido. Contento -me com algumas moedas, apenas o necessário para custear a volta. Saulo teve para ele um olhar de reconhecimento e, alegando a impossibilidade de o reter por mais tempo, despediu -o com expressões de conforto e votos de feliz regresso a Damasco. Depois, recolhendo-se ao quarto pobre que tomara, entrou a meditar, acuradamente, nos últimos aconteci mentos da sua vida. Estava só, sem parentes, sem amigo s, sem dinheiro. Pouco antes daquela resolução de partir no encalço de Ananias, não vacilaria em decretar a morte de quem profetizasse o futuro que o esperava. Sua existência, seus planos, estavam transformados nos detalhes mais íntimos. Que fazer agora? E se não encontrasse em Palmira o socorro de Gamaliel, conforme aguardava em suas esperanças secretas? Considerou a extensão das dificuldades que se desdobravam a seus olhos. Tudo di fícil. Estava como o homem que houvesse perdido a família, a pátria e o la r. Profunda amargura ameaçava invadir -lhe o coração. Repentinamente, porém, recor dou-se do Cristo e a lembrança da visão gloriosa encheu-lhe de conforto o espírito desolado. Confiando muito mais naquele que lhe estendera as mãos, do que em suas próprias f orças, procurou acalmar os sobressaltos íntimos, dando repouso ao corpo fatigado. No dia seguinte, manhã alta, saiu à rua preocupado e ansioso. Obedecendo aos informes recolhidos, parou à porta de confortável edifício, à frente do qual funcionavam grandes lojas comerciais. Procurando Ezequias, foi logo atendido por um ho mem idoso, de semblante risonho e respeitável, que o saudou com muita simpatia. Tratava -se do irmão de Gamaliel, que, logo se familiarizando com o patrício recém -chegado de longe, proporcionou-lhe confortadora palestra. Buscando informar -se, delicadamente, a respeito do venerável rabino de Jerusalém. Saulo obtinha de Ezequias os esclarecimentos necessários, tomado de profundo interesse: — Meu irmão — dizia ele preocupado — desde que chegou a Palmira pareceu-me muito diferente. É pos sível que a mudança de Jerusalém tenha influído para essa profunda transformação. A diferença de ambiente social, a alteração de hábitos, o clima, a ausência dos trabalhos usuais, tudo isso pode ter-lhe prejudicado a saúde. — Como assim? — perguntou o moço sem dissi mular a estranheza. — Passa dias e dias numa cabana abandonada que possuo, à sombra de algumas tamareiras, num dos mui tos oásis que nos rodeiam; e isso, veja, tão só para ler e meditar um manuscrito sem importância, que não consegui compreender. Além disso, parece -me completamente desinteressado de nossas práticas religiosas, vive como que alheio ao mundo. Fala em visões do céu, re fere-se constantemente a um carpinteiro que se transformou em Messias do povo e alimentava -se de coisas imaginárias, de sonhos irreais. As vezes, é com pro fundo pesar que lhe observo a decadência mental. Minha mulher, porém, tudo atribui à idade avançada e eu quero crer seja antes, ou pelo menos em grande parte, devido à intensidade do estudo, das meditações prolongadas. Ezequias fez uma pausa, enquanto Saulo fixava nele o olhar percuciente e significativo, compreendendo a con dição do velho mestre. A uma nova observação do moço tarsense, conti nuava o outro, loquaz: — No seio de minha família, Gamaliel é tratado como se fora o nosso pai. Aliás, devo meu início de vida às suas imensas dedicações fraternais. Por isso mesmo, eu e minha mulher combinamos com os filhinhos, relativamente à atmosfera de paz que deverá cercar aqui o prezado e nobre enfermo. Quando ele discorre sobre as ilusões religiosas que o empolgam no seu desequilíbrio mental, ninguém nesta casa o contradiz. Já sabemos que não fala mais por si. A mentalidade poderosa esmaeceu, a estrela se apagou. Considerando essas penosas circunstâncias, ainda rendo graças a Deus que mo trouxe aqui, para terminar seus dias aquecido pelo nosso afeto fami liar, e indene do escárnio de que talvez pudesse ser objeto em Jerusalém, onde nem todos estão à altura de lhe compreender e honrar o passado ilustre. — Mas a cidade sempre venerou nele um mestre inesquecível — ajuntou o rapaz como se quisesse defender seus próprios sentimentos de amizade e admiração. — Sim — esclareceu o negociante, convicto —, um homem do seu nível intelectual estaria preparado a en tender tudo, mas os outros? O senhor não ignora, naturalmente, a perseguição implacável, movida pelas autori dades do Sinédrio e do Templo, contra os simpatizantes do famoso carpinteiro nazareno. Palmira teve notícias dos fatos, p or intermédio de inúmeros patrícios pobres, que deixaram Jerusalém à pressa, ameaçados de prisão e morte. Ora, foi justamente com a personalidade desse homem que Gamaliel deu as primeiras demonstrações de fraqueza mental. Se estivesse por lá, que seria da sua velhice desamparada? Naturalmente muitos amigos, como o senhor, estariam a postos para a defesa; mas, o caso podia tomar aspectos mais graves, surgirem inimigos políticos reclamando medidas ingratas. E de nossa parte nada poderíamos tentar para restabelecer a situação, por que, na verdade, a sua loucura é pacífica, quase imperceptível e de maneira alguma conseguiríamos suportar sua apologia ao celerado que o Sinédrio mandou à cruz dos ladrões. Saulo sentia extremo mal -estar ouvindo aquelas ob servações, agora tão injustas e superficiais ao seu ver. Compreendia a delicadeza do momento e a natureza dos recursos psicológicos a empregar, para não se compro meter, agravando, ainda mais, a posição do mestre ilustre. Desejando imprimir novo rumo à conversa, pe rguntou com serenidade: — E os médicos? qual a opinião dos entendidos? — No último exame a que se submeteu, por insis tência nossa, descobriram que o estimado doente, além de perturbado, padece de singular astenia orgânica, que lhe vai consumindo a s últimas forças vitais. Saulo fez ainda algumas observações, contristado, e, depois de reconsiderar as primeiras impressões rela tivamente à amável hospitalidade de Ezequias, auxiliado por um pequeno servo da casa, demandou o local, onde o antigo mentor o recebeu com surpresa e alegria. O ex-discípulo notou que Gamaliel, com efeito, apre sentava sintomas de profundo abatimento. Foi com infinito júbilo que o apertou afetuosamente nos braços, osculando-lhe, amoroso, as mãos encarquilhadas e trê mulas. Seus cabelos pareciam mais brancos; a epiderme sulcada de rugas veneráveis dava impressão do alabastro uma palidez indefinível. Falaram longamente das saudades, dos sucessos de Jerusalém, dos amigos distantes. Depois dos preâmbulos afetuosos, o moço tarsense rel atou ao mestre venerando as graças recolhidas às portas de Damasco - A voz de Saulo tinha a inflexão vibrante da paixão e da sinceri dade que costumava imprimir às emoções próprias. O velhinho ouviu -lhe a narrativa com indizível espanto; nos olhos vivos e serenos, rorejavam lágrimas de emo ção, que não chegavam a cair. Aquela prova enchia -o de profundo consolo. Não havia aceitado, em vão, aquele Cristo sábio e amoroso, incompreendido dos colegas. Ao término da exposição, Saulo de Tarso tinha o olhar ve lado em pranto. O bondoso ancião abraçou-o comovidamente, atraindo-o ao coração. —Saulo, meu filho — disse exultante —, bem sabia que me não enganava a respeito do Salvador, que tão profundamente me falou à velhice exausta, através da luz espiritual do seu E vangelho de redenção. Jesus dignou -se estender as mãos amorosas ao teu Espírito dedicado. A visão de Damasco bastará para a consagra ção de tua existência inteira ao amor do Messias. É verdade que muito trabalhaste pela Lei de Moisés, sem hesitar na adoção de medidas extremas, na sua defesa. Entretanto, é chegado o momento de trabalhares por quem é maior que Moisés. — Sinto-me, porém, grandemente desorientado e con fundido — murmurou o jovem de Tarso, cheio de con fiança. Desde a ocorrência noto que estou sendo objeto de singulares e radicais transformações. Obediente ao meu feitio absolutamente sincero, quis começar meu es forço pelo Cristo, em Damasco, e, no entanto, recebi dos nossos amigos, dali, as maiores manifestações de des prezo e ridículo, que muit o me fizeram sofrer. Repen tinamente, vi-me sem companheiros, sem ninguém. Al guns componentes da reunião do “Caminho” consolaram minhalma abatida com as suas expressões de fraternidade, mas não foram bastantes para ressarcir as amar gas desilusões experimentadas. O próprio Sadoc, que, na infância, foi pupilo de meu pai, cobriu-me de recriminações e zombarias.
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