Livros Espíritas
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— Pois fase constar nos teus apontamentos que o escravo Jeziel, atacado de mal desconhecido, contraído em Cefalônia, foi sepultado no mar, antes que a peste contagiasse os tripulantes e passageiros. Para que o rapaz não se comprometa, instruí-lo-ei a respeito, dando -lhe umas tantas ordens terminantes. Além disso, noto -o bastante enfraquecido para resistir com êxito às crises culminantes da moléstia ainda em começo. Quem poderá garantir que ele resistirá? Quem sabe morrerá ao aban dono, no segundo minuto de liberdade? O comandante e o feitor trocaram um olhar inte ligente, de implícito acordo mútuo. Depois de longa pausa, Sérvio concordou, dando -se por vencido: — Está bem, seja. O moço patrício estendeu a mão aos dois e mur murou: — Por este obséquio ao meu dever de consciência, poderão sempre dispor em mim de um amigo. Daí a instantes, Sérgio acercou -se do jovem, semi-adormecido junto do seu camarote e já tomado da febre em começo de explosão, dirigindo -lhe a palavra com delicadeza e bondade: — Jeziel, desejarias voltar à liberdade? — Oh! senhor, exclamou o jovem reanimando o organismo com um raio de esperança. — Quero compensar a dedicação que me dispensaste nos longos dias da minha enfermidade. — Sou vosso escravo, senhor. Nada me deveis. Ambos falavam o grego e, refleti ndo subitamente na situação de futuro, o patrício interrogou: — Sabes o idioma comum da Palestina? — Sou filho de israelitas, que me ensinaram a lín gua materna nos mais verdes anos. — Então, não te será difícil recomeçar a vida nessa província. E medindo as palavras, como se temesse alguma surpresa contrária aos seus projetos, acentuou: — Jeziel, não ignoras que te encontras enfermo, talvez tão gravemente quanto eu, há alguns dias. O comandante, atento à possibilidade de um contágio geral, dada a presença de numerosos homens a bordo, pre tendia lançar-te ao mar; contudo, amanhã de tarde chegaremos a Jope e hei de valer me dessa circunstância para devolver -te à vida livre. Não desconheces, todavia, que, assim procedendo, estou a infringir certas determi nações importantes que regem os interesses de meus compatriotas, e é justo pedir -te sigilo do meu feito. — Sim, senhor — respondeu o rapaz extremamente abatido, tentando com dificuldade coordenar as idéias. — Sei que dentro em pouco a enfermidade assu mirá graves proporções, prosseguiu o benfeitor. Dar -te-ei a liberdade, mas só o teu Deus poderá conceder-te a vida. Entretanto, caso te restabeleças, deverás ser um novo homem, com um nome diferente. Não desejo ser incul pado de traidor dos meus próprios amigos e devo contar com a tua cooperação. — Obedecer-vos-ei em tudo, senhor. Sérgio lançou-lhe um olhar generoso e terminou: — Tomarei todas as providências. Dar -te-ei algum dinheiro para atenderes as primeiras necessidades e vestirás uma de minhas velhas túnicas; mas, tão logo seja possível, vai-te de Jope para o interior da província. O porto está sempre cheio de marinheiros romanos, curiosos e maleficentes. O enfermo fez um gesto de agradecimento, enquanto Sérgio se retirava para atender ao chamado de alguns ami gos. No dia imediato, à hora esperada, o casario palesti nense estava à vista. E quando luziam os primeiros astros da noite, pequeno batel aproximava -se de local silencioso das margens, tripulado por dois homens cujos vultos se perdiam na sombra. Derradeir as palavras de bom conselho e despedida, e o moço hebreu osculou, como vidamente, a destra do benfeitor, que voltou à galera apressado, de consciência tranqüila. Mal não dera os primeiros passos, Jeziel sentou -se premido pelas dores gerais que lhe tomavam todo o corpo e pelo abatimento natural, conseqüente à febre que o consumia. Idéias confusas dançavam -lhe no cérebro. Queria pensar na ventura da libertação; desejava fixar a imagem da irmã, que haveria de procurar no primeiro ensejo; mas estranho torpor i nfirmava-lhe as faculdades, acarretando-lhe sonolência invencível. Olhou, indi ferente, as estrelas que povoavam a noite refrescada pelas brisas marinhas. Reparou que havia movimento nas casas próximas, mas deixou -se, ficar inerte no matagal a que se recolhera, junto da praia. Pesadelos es tranhos dominaram-lhe o repouso físico, enquanto o vento lhe acariciava a fronte febril. De madrugada, acordou ao contacto de mãos des conhecidas, que lhe revistavam atrevidamente os bolsos da túnica. Abrindo os olhos, estremunhado, notou que os pri meiros clarões da alvorada listravam os horizontes. Um homem de fisionomia sagaz inclinava -se para ele, procurando alguma coisa, com ansiedade que o moço hebreu adivinhou de pronto, convencido de haver topado um desses malfe itores comuns, ávidos da bolsa alheia. Estre meceu e fez um movimento involuntário, observando que o assaltante inesperado alçara a mão direita, empunhando um instrumento, na iminência de exterminar -lhe a vida. — Não me mates, amigo — balbuciou com voz trêmula. A essas palavras, ditas comovedoramente, o meliante susteve o golpe homicida. — Dar-vos-ei todo o dinheiro que possuo — rematou o rapaz com tristeza. E, vasculhando a algibeira em que guardara o es casso dinheiro que lhe dera o patrício, tudo entrego u ao desconhecido, cujos olhos fulguraram de cobiça e prazer. Num relance, aquela fisionomia contrafeita trans formava-se no semblante risonho de quem deseja aliviar e socorrer. — Oh! sois excessivamente generoso! — murmurara, apossando-se da bolsa recheada. — O dinheiro é sempre bom — disse Jeziel — quando com ele podemos adquirir a simpatia ou a misericórdia dos homens. O interlocutor fingiu não perceber o alcance filo sófico daquelas palavras e asseverou: - Vossa bondade, entretanto, dispensa o concurso de quaisquer elementos estranhos para a conquista de bons amigos. Eu, por exemplo, dirigia -me agora para o meu trabalho no porto, mas experimentei tanta sim patia pela vossa situação que aqui estou para quanto vos preste. — Vosso nome? — Irineu de Crotona, para vos servir — respondeu o interpelado, visivelmente satisfeito com o dinheiro que lhe refertava o bolso. — Meu amigo — exclamou o rapaz extremamente enfraquecido —, estou enfermo e não conheço esta cidade, de modo a tomar qualquer resolução. Podeis indicar-me algum albergue ou alguém que me possa prestar a cari dade de um asilo? Irineu esboçou uma fácies de fingida piedade e res pondeu: — Pesa-me nada ter para colocar à disposição de vossas necessidades; e também não sei onde possa existir um abrigo a dequado para receber-vos, como se faz preciso. A verdade é que, para a prática do mal, todos estão prontos, mas para fazer o bem... Depois, concentrando-se por momentos, acrescentou: — Ah! agora me lembro!... Conheço umas pes soas que vos podem auxiliar. São os homens do “Ca minho”. (1) Mais algumas palavras e Irineu prontificou -se a conduzi-lo ao conhecido mais próximo, amparando-lhe o corpo enfermo e vacilante. O sol caricioso da manhã começava a despertar a Natureza com os seus raios quentes e conforta dores. Feita a reduzida caminhada por um atalho agreste, sustido pelo meliante arvorado em benfeitor, Jeziel pa rava à porta de uma casa de aparência humilde. Irineu entrou e de lá regressou com um homem idoso, de sem blante agradável, que estendeu a mão, cordialmente, ao moço hebreu, dizendo: — De onde vens, irmão? O rapaz admirou-se de tanta afabilidade e delica deza, num homem a quem via pela primeira vez. Por que lhe dava o título familiar, reservado ao círculo mais íntimo dos que nasciam sob o mesmo te to? — Por que me chamais irmão, se não me conheceis? — interrogou comovido. Mas o interpelado, renovando o sorriso generoso, acrescentava: — Somos todos uma grande família em Cristo Jesus. Jeziel não compreendeu. Quem seria aquele Jesus? Um novo deus para os que desconheciam a lei? Reco nhecendo que a enfermidade não lhe dava ensanchas a cogitações religiosas ou filosóficas, respondeu simples mente: Deus vos recompense pela generosidade da aco lhida. Venho de Cefalônia, tendo adoecido gravemente em viagem, e assim e que, neste estado, recorro à vossa caridade. (1) Primitiva designação do Cristianismo. (Nota de Emmanuel.) — Efraim — disse Irineu dirigindo-se ao dono da casa —, nosso amigo tem febre e o seu estado geral requer cuidados. Você, que é um dos b ons homens do “Caminho”, há de acolhê -lo com o coração dedicado aos que sofrem. Efraim aproximou-se mais do jovem enfermo e observou: — Não é o primeiro doente de Cefalônia que o Cristo envia à minha porta. Ainda anteontem, outro aqui surgiu com o corpo cr ivado de feridas de mau caráter. Aliás, conhecendo a gravidade do caso, pretendo logo à tarde levá -lo para Jerusalém. — Mas, é necessário ir tão longe? — perguntou Irineu com certo espanto. — Somente lá, temos maior número de cooperado res — esclareceu com humildade. Ouvindo o que diziam e considerando a necessidade de ausentar -se do porto em obediência às recomendações do patrício que se lhe mostrara tão amigo, restituindo-o à liberdade, Jeziel dirigiu -se a Efraim num apelo humilde e triste: — Por quem sois! levai-me para Jerusalém convos co, por piedade!... O irterpelado, evidenciando natural bondade, anuiu sem maior estranheza: — Irás comigo. Abandonado por Irineu aos cuidados de Efraim, o doente recebeu carinhos de um verdadeiro amigo. Não fosse a febre e teria travado com o irmão um conhecimento mais íntimo, procurando conhecer minuciosamente os nobres princípios que o levaram a estender -lhe a mão protetora. Contudo, mal conseguiu manter-se de pensamento vigilante sobre si mesmo, a fim de elucidar as suas interrogações carinhosas, medicando -se convenientemente. Ao crepúsculo, aproveitando a frescura da noite, uma carroça, cuidadosamente velada por um toldo de pano barato, saía de Jope com destino a Jerusalém. Caminhando cuidadoso para não esfalfar a pob re alimária, Efraím transportava os dois enfermos à cidade próxima, buscando os recursos indispensáveis.
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