Livros Espíritas
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Agradeci, comovido, a deferência, mas esquivei-me. Falaria ele mesmo, Calderaro. Minha condição era a do aprendiz. Ali me encontrava por ouvir-lhe as sublimes lições. O abnegado amigo colocou as mãos sobre os lobos frontais dela, como atraindo a mente materna para a região mais elevada do ser, e passou a irradiar-lhe tocantes apelos, como se lhe fora desvelado pai falando ao coração. Fundamente sensibilizado, assinalava-lhe as palavras de ânimo e de consolação, que a afetuosa mãezinha recebia em forma de ideias e sugestões superiores. Notei que a disposição íntima da jovem senhora tomava pouco a pouco um renovado alento. Observei que na epífise lhe surgira suave foco de claridade irradiante e que de seus olhos começaram a brotar lágrimas diferentes. A claridade branda, fluindo do cérebro, desceu para o tórax, de onde, então, se evolaram tênues fios de luz que a ligaram ao filhinho infeliz. Contemplou o pequeno, agora calmo, através do espesso véu de pranto e ouvi-lhe os pensamentos sublimes. Sim, Deus não a abandonaria, — meditava; — dar-lhe-ia forças para cumprir até ao fim o cometimento que tomara a ombros, com a beleza do primeiro sonho e com a ventura da primeira hora. Sustentaria o desventurado rebento de sua carne, como se fora um tesouro celeste. Seu amor avultaria com os padecimentos do filhinho muito amado; seus sacrifícios de mãe seriam mais doces, toda vez que a dor o visitasse com maior intensidade. Não era ele mais digno de seu devotamento e renúncia pela aflitiva condição em que nascera? Os filhos de antigas companheiras eram formosos e inteligentes; como botões perfumados da vida, prometendo infinitas alegrias no jardim do futuro; também seu pequenino paralítico era belo, necessitando, porém, de mais blandícia e arrimo. Saberia Deus porque viera ele ao mundo, sem a faculdade da palavra e sem manifestações de inteligência. Não lhe bastaria confiar no Supremo Pai? Serviria ao Senhor sem indagar; amaria seu filho pela eternidade; morreria, se preciso fora, para que ele vivesse. Num transporte de indefinível carinho, a jovem mãe inclinou-se e beijou o doentinho nos lábios, com o júbilo de quem osculasse um anjo celestial. Vi, surpreendido, que numerosas centelhas de luz se desprendiam do contato afetivo entre ambos e se derramavam sobre as duas entidades inferiores; estas, de sua parte, se inclinaram também, como que menos infelizes, perante aquela nobre mulher que mais tarde lhes serviria de mãe. Calderaro tocou-me de leve o ombro e informou: — Nosso trabalho de assistência está findo. Vamo-nos. E, indicando mãe e filho juntos, concluiu: — Examinando essa criança sofredora como enigma sem solução, alguns médicos insensatos da Terra se lembrarão talvez da “morte suave”; ignoram que, entre as paredes deste lar modesto, o Médico Divino, utilizando um corpo incurável e o amor, até o sacrifício, de um coração materno, restitui o equilíbrio a Espíritos eternos, a fim de que sobre as ruínas do passado possam irmanar-se para gloriosos destinos.
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