Livros Espíritas
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Finalmente, há uma quarta modalidade de vidência. Nesta, Regina viu realmente as cenas, em vez de ser apenas uma espectadora. É como se ela estivesse de volta àquele passado, nos mesmos cenários, com as mesmas pessoas de outrora. Vive aquele agora, transportada à época, no vestuário próprio, com o tipo físico de então, e mais as casas, os móveis, toda a ambientação, enfim. Não têm esses episódios as características de uma projeção, de uma representação teatral ou de um filme, mas de uma vivência autêntica, porque ela não está na platéia, mas no palco. É capaz de sentir o tecido de linho cru sobre a pele, o frio das pedras do piso, tanto quanto a agitação das emoções dentro dela. E no entanto não perde sua identidade espiritual. Sabe que, em tudo aquilo, continua sendo ela mesma; há como que uma continuidade, uma coerência, uma lógica em todas as coisas. É como se sua individualidade tivesse apenas trocado uma vestimenta por outra, um ambiente por outro, sua história de hoje por uma das que ontem lhe aconteceram. O fio que liga aquilo tudo - conteúdo, sentido e seqüência - é a individualidade. Ela sabe que é EU hoje e que é também EU naquele passado que revive, tal como se tivesse tomado a deliberação de voltar sobre seus passos e revisitar o passado que ficou por aí, encravado em uma das intercessões tempo/espaço. Casos como este é que me levaram a formular a hipótese de que o tempo é também um local, conforme especulações expostas em A memória e o tempo. O problema principal, aqui, consiste em ordenar tais lembranças ou projeções, uma vez que elas emergem não na seqüência certinha passado/ presente/futuro, tudo encadeado na posição esperada, mas por fragmentos ou manchas que depois é preciso 'encaixar' no lugar correto. Isso porque cenas de vidas diferentes podem ocorrer em um mesmo desprendimento; ou diversas cenas de uma só vida, em diferentes oportunidades de desdobramento; até que uma colagem paciente e meditada consiga pôr as cenas na ordem certa. A memória, como vimos no livro citado, não se preocupa muito com a rígida seqüência do tempo, distribuída comportadamente em uma escala cronométrica de dias, anos, séculos e milênios. Ela está guardada em uma dimensão atemporal. Pode, também, ocorrer a Regina que ela assista (ou reviva) ao fragmento de certa vida em um dia e, dias ou semanas depois, volte àquele mesmo lugar para retomar a história interrompida e prosseguir dali em diante. Várias dessas existências, entrevistas por processos anímicos, mediúnicos ou combinados, foram-lhe confirmadas. Algumas, por médiuns dotados de recursos de clarividência e de faculdades semelhantes às suas; outras, no decorrer dos diálogos com espíritos manifestados, em trabalho de doutrinação, no grupo mediúnico ao qual ela serve com suas faculdades. Uma dessas vidas, com detalhes expressivos e que ela já conhecia, foi-lhe descrita por um médium americano que jamais havia estado com ela antes. 6. A REGRESSÃO É UM BEM OU UM MAL? Especulações adicionais tornam-se necessárias ante o fenômeno do mergulho no passado. Conhecer algumas das nossas vidas anteriores é um bem ou um mal? Regina acha que para ela foi bom, mas reconhece que não é uma regra geral essa reação positiva. Se dependesse de sua recomendação, ela aconselharia manter-se o esquecimento natural que nos impõem os dispositivos policiadores da reencarnação. Ou, pelo menos, que não seja feita nenhuma tentativa por mera curiosidade ou na esperança de que isto vá resolver problemas íntimos. A experiência é sempre impactante e poderá ser traumatizante, criando mais conflitos do que os que pretenderia resolver. Isto porque as emoções adormecidas são suscitadas em toda a sua intensidade original. É preciso estar em boas condições emocionais e mentais para suportar certos impactos. O ideal é que a conveniência e oportunidade de tais buscas passassem por uma avaliação preliminar competente, de psicológo ou psiquiatra alertado para a realidade espiritual ou, pelo menos, disposto a aprender com o próprio mecanismo que está a examinar; e que o processo fosse conduzido com sensibilidade, sem colisões e conflitos, que poderão agravar a problemática do paciente em vez de ajudá-lo a minimizá-la ou reesolvê-la. Vejo essas condições ideais em duas eminentes psicólogas americanas, as dras. Edith Fiore e Helen Wambach, que demonstram possuir em grau adequado uma das mais preciosas facetas da humildade: a de aprender, mesmo com aquilo que contraria postulados teóricos consagrados, e mais principalmente porque os contraria, mas abre novas avenidas ao conhecimento. Por enquanto, são exceções. Um dia, serão a norma. Ao tempo em que andei experimentando com a memória (como técnica de aprendizado e não como recurso terapêutico), era procurado por pessoas desejosas de se entregarem a uma exploração arqueológica nas suas memórias ocultas. Até hoje, isto eventualmente ocorre, pois a curiosidade é uma constante nesse campo. Sempre questionei tais motivações esclarecendo delicadamente que não estávamos interessados em trabalho dessa responsabilidade apenas para satisfazer curiosidades, por mais legítimas que fossem. Além do mais, é difícil prever que reações a pessoa vai experimentar ao confrontar-se com episódios aflitivos, da maior intensidade emocional. Já bastam, à maioria de todos nós, os problemas e as dificuldades da existência presente. Por que sobrecarregá-la com os que vivemos a séculos passados: Ou ressuscitar na memória erros tenebrosos cometidos". Uma senhora que me pediu, insistentemente, uma tentativa de regressão, estava desejosa de saber o que ocorrera no passado entre ela e mãe. Por mais que a mãe a cercasse de atenções e de carinho, ela a rejeita (disfarçadamente ao ponto da repugnância física). Reconhecia que o procedimento era indigno e sentia-se agonia da por não conseguir libertar-se da sensação desagradável de rejeição, sem a menor razão válida no âmbito desta vida. Era um sentimento de vergonha e de culpa, difícil de superar, situação que não conseguia mesmo contornar. Conversamos longamente. Se ela tivesse as condições mínimas necessárias ao desprendimento e, conseqüentemente, à regressão, não seria difícil chegar às razões do problema gerado por conflitos do passado pois certamente conflitos havia - indelevelmente gravados em sua memória integral. De que lhe adiantaria, contudo, identificar a causa? Não era difícil supor qual fosse: a mãe atual, provavelmente em outra posição de relacionamento, causara-lhe algum desgosto profundo, como era óbvio, mas estava envidando o melhor de seus esforços para redimir-se perante a antiga vítima. Entendia eu que a revelação da verdadeira motivação, em toda a sua crueza e impacto, em vez de levar a filha a uma postura de melhor compreensão e conseqüente aceitação, poderia agravar ainda mais o estresse daquele difícil relacionamento. Mesmo com a melhor boa vontade, iria prevalecer a dolorosa certeza: - Ah, então foi você aquela megera que me fez isto ou aquilo! E a amiga que me pedia a experiência iria passar a ver a senhora não como sua mãe de hoje - sempre atenta, disposta a ajudá-la, a protegê-la e amá-la, mudada, portanto -, mas a antiga adversária, que talvez tivesse destroçado, com um gesto irresponsável e cruel, toda sua expectativa de felicidade, de paz e de amor. Acrescentei um conselho que - se assim entender o leitor - pode ser considerado como mera pregação, mas que é uma das muitas verdades singêlas e lúcidas do grande tratado universal de psicologia que conhecemos do nome de Evangelho: "Reconcilia-te com o teu adversário enquanto estás a caminho com ele." As duas estavam juntas para recompor um relacionamento que se rompera de maneira trágica. A devedora estava realizando seu honesto esforço de repor as coisas em seu devido lugar, mas, pelas reações da antiga vítima, podia-se ver que esta ainda não perdoara a outra e continuava a ver nela aquilo que ela fora, a mulher cruel, e não o que ela está se esforçando em ser agora, a mãe devotada, cujo carinho a filha considerava excessivo e até repugnante. (Esta me confessou, envergonhada, que chegava ao extremo de lavar as mãos após algum contato pessoal com a mãe ou recusar, se possível, algum alimento por ela preparado. Teria sido envenenada?) O que importava, agora, portanto - disse-lhe eu -, era perdoar, qualquer que tenha sido o problema entre elas; liquidar a questão para sempre, aceitando a companheira devotada ao trabalho da recomposição. Suponho que tenha havido um assassinato frio e premeditado por parte de uma para eliminar a outra, que se tornara um obstáculo à concretização de uma ambição pessoal. E isto não apenas por causa da aversão e da desconfiança da moça, mas também porque a outra decidira trazê-la de volta à vida, como filha. Tais restituições, às vezes, têm esse sentido, embora, não seja a regra geral. Não vamos agora achar que todos renascemos porque nossos pais nos assassinaram no passado ... O que se tornava necessário, portanto, era um esforço por parte da jovem no sentido de aceitar a mãe como amiga atual, ainda que sabendo-a ex-inimiga e, principalmente, por sabê-lo. Ela se propôs a começar logo a tarefa, aceitando minha argumentação, que lhe pareceu lógica e construtiva. Prometeu realizar seu trabalho íntimo nesse sentido. Agradeci-lhe com emoção, percebendo que também ela havia sido 'tocada'. Desistiu da regressão - que aliás eu me recusara a fazer - que estava interessada em levar avante com alguém que lhe fosse indicado para isso. Não soube mais dela. Se algum dia ler este livro, gostaria de saber como se desenrolou o caso daí em diante, pois tudo isso são lições inesquecíveis que a própria vida se incumbe de nos ministrar discretamente, mas com indiscutível poder de convicção, dado que se o argumento da verdade é sua própria presença, não é necessário falar ou fazer sermões, ela simplesmente está ali. Resta-nos apenas observar para identificá-la em toda a grandeza da sua simplicidade.
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