Livros Espíritas
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Notei, todavia, que Cavalcante era absolutamente alheio à nossa influenciação. Nada percebia de nossa presença ali, verificando que ele, apesar das elevadas qualidades morais que lhe exornavam o caráter, não possuía bastante educação religiosa para o intercâmbio desejável. Dos quadros que havíamos observado naquele dia, esse era, sem dúvida, o mais triste. Além das vibrações do ambiente perturbado, o operando não oferecia fácil ensejo à nossa atuação. — Tenho tido dificuldade para mantê-lo tranquilo, — dizia Bonifácio, inclinando-se para o Assistente, — em vista dos parentes desencarnados que o assediam de modo incessante. Não obstante os trabalhos de vigilância que garantem o estabelecimento, muitos deles conseguem acesso e incomodam-no. O pobrezinho não se preparou, convenientemente, para libertar-se do jugo da carne e sofre muito pelos exageros da sensibilidade. E muito embora o abandono a que foi votado, tem o pensamento afetuoso em excessiva ligação com aqueles que ama. Semelhante situação dificulta-nos sobremaneira os esforços. — Sim, — concordou Jerônimo, — entendemos a luta. A deficiência de educação da fé, ainda mesmo nos caracteres mais admiráveis, origina deploráveis desequilíbrios da alma, em circunstâncias como esta. Conservar-nos-emos, porém, a postos, como retribuição ao devotado amigo pelos obséquios inúmeros que dele recebemos. Quando nos despedimos, Bonifácio mostrou-se comovido e grato. Transcorridos escassos minutos, ganhávamos o pórtico de notável, simples e confortável edifício, em que se asilavam numerosas criancinhas, em nome de Jesus. Defrontava-nos louvável instituição espiritista-cristã, onde se sediava compacta legião de trabalhadores de nosso Plano. Bondoso ancião recebeu-nos afavelmente. Reconheci-o, jubiloso. Achava-se, ali, Bezerra de Menezes, o dedicado irmão dos que sofrem. Abraçou-nos, um a um, com espontânea jovialidade. Ouviu as explicações de Jerônimo, com interesse, e falou, sorridente: — Já esperávamos a comissão. Felizmente, porém, nossa querida Adelaide () não dará trabalho. O ministério mediúnico, o serviço incessante em benefício dos enfermos, o amparo materno aos órfãos nesta casa de paz, aliados aos profundos desgostos e duras pedradas que constituem abençoado ônus das missões do bem, prepararam-lhe a alma para esta hora… Ele mesmo tomou-nos a dianteira, conduzindo-nos a compartimento modesto, onde a médium repousava. Na câmara solitária, não se via nenhum irmão encarnado; contudo, duas jovens cercadas de prateada luz permaneciam ali, acariciando-a. Acercamo-nos da enferma, respeitosamente. Seus cabelos grisalhos semelhavam-se a formosos fios de neve. Indicando-a, falou Bezerra, contente: — Adelaide sempre foi leal discípula do Mestre dos Mestres. Apesar das dificuldades, dos espinhos e aflições, perseverou até ao fim. A digna senhora, após fixar demoradamente delicados ramos de rosas que lhe ornavam o quarto, entrou em oração. De sua mente equilibrada, emanavam raios brilhantes. Não nos enxergou ao seu lado, exceção do devotado Bezerra de Menezes, a quem se unia por sublimes cadeias do coração. Ele saudou-a, afável e bondoso, endereçando-lhe palavras reconfortantes e carinhosas. — Sei que é o termo da jornada, meu venerável amigo, — disse a médium, em tom comovedor, — e estou pronta. — Desde muitos anos, rogo ao Divino Senhor me revele o caminho. Não desejo adotar outros desígnios que não pertençam a Ele, nosso Salvador. Todavia… Não pôde continuar. Emoção profunda estrangulara-lhe a voz e, logo após a reticência dolorida, copioso pranto começou a brotar-lhe dos olhos encovados. Bezerra acomodou-se junto dela, com intimidade paternal, afagou-lhe com a luminosa destra a fronte abatida e falou otimista: — Já sei. Você pensa nos parentes, nos amigos, nos órfãozinhos e nos trabalhos que ficarão. Ó Adelaide! Compreendo seu devotamento materno à obra de amor que lhe consumiu a vida. Entretanto, você está cansada, muito cansada e Jesus, Médico Divino de nossa alma, autorizou o seu repouso. Confie a Ele as penas que lhe oprimem o espírito afetuoso. Deponha o precioso fardo de suas responsabilidades em outras mãos, esvazie o cálice de sua alma, alijando amarguras e preocupações. Converta saudades em esperanças e desate os elos mais fortes, atendendo a ordem divina. Adelaide pousou no benfeitor os olhos muito lúcidos, revelando-se confortada e, após breve pausa, Bezerra prosseguiu: — Sua grande batalha está terminando. Você é feliz, minha amiga, muito feliz, porque seu Espírito virá condecorado de cicatrizes, depois de resistir ao mal durante muitos anos, como sentinela fiel, na fortaleza da fé viva… Ensinou aos que lhe cercaram o caminho todas as lições do bem e da verdade possíveis ao seu esforço… Entregue parentes e afeições a Jesus e medite, agora, na Humanidade, nossa abençoada e grande família. Quanto aos serviços confiados por algum tempo à sua guarda, estão fundamentalmente afetos ao Cristo, que providenciará as modificações que julgue oportunas e necessárias. Baste a você o júbilo do dever bem cumprido. Arregimente, pois, as suas forças e não se entristeça, porque é chegado para seu coração o prélio final… Coragem, muita coragem e fé! A respeitável irmã sorriu, quase feliz. Logo em seguida, pequena auxiliar do instituto quebrou o colóquio espiritual, abrindo a porta inesperadamente e anunciando visitas. Dona Adelaide, em face das circunstâncias, centralizou a mente no círculo dos encarnados e perdeu o benfeitor de vista. O venerando médico dos infortunados passou a entender-se com Jerônimo, acerca de vários problemas que diziam respeito à nossa missão, enquanto nos retirávamos, discretamente, proporcionando-lhes maior liberdade à permuta de ideias.
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