Livros Espíritas
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“Se esse sistema, que estabelece monstruoso comércio entre a luz e as trevas, entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal, numa palavra, entre Deus e Belial, não tem prosélitos na Espanha, há, com toda certeza, ardentes propagadores, e a metrópole de nossa diocese é o teatro escolhido para lançar mão de todos os meios que pode sugerir o Espírito de mentira e de perdição. A prova disto está na introdução fraudulenta que se opera, malgrado o zelo manifestado pelas autoridades locais, de milhares de exemplares de O Livro dos Espíritos, escrito pelo pregador número um destas mentiras, Allan Kardec, e traduzido em espanhol.” Observação – É muito difícil conciliar estas duas asserções, a saber: que o Espiritismo não tem prosélitos na Espanha, e que há, com toda certeza, ardorosos propagadores. Também não se compreende que, num país onde não há espíritas, O Livro dos Espíritos circule aos milhares. “Lendo esta produção original, dissemos a nós mesmos: cada século tem as suas preocupações, seus erros favoritos; os erros do nosso são uma tendência a negar o que é invisível e a só buscar a certeza na matéria sensível. Não seria, pois, inacreditável, caso não o tivéssemos visto, que o século dezenove, tão rico em descobertas sobre as leis da Natureza, tão rico em observações e em experiências, tenha adotado os sonhos da magia e as aparições de Espíritos pela mera evocação de um simples mortal? Contudo, é isto! E esta nova heresia, importada, ao que parece, dos países idólatras pelos povos do novo mundo, invadiu o antigo e neste encontrou adeptos e partidários, a despeito da chama do Cristianismo, que ilumina há dezoito séculos e condena semelhantes bagatelas, malgrado o brilho que este espalhou em toda a sua superfície e, particularmente, sobre a Europa.” Observação – Já que o monsenhor de Barcelona se admira de que o século dezenove aceite tão facilmente o Espiritismo, não obstante suas tendências positivas e as riquezas de suas descobertas no que concerne às leis da Natureza, nós lhe diremos que é precisamente a aptidão para essas descobertas que produz tal resultado. As relações entre o mundo visível e o mundo invisível são uma das grandes leis naturais, que ao século dezenove estava reservado desvelar ao mundo, bem como tantas outras leis. O Espiritismo, fruto da experiência e da observação, baseado em fatos positivos até agora incompreendidos, mal estudados e ainda pouco explicados, é a expressão dessa lei. Por isto mesmo vem destruir o fantástico, o maravilhoso e o sobrenatural, falsamente atribuídos a esses fatos, fazendo-os entrar na categoria dos fenômenos naturais. Como vem explicar o que era inexplicável, demonstra o que afirma e lhe dá a razão, não quer ser acreditado sob palavra; como provoca o exame, não quer ser aceito sem conhecimento de causa. É por tais motivos que corresponde às idéias e tendências positivas do século. Sua fácil aceitação, longe de ser uma anomalia, é uma conseqüência de sua natureza, que lhe dá posição entre as ciências de observação. Se se tivesse cercado de mistérios e houvesse exigido a fé cega, tê-lo-iam repelido como um anacronismo. Jovem ainda, encontra oposição, como todas as idéias novas de certa importância. Tem contra si: o 1 – Os que só crêem na matéria tangível e negam todo poder intelectual fora do homem; o 2 – Certos sábios que pensam que a Natureza não tem mais segredos para eles, ou que só a eles cabe descobrir o que ainda está oculto; o 3 – Os que, em todos os tempos, se empenharam em entravar a marcha ascendente do espírito humano, porque temiam que o desenvolvimento das idéias, fazendo ver bem claro, lhes prejudicasse o poder e os interesses; o 4 – Enfim, aqueles que, sem idéia preconcebida e não o conhecendo, julgam-no pelas deturpações com que o apresentam os seus adversários, visando a desacreditá-lo. Esta categoria constitui a grande maioria dos opositores; mas diminui a cada dia, porque diariamente aumenta o número dos que estudam; as prevenções caem ante um exame sério e se ligam tanto mais à coisa sobre a qual reconhecem terem sido enganados. A julgar pelo caminho feito pelo Espiritismo em tão curto espaço de tempo, fácil é prever que em pouco tempo não terá contra si senão os antagonistas de idéias preconcebidas; e como estes formam uma pequena minoria, sua influência será nula. Eles próprios sofrerão a influência da massa e serão forçados a seguir a torrente. A manifestação dos Espíritos não é apenas uma crença: é um fato. Ora, diante de um fato, a negação é sem valor, a menos que se prove que ele não existe, coisa que ninguém ainda demonstrou. Como em todos os pontos do globo a realidade do fato é constatada diariamente, crê-se no que se vê. É o que explica a impotência dos negadores para deter o movimento da idéia. Uma crença só é ridícula quando é falsa; já não o é, desde que repouse sobre uma coisa positiva. O ridículo é para o que se obstina em negar a evidência. “Isto vos deve convencer, meus diletos filhos e irmãos, da necessidade que tem o homem de crer; e quando ele despreza as verdadeiras crenças, abraça com entusiasmo até mesmo as falsas. Eis por que diz o profundo Pascal, num de seus pensamentos: ‘Os incrédulos são os homens mais propensos a crer em tudo.’ O Espírito das trevas toma os homens como joguete e instrumento de seus maus propósitos, servindo-se de sua vaidade, de sua credulidade, de sua presunção para deles fazer os propagadores e os apóstolos daquilo de que riam na véspera, do que qualificavam de invenção quimérica e de espantalho para as almas fracas. “Não, meus irmãos, a verdadeira fé, a doutrina do Cristianismo, o ensino constante da Igreja, sempre reprovaram a prática dessas evocações, que levam a crer tenha o homem sobre os Espíritos um poder que só a Deus pertence. ‘Não está no poder de um mortal que as almas separadas dos corpos após a morte lhe revelem os segredos cobertos pelo véu do futuro.’ (Mat. 16:4).” Observação – O Espiritismo também diz que aos Espíritos não é dado revelar o futuro, condenando formalmente o emprego de comunicações de além-túmulo como meio de adivinhação. Diz que os Espíritos vêm para nos instruir e nos melhorar, e não para nos ler a buena-dicha; diz ainda que ninguém pode constranger os Espíritos a vir falar quando não querem. É desnaturar maldosamente o objetivo pretender que ele faça necromancia. (O Livro dos Médiuns, cap. XXVI, pág. 386). “Se a sabedoria divina tivesse julgado útil à felicidade e ao repouso do gênero humano instruí-lo sobre as relações entre o mundo dos Espíritos e o dos seres corpóreos, ela no-lo teria revelado de maneira que nenhum mortal pudesse ser enganado em suas comunicações; ter-nos-ia ensinado um meio para reconhecer quando nos tivessem dito a verdade, ou insinuado um erro, e não nos teria abandonado, para tal discernimento, à luz da razão, que é um clarão muito fraco para descobrir essas regiões que se estendem para além da morte.” Observação – Desde que hoje Deus permite que existam tais relações, já que se deve admitir que nada acontece sem a permissão divina, é que julga útil à felicidade dos homens, a fim de dar-lhes a prova da vida futura, na qual muitos não crêem mais, e porque o número sempre crescente dos incrédulos prova que, sozinha, a Igreja é impotente para os manter no aprisco. Deus lhes envia auxiliares nos Espíritos que se manifestam; repeli-los não é dar prova de submissão à sua vontade; renegá-los é desconhecer o seu poder; injuriá-los e maltratar seus intérpretes é agir como os judeus em relação aos profetas, o que fez com que Jesus derramasse lágrimas pela sorte de Jerusalém. “Portanto, quando um miserável mortal, desvairado por sua imaginação, pretende dar-nos notícias sobre a sorte das almas do outro mundo; quando homens de limitada visão têm a audácia de querer revelar à Humanidade e ao indivíduo o seu destino indefectível no futuro, usurpam um poder que pertence a Deus, e do qual este não renuncia, a não ser para o bem da própria Humanidade e dos povos, advertindo-os ou os reprimindo por intermédio de enviados que, como os profetas, trazem consigo a prova de sua missão, nos milagres que operam e na realização constante do que eles anunciaram.” Observação – Então renegais as predições de Jesus, já que não reconheceis no que acontece a realização do que ele anunciou. Que significam estas palavras: “Derramarei o Espírito sobre toda a carne; vossas mulheres e vossas filhas profetizarão, vossos mancebos terão visões e vossos velhos sonharão sonhos?” “Podemos considerar como visionários aqueles que, abandonando a verdade, e dando ouvidos a fábulas, querem que se escute como revelações os caprichos, os sonhos fantásticos de sua imaginação em delírio. Escrevendo a Timóteo, São Paulo previne aquele contra tudo isto, ele e as gerações futuras (I Tim., 4:7). O apóstolo já pressentia, dezoito séculos atrás, aquilo que, em nossa época, a incredulidade devia oferecer para encher, com alguma coisa, o vazio deixado na alma pela ausência da fé.” Observação – Com efeito, a incredulidade é a chaga de nossa época; deixa na alma um imenso vazio. Por que, então, não a combate a Igreja? Por que é incapaz de manter os fiéis na fé? Meios materiais e espirituais não lhe faltam; não possui imensas riquezas, inumerável exército de pregadores, a instrução 21 N. do T.: Vide Atos dos Apóstolos, 2:17.
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