Livros Espíritas
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Retirando-nos do hospital, em a noite que precedeu à desencarnação de Cândida, o Assistente observou: — Não temos tempo a perder. Efetivamente, o trabalho de socorro à prezada enferma absorvera-nos algumas horas. — Nosso esforço, — continuou o prestimoso amigo, — tem por especial escopo impedir a consumação dos processos tendentes à loucura. A rede de amparo espiritual, neste sentido, é quase infinita. A positiva declaração de desarmonia mental constitui sempre o término de longa luta. Claro está que não incluímos aqui os casos puramente fisiológicos, mormente em se tratando da invasão da sífilis na matéria cerebral; reportamo-nos aos dramas íntimos da personalidade prisioneira da introversão, do desequilíbrio, dos fenômenos de involução, das tragédias passionais, episódios esses que deflagram no mundo, aos milhares por semana. Nas Esferas imediatas à luta do homem vulgar, onde nos achamos presentemente, são inúmeras as organizações socorristas dessa natureza. É imprescindível amparar a mente humana na Crosta Planetária, em seus deslocamentos naturais. A vasta escola terrestre exige incessante e complexa colaboração espiritual. Indubitavelmente, a Divina Sabedoria não se descuidou da programação prévia de serviço, neste particular. Se encarregou a Ciência de superintender o desdobramento harmonioso dos fenômenos pertinentes à zona física, se incumbiu a Filosofia de acompanhar essa mesma Ciência, enriquecendo-lhe os valores intelectuais, confiou à Religião a tarefa de velar pelo desenvolvimento da alma, propiciando-lhe abençoadas luzes para a jornada de ascensão. A crença religiosa, todavia, mormente nos últimos anos, tem-se revelado incapaz de tal cometimento: falta-lhe pessoal adequado. Enquanto a edificação científica no mundo se apresenta qual árvore gigantesca, abrigando, em seus ramos refertos de teorias e raciocínios, as inteligências encarnadas, a Religião, subdividida em numerosos setores, dá a ideia de erva raquítica, a definhar no solo. O Amor Divino, porém, não ignora os obstáculos que assoberbam os círculos da fé. Se à investigação do conhecimento basta o valor intelectual, o problema religioso demanda altas possibilidades de sentimento. A primeira requer observação e persistência; o segundo, todavia, implica vocação para a renúncia. À vista disto, colaborando com os trabalhadores decididos, inúmeras legiões de auxiliares invisíveis ao olhar humano se desdobram, em toda parte, socorrendo os que sofrem, incentivando os que esperam firmemente no bem, melhorando sempre. Nosso esforço, portanto, em torno da mente encarnada, é extenso e múltiplo. Forçoso é convir, no entanto, que, se o programa dá motivo a preocupações, é também fonte de prazer. Experimentamos o contentamento de irmãos mais velhos, capazes de prestar auxílio aos mais novos. Indiscutivelmente, somos, em humanidade, uma só família. Verificando-se pausa natural nos esclarecimentos de Calderaro, indaguei, curioso: — Como se opera, entretanto, a administração de tais auxílios? Indiscriminadamente? — Não, — explicou o interpelado, — o senso de ordem preside-nos à atividade em todas as circunstâncias. Quase sempre é a força intercessória que determina os processos de ajuda. A prece, representada pelo desejo não manifestado, pelas aspirações íntimas ou pelas petições declaradas, proveniente da zona superior ou surgida do fundo vale, onde se agitam as paixões humanas, é, a rigor, o ascendente de nossas atividades. Dispunha-me a formular certa pergunta, oriunda de velhas concepções do separatismo religioso, quando Calderaro, percebendo-me a ponderação prestes a exprimir-se, acrescentou, calmo: — Não aludimos, aqui, a orações ou a aspirações de correntes idealísticas determinadas: o dístico não interessa. Colaboramos com o espírito eterno em sua ascensão à zona divina, aduzindo novas forças ao bem, onde ele se encontre, independentemente de fórmulas dogmáticas, ou não, com que ele se manifeste nos círculos humanos. Nosso problema não é de favoritismo, senão de espiritualidade superior, mercê da união dos valores substanciais, em favor da vida melhor. A essa altura das lições que eu recebia em forma de palestra ligeira, enquanto nos movimentávamos em serviço, atingimos residência de aspecto simples, que se distinguia pelo jardim bem cuidado, em toda a volta. — Temos, aqui, — disse-me, o instrutor, — indefesso companheiro de outras épocas, reencarnado em dolorosas condições. De algumas semanas para cá, assisto-lhe a mãezinha através de passes reconfortantes. Em virtude da horrível estrutura orgânica do filho, a ela encadeado há muitos séculos, a razão da pobrezinha está periclitando; prendem-se mutuamente por grilhões de graves compromissos. Considerando-lhe o nobre costume da oração em horário prefixado, valemo-nos dessas ocasiões para vir-lhe em amparo. Admirando a ordem instituída para os quefazeres de nosso Plano, e que transparecia nas mínimas ações, silenciosamente acompanhei Calderaro ao interior doméstico. Em rápidos minutos achávamo-nos em pequena câmara, onde magro doentinho repousava, choramingando. Cercavam-no duas entidades tão infelizes quanto ele mesmo, pelo estranho aspecto que apresentavam. O menino enfermo inspirava piedade. — É paralítico de nascença, primogênito de um casal aparentemente feliz, e conta oito anos na existência nova, — informou Calderaro, indicando-o; — não fala, não anda, não chega a sentar-se, vê muito mal, quase nada ouve da Esfera humana, psiquicamente, porém, tem a vida de um sentenciado sensível, a cumprir severa pena, lavrada, em verdade, por ele próprio. Há quase dois séculos, decretou a morte de muitos compatriotas numa insurreição civil. Valeu-se da desordem político-administrativa para vingar-se de desafetos pessoais, semeando ódio e ruínas. Viveu nas regiões inferiores, apartado da carne, inomináveis suplícios. Inúmeras vítimas já lhe perdoaram os crimes; muitas, contudo, seguiram-no, obstinadas, anos afora… A malta, outrora densa, rareou pouco a pouco, até que se reduziu aos dois últimos inimigos, hoje em processo final de transformação. Com as lutas acremente vividas, em sombrias e dantescas furnas de sofrimento, o desgraçado aprestou-se para esta fase conclusiva de resgate; conseguiu, assim, a presente reencarnação com o propósito de completar a cura efetiva, em cujo processo se encontra, faz muitos anos. A paisagem era triste e enternecedora. O doente, de ossos enfezados e carnes quase transparentes, pela idade deveria ser uma criança bela e feliz; ali, entretanto, se achava imóvel, a emitir gritos e sons guturais, próprios da esfera subumana. Com o respeito devido à dor e com a observação imposta pela Ciência, verifiquei que o pequeno paralítico mais se assemelhava a um descendente de símios aperfeiçoados. — Sim, o Espírito não retrocede em hipótese alguma, — explicou Calderaro; — todavia, as formas de manifestação podem sofrer degenerescência, de modo a facilitar os processos regenerativos. Todo mal e todo bem praticados na vida impõem modificações em nosso quadro representativo. Nosso desventurado amigo envenenou para muito tempo os centros ativos da organização perispiritual. Cercado de inimigos e desafetos, frutos da atividade criminosa a que se consagrou voluntariamente, permanece quase embotado pelas sombras resultantes dos seus tremendos erros. No campo consciencial, chora e debate-se, sob o aguilhão de reminiscências torturantes que lhe parecem intérminas; mas os sentidos, mesmo os de natureza física, mantêm-se obnubilados, à maneira de potências desequilibradas, sem rumo… Os pensamentos de revolta e de vingança, emitidos por todos aqueles aos quais deliberadamente ofendeu, vergastaram-lhe o corpo perispiritual por mais de cem anos consecutivos, como choques de desintegração da personalidade, e o infeliz, distante do acesso à zona mais alta do ser, onde situamos o “castelo das noções superiores”, em vão se debateu no “campo do esforço presente”, isto é, à altura da região em que localizamos as energias motoras; é que os adversários implacáveis, apegando-se a ele, através da influência direta, compeliram-lhe a mente a fixar-se nos impulsos automáticos, no império dos instintos; permitiu a Lei que assim acontecesse, naturalmente porque a conduta de nosso infortunado irmão fora igual à do jaguar que se aproveita da força para dominar e ferir. Os abusos da razão e da autoridade constituem faltas graves ante o Eterno Governo dos nossos destinos. O estimado Assistente fitou-me com seus olhos muito lúcidos e perguntou: — Compreendeste? Como desejasse ver-me suficientemente esclarecido, acrescentou: — Espiritualmente, este pobre doente não regrediu. Mas o processo de evolução, que constitui o serviço do Espírito divino, através dos milênios, efetuado para glorioso destino, foi por ele mesmo (o enfermo) espezinhado, escarnecido e retardado. Semeou o mal, e colhe-o agora. Traçou audacioso plano de extermínio, valendo-se da autoridade que o Pai lhe conferira, concretizou o deplorável projeto e sofre-lhe as consequências naturais de modo a corrigir-se. Já passou a pior fase. Presentemente, já se afastou do maior número de inimigos, aproximando-se de amoroso coração materno, que o auxilia a refazer-se, ao término de longo curso de regeneração.
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