Livros Espíritas
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O episódio serve também para demonstrar que o espírito parece saber que lembranças pode suportar e quais as que precisa sufocar por ainda não estar preparado para enfrentá-las em todo o seu impacto e crueza. Certos remorsos podem levar à alienação e ao desespero. Mas nem sempre é o erro que se pretende esquecer, ou pelo menos não se deseja lembrar. São também episódios e vidas inteiras em que temos receio de tocar, por motivos obscuros, mas respeitáveis. Ocorre-me isto ao lembrar-me de algumas regressões de memória promovidas por magnetização, nas quais os sensitivos pediam para não serem levados a certas épocas passadas ou, ainda que desejando 'ir lá', uma vez mergulhados no transe, a partir de uma ótica diferente daquela da vigília, preferiam por sua própria iniciativa não sacudir a poeira dos séculos que recobria certas lembranças potencialmente perturbadoras. Não é à toa que esquecemos o passado quando reencarnamos ... a lei divina que nos protege com o esquecimento é sábia e justa, como todas as demais. O repertório das novelescas aventuras e desventuras de Regina é praticamente inesgotável, e há sempre uma lição ou outra a retirar desses episódios. Em seus arquivos espirituais há existências de projeção social, riqueza e poder e outras de penúria, renúncias e dificuldades. Quanto ao amor, parece que a grande lição dessa agitada multibiografia é a de que permanece como fruto proibido até que consiga decantar-se das impurezas da paixão. Essa mensagem emerge, com singular clareza, de toda a seqüência de visões. Como se houvesse um plano deliberado (dela ou de seus amigos espirituais, ou de ambos) de mostrar-lhe primeiro a alegria do amor descomplicado e feliz, sem grandes lances dramáticos e sofrimentos insuportáveis. Isto lhe foi possível observar pelo telescópio das suas faculdades anímicas, no antigo Egito, com o marido de seus sonhos e os dois filhos amados. Tudo ali parecia idílico, em paz, como se a felicidade houvesse encontrado, afinal, na Terra, um ninho onde se abrigou. Não era bem isso, contudo. Pelo que aconteceu posteriormente nas várias existências em que a pessoa de seus sonhos lhe é subtraída por outra ou está fora de seu alcance, depreende-se que era preciso aprender, ainda, a Lição da renúncia. E esta foi muito difícil, difícil demais, acima das resistências íntimas. Como se lhe fosse dito: ser feliz assim, e em paz, quando o amor sorri e ninguém interfere, é muito fácil. Vamos ver, agora, como é que você se porta perante a renúncia, quando devem ser respeitadas barreiras impostas pelos princípios éticos, pelas tradições, pelo sentimento de obediência aos pais, pelo amor fraterno, e até pelas convenções sociais, ainda que fingidas e artificiais. Regina parece ter falhado em vários desses testes (e ele também, é claro, pois os equívocos da paixão são cometidos a dois). Não conseguiram respeitar as barreiras religiosas. Livre ou compulsoriamente aceitas e consolidadas por votos sagrados, na época. Desrespeitaram vínculos matrimoniais, recorrendo ao adultério, e ignoraram a ética social dos tempos, gerando filhos considerados bastardos. O ciúme levou-a ao crime de sacrificar duas crianças confiadas a ela pela irmã. Mais de uma vez amargurou-se além dos limites, ao vê-lo unido a 'outras'. E por isso tudo, nesse vaivém do pêndulo cármico, oscilando através dos milênios, preciosas oportunidades foram desperdiçadas ou não aproveitadas como poderiam ter sido, se houvesse um pouco mais de renúncia, aceitação e serenidade. "O amor", dizia Cayce em transe, "não é possessivo. Ele apenas é." E por isso, também, parece que todas as dificuldades possíveis e suportáveis foram reunidas e programadas para a existência atual, na qual ela se decidiu por um esforço supremo, disposta a quebrar o círculo vicioso das paixões. Tudo jogou do que tinha no tabuleiro de uma nova existência. Aceitou todas as regras do jogo perigoso: humilhação, pobreza, a solitude na multidão (a pior delas), lutas e renúncias de variada natureza e até a moléstia, nitidamente cármica, com a qual resgata sangue alheio que mandou verter ou permitiu que se derramasse. Teria sido infinitamente mais fácil que tudo isso fosse vivido ao lado do companheiro amado de muitos milênios, mas dessa maneira a lição ficaria mais uma vez por aprender. Precisavam ter, cada um em si, as limitações necessárias e entre eles barreira que, como sempre, poderiam ser saltadas e contornadas, mas que não deveriam sê-lo. Era preciso, de uma 'vez para sempre, lembrar e praticar o ensinamento genial de Paulo: "Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém." Realmente, lícito é, no sentido de que a lei divina tem soluções e dispositivos corretores para qualquer situação equívoca, mas nunca será mais conveniente para o caminhante atravessar pantanais e galgar montanhas pedregosas e escorregadias se pode subir pela estrada principal, em companhia de seus amigos, de mãos dadas com seus amores, a alegria no coração e a convicção da vitória final mais perto, ali adiante, a uns poucos séculos apenas. Para que levar milênios fazendo o que podemos fazer em alguns séculos? Isto quanto aos aspectos éticos do problema. Proponho que vejamos, a seguir, outros aspectos implícitos na mecânica do fenômeno anímico da penetração no passado. Vamos em frente? 5. O MECANISMO DAS REGRESSÕES Pedi a Regina que me descrevesse, com suas próprias palavras, como transcorrem tais regressões e, se possível, o que desencadeia o processo. Em alguns casos ela diz ser guiada por amigos espirituais desencarnados que lhe mostram cenas do passado que explicam ou justificam situações do presente. É como se lhe dissessem: "Você está sofrendo isso agora, porque no passado fez aquilo." De outras vezes ela parece agir por sua própria conta e, guiada ou não, vê projetado, como numa tela de cinema, um filme. Ao mesmo tempo em que assiste ao espetáculo, ela se reconhece como uma das personagens da história, embora sem apresentar semelhança 'física' com a pessoa. É que ela sente, com toda a força, as emoções da personagem, seus impulsos, suas intenções e até seus pensamentos secretos. Fica ali, pois, como espectadora e atriz de um drama que sabe ser real e identifica como seu. Ela imagina que isto seja um mecanismo de projeção a partir do conhecimento inconsciente que ela tem de seu próprio passado. Ou seja, ela vê, fora dela, a dramatização de vivências que na verdade estão dentro dela, nas profundezas do arquivo secreto da memória integral. Eu diria, para oferecer também minha colaboração, que se trata de uma exteriorização da memória, um replay de fragmentos de certas vidas que, por alguma razão, foram-lhe permitidos consultar. Tenho minhas dúvidas, contudo, de que isto seja viável por simples impulso da vontade e que o processo possa ser desencadeado sem a colaboração de amigos espirituais, ainda que não identificáveis à sua vidência. Regina informa, ainda, que teve uma vidência dessas nos Estados Unidos, em plena vigília - sem transe, ou desprendimento, portanto -, ao ser impactada pela presença de uma pessoa que reconheceu como uma das personagens de seu próprio passado. Em mais de uma oportunidade, tais cenas ou replays ocorreram no local onde aconteceram originariamente. Nesses casos, a cena é do maior realismo, como as de um teatro, com contraposição à do cinema, e desenrola-se como na vida real, com suas cores, sons, movimento, emoções, tudo num ambiente tridimensional. Ela ouve as palavras e frases proferidas como se tudo estivesse ocorrendo ali, naquele momento, no agora. Não é passado - diz ela -, é agora, e ela está lá, onde quer que isso esteja ocorrendo. Às vezes ela tem ao seu lado uma entidade espiritual que vai narrando os acontecimentos ou explicando-os, em alguns aspectos que são mais obscuros para ela, sendo também óbvia a intenção de protegê-la de abalos resultantes de impactos maiores. Ela, por sua vez, tem nítida consciência de encontrar-se afastada do corpo físico, que ela sabe estar "lá em casa", em repouso ou adormecido. E mais: que as cenas a que assiste são episódios autênticos de suas próprias existências passadas e que estão sendo exibidas por algum motivo especial, como o de explicar-lhe certas complexidades e perplexidades de situações que vive na carne. Ali estão coisas que ela viveu e sofreu. Lições que os amigos espirituais desejam reavivar para que ela se fortaleça em suas lutas como ser encarnado. Obviamente que isso denota não apenas que ela conta com devotados amigos que a ajudam, mas também com alguns méritos, que a levam a merecer certas concessões e atenuantes. Conheço outro caso em que a interferência foi decisiva para evitar imprevisíveis complicações. A pessoa se preparava para suicidar-se, quando se apresentou à sua visão espiritual, em estado de grande agitação, uma irmã suicida que pouco precisou dizer além do grito de alerta. Bastou mostrar-se em todo o horror de seu desalinho espiritual para que a pessoa compreendesse, em um simples e dramático relance, a tragédia do suicídio. Esta pessoa também tinha seus créditos e algumas conquistas; do contrário, mesmo que tentasse, a irmã desencarnada não teria condições de sustar o gesto de desespero. Regina reitera uma informação de interesse. Ela não se vê em tais representações como Regina, com sua identidade física atual e, sim, com a forma física, vestuário e psicologia da época em que os episódios se desenrolam.
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