Livros Espíritas
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1. INTRODUÇÃO Escreve Allan Kardec em O livro dos médiuns cap. XIV, item 166 Os médiuns audientes que apenas transmitem o que ouvem não são, a bem dizer, médiuns falantes. Estes últimos, as mais das vezes, nada ouvem, neles, os espíritos atuam sobre os órgãos da palavra, como atuam sobre a mão dos médiuns escreventes. Querendo comunicar-se, o espírito se serve do órgão que se lhe depara mais flexível no médium. A um, toma da mão; a outro, da palavra; a um terceiro, do ouvido. O médium falante geralmente se exprime sem ter consciência do que diz e muitas vezes diz coisas completamente estranhas às suas idéias habituais, aos seus conhecimentos e até fora do alcance de sua inteligência. Embora se ache perfeitamente acordado e em estado normal, raramente guarda lembrança do que diz. Em suma, nele, a palavra é um instrumento de que se serve o espírito, com o qual uma terceira pessoa pode comunicar-se, como pode com o auxílio de um médium audiente. Nem sempre, porém, é tão completa a passividade do médium falante. Alguns há que têm a intuição do que dizem, no momento mesmo em que pronunciam as palavras, voltaremos a ocupar-nos com esta espécie de médiuns, quando tratarmos dos médiuns intuitivos. (Kardec,Allan, 1975). Examinemos atentamente essas observações de Kardec. Em primeiro lugar, a terminologia. Para que não paire dúvida, lembremo-nos de que médium escrevente é o mesmo que médium psicógrafo e que falante é psicofônico. O Codificador distingue ainda o audiente do psicofônico, chamando a atenção para o fato de que o primeiro limita-se a repetir o que está ouvindo do espírito comunicante, enquanto que o outro não tem necessidade disso porque o espírito vai diretamente ao seu aparelho fonador, sem precisar falar-lhe ao ouvido. É igualmente de nosso interesse anotar a observação de que o espírito recorre ao instrumento que lhe parece mais adequado, no médium, ao seu trabalho. Por isso, escreve por meio de um, fala por meio de outro ou dita ao ouvido de um terceiro. Eis uma boa razão pela qual o médium deve deixar que suas faculdades passem por esse processo de seleção natural, por iniciativa dos próprios espíritos que o procuram para se comunicar. É preferível a, sensitivo desenvolver bem uma única espécie de faculdade, se esse for o caso, do que ficar forçando o desenvolvimento de muitas delas, na ilusão de que bom médium é aquele que trabalha com muitas faculdades simultaneamente As vezes, é a própria ENTOURAGE do médium, ou seja, seus admiradores, áulicos e companheiros de trabalho, que suscitam esses aspectos, estimulando vaidades perfeitamente dispensáveis, como todas o são. E por isso, numa atitude de "semostração", como dizia Mário de Andrade, o médium se esforça por exibir o mais amplo leque possível de faculdades. Observamos, ainda, no informe de Kardec, que o médium falante psicofônico "geralmente se exprime sem ter consciência do que diz", ou seja, há comunicações que não passam pela sua própria consciência ou, pelo menos, ele não guarda nenhuma lembrança delas. Outras há que estão, evidentemente, bem acima do seu próprio nível cultural e contêm idéias estranhas às suas habituais. Convém chamar atenção para o fato de que esse é o critério mais seguro para avaliar a autenticidade da presença do espírito, como já vimos oportunidade de observar alhures, neste livro. É certo que, sendo também um espírito e trazendo nos arquivos da sua memória integral uma volumosa bagagem de conhecimentos, o sensitivo pode ser médium de si mesmo, ou seja, transmitir uma comunicação anímica, e não-espírita. Contudo, o indício mais evidente de que a manifestação provém de inteligência estranha está no fato de que o nível de conhecimento ali revelado é superior ao que seria de se esperar da inteligência do médium em seu estado normal, dentro das limitações impostas pelo mecanismo constritor da encarnação. 2. GRADAÇÕES DA PASSIVIDADE Vemos, ainda, que Kardec aborda o problema da passividade dizendo que nem sempre ela é tão completa. Do que depreendemos que a passividade também pode ter, e tem, suas gradações no exercício das faculdades mediúnicas, como vimo repetindo insistentemente. Essa palavra, aliás, é mais abusada do que parece por médiuns e dirigentes despreparados. Creio que vale a pena determo-nos, por alguns instantes, nesse aspecto, pela importância que tem o conceito da passividade nos diversos mecanismos da mediunidade em operação. Muitos entendem que tornar-se passivo, ou 'dar passividade', é entregar-se totalmente aos espíritos manifestantes para o que der e vier. Não é isso. Passividade total, sem reservas, é inércia, é indiferença, é inatividade. Para se ter uma idéia mais exata, a palavra inércia, por exemplo, vem de termo latino que nos leva ao seguinte rosário de palavras de conotação negativa: inação, indolência, preguiça, ociosidade, torpor, desleixo, incúria, moleza, indiferença, apatia e outras mais, que deixamos de fora. (Ver Novíssimo Dicionário Latino-Português, de Santos Saraiva, 8ª. edição Garnier, Rio/Paris). Nenhuma das atitudes correspondentes a essas palavras é adequada para caracterizar o exercício da mediunidade, sob a alegação de que é preciso 'dar passividade'. Encontro no Webster 's (Dicionário inglês da G. & C. Merrian, 2" edição, 1949), a matização que buscamos. No verbete sobre o termo passivo (passive), os dicionaristas americanos propôs em as seguintes nuances: "receber ou suportar sem resistência ou reação emocional; submissão paciente" e, em outro sentido: inativo, inerte. Podemos observar, portanto, que a passividade é graduada, é matizada, como muito bem afirmou Kardec, com a sua indiscutível competência de lingüista. Receber uma comunicação sem resistência, e transmiti-la fielmente, sem reações emocionais, é dever do médium responsável. Não deve, porém, entregar-se indolente ou indiferentemente ao espírito manifestante para que ele diga o que quiser e faça o que bem entender com o seu corpo, sua inteligência, seus conhecimentos ou a sua falta de cultura. Precisa, o médium, dispor de uma bem treinada passividade que ele consiga matizar, graduar nas suas manifestações, uma passividade seletiva que lhe permita uma boa filtragem da comunicação, mas não se deixe dominar pelo comunicante ao ponto de este forçar a sua passagem com qualquer tipo de material. A palavra filtragem proporciona, aliás, uma boa noção do que estamos desejando caracterizar, pois o filtro não acrescenta nada à água que recebe para uso posterior, mas também não permite que passem os detritos porventura contidos nela. Ademais, se a água é pura, nada há a temer ou a reter, mas se ela se apresenta turva e cheia de impurezas, é sua função barrar a passagem de tais impurezas. Já vimos o que sugere Boddington para que isto seja possível - a chave deste segredo está no comportamento do médium como ser humano.. Pessoa controlada, serena e equilibrada, será médium controlado, sereno e equilibrado. Além do mais, o espírito do médium nunca está inconsciente, ou então, estaria completamente alienado e não seria um médium confiável. A sua consciência ausenta-se, temporariamente, do corpo físico, enquanto este serve de instrumento para que a manifestação mediúnica se produza, mas não deixa de funcionar, alhures, no veículo perispiritual. Atentos à conceituação proposta pelo dicionário latino e pelo americano, podemos resumir, para concluir, que passividade é uma atitude de calma, de atenta e responsável receptividade, sem resistências ou reações desnecessárias; uma atitude paciente e até tolerante, se for o caso, mas nunca submissa, inerte, desleixada, indolente, apática ou indiferente. Da próxima vez que ouvirmos, portanto, alguém dizer que os médiuns devem 'dar passividade', é bom ter em mente o que significa isso, com a maior nitidez e convicção, pois o médium pode, e deve, interferir, quando for necessário filtrar a comunicação carregada de impurezas, mas deixar que ela siga o seu curso fluentemente, com paciência e tolerância. Sei que a posição é difícil. O exercício correto da mediunidade é difícil mesmo e quem não estiver suficientemente preparado para a tarefa ou disposto a suportar seus contratempos e renúncias, deverá procurar outra atividade na seara. É melhor ser apenas um bom e silencioso freqüentador de sessões de desobsessão para contribuir com o seu apoio ao trabalho, do que aventurar-se como médium despreparado que poderá causar consideráveis turbulências ao grupo. 3. RESPONSABILIDADE MEDIÚNICA Muitos acham bonito ser médium e vêem os médiuns envoltos numa auréola de prestígio e de energia. Há médiuns que não apenas gostam disso, mas até estimulam admirações boquiabertas, como se fossem verdadeiros gurus. É inevitável que a mediunidade exercida com segurança, conhecimento, responsabilidade, humildade é, de fato, coisa admirável de se observar em operação, seja pela qualidade dos fenômenos, seja pela limpidez das comunicações escritas ou faladas. Não é uma beleza ler um soneto de Bilac ou um poema de Castro Alves que acaba de ser recebido pelas mãos de um Chico Xavier? Ou um livro como Memórias de um Suicida, pela Yvonne Pereira? Claro que é. É também emocionante assistir um atleta bater um recorde mundial, a um virtuoso do piano ou do violino, uma bela sonata, mas poucos são os que pensam nos anos e anos de disciplina e renúncia, de estudo e aplicação que estão por trás de tais desempenhos. Mediunidade é dom inato mas, como qualquer outra faculdade, pode (e precisa) ser desenvolvida e treinada. O bom corredor nasce com pernas fortes e longas, bom sistema respiratório, coração resistente, mas não nasce corredor; ele precisa fazer-se, e só o consegue quando se aplica com dedicação ao desenvolvimento de suas metas. O médium em potencial não pode fazer por menos, se é que deseja chegar a dominar a sua instrumentação, ao invés de cedê-la aos espíritos, ao mesmo tempo que mantém sobre ela sua atenta vigilância. Isto se aprende, se cultiva e se exerce.
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