Livros Espíritas
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Na Revista Espírita de março de 1867 citamos algumas passagens das aventuras de Robinson, tiradas de um pensamento evidentemente espírita. Devemos à gentileza de um dos nossos correspondentes de Antuérpia o conhecimento do complemento dessa história, na qual os princípios do Espiritismo são expressos e afirmados de maneira bem mais explícita e não se encontra em nenhuma das edições modernas. A obra completa, traduzida da edição original inglesa, compreende três volumes e faz parte de uma coleção de mais de trinta volumes, intitulada: Viagens imaginárias, sonhos, visões e romances cabalísticos, impressa em Amsterdã em 1787. O título também mostra que se encontra em Paris, rue et hôtel Serpente. Os dois primeiros volumes desta coleção contêm as viagens propriamente ditas de Robinson; o terceiro volume, que nosso correspondente de Antuérpia houve por bem nos confiar, tem por título: Reflexões sérias e importantes de Robinson Crusoé. Diz o tradutor em seu prefácio: “Eis enfim o enigma das aventuras de Robinson Crusoé; é uma espécie de Telêmaco burguês, cujo objetivo é levar os homens comuns à virtude e à sabedoria, por acontecimentos acompanhados de reflexões. Contudo, há algo a mais na história de Robinson do que nas aventuras de Telêmaco; não é um simples romance, é antes uma história alegórica, da qual cada incidente é um emblema de algumas particularidades da vida do nosso autor. Não digo mais sobre este artigo, porque ele próprio o tratou a fundo em seu prefácio, que traduzi do inglês, e cuja leitura aconselho intensamente a todos esses homens apressados, que se habituaram a saltar todos os discursos preliminares dos livros. “A obra que aqui se dá ao público, e que constitui o terceiro volume de Robinson Crusoé, é completamente diferente das duas partes precedentes, embora tenda para o mesmo fim. A bem dizer, o autor aí dá a última demão ao seu projeto de reformar os homens e de os exortar a conduzir-se de maneira digna da excelência de sua natureza. Não está contente por lhes haver dado instruções envoltas em fábulas; acha bom estender os seus preceitos e os dar de maneira direta, a fim de que aí nada escape à argúcia do grande número de leitores que não têm bastante gênio para separar a alma da alegoria, do corpo que a envolve.” Este volume compreende duas partes. Na primeira, voltando Robinson à vida calma do lar, entrega-se a meditações sugeridas pelas peripécias de sua existência agitada; essas reflexões são marcadas por alta moralidade e profundo sentimento religioso, no gênero das seguintes: Página 301 – “Confessemos, se quiserem, que não podemos compreender a imutabilidade da Natureza e das ações de Deus, e que nos é absolutamente impossível conciliá-la com essa variedade da Providência, que, em todas as suas ações, nos parece numa liberdade inteira e perfeita de formar todos os dias novos desígnios, de mudar os acontecimentos para este ou aquele lado, como apraz à soberana sabedoria. Porque não podemos conciliar estas coisas, pode-se concluir que sejam absolutamente incompatíveis? Seria o mesmo que sustentar que a natureza de Deus é inteiramente incompreensível, porque não a compreendemos, e que, na Natureza, todo fenômeno em que não penetramos é impenetrável. Onde o filósofo que ousa vangloriar-se de compreender a causa que faz girar para o pólo uma agulha imantada, e a maneira pela qual a virtude magnética é comunicada por um simples toque? Quem me dirá por que essa virtude não pode ser comunicada senão ao ferro, e por que a agulha não é atraída pelo ouro, pela prata e por outros metais? Que comércio secreto há entre o ímã e o pólo norte, e por que força misteriosa a agulha que se há friccionado se vira para o pólo sul, desde que se atravessou a linha equinocial? Nada compreendemos destas operações da Natureza e, contudo, nossos sentidos nos asseguram da realidade dessas operações, da maneira mais incontestável do mundo. A menos que levemos o cepticismo ao mais alto grau do absurdo, devemos confessar que nada há de contraditório nesses fenômenos, embora nos seja impossível conciliá-los em conjunto e que eles sejam incompreensíveis, desde que não os compreendemos. “Por que a nossa sabedoria não nos incita a seguir o mesmo método de raciocinar em relação ao objeto da questão? É natural crer, a despeito desta aparência de mudança que descobrimos nos atos da providência, apesar desses desígnios que parecem destruir-se mutuamente e erguer-se um sobre as ruínas do outro, que nada é mais real que a imutabilidade da Natureza e dos decretos de Deus. Que há de mais temerário do que alegar a fraqueza e o pequeno alcance da razão como uma prova contra a existência das coisas? Nada é mais bizarro do que raciocinar precisamente nos limites do nosso espírito, em relação aos objetos finitos da Física, e de não prestar atenção à natureza de nossa alma, quando se trata das operações de um ser infinito, tão superior às nossas fracas luzes. “Se, pois, é razoável crer que a Providência divina seja livre em suas ações, e que, dirigida por sua própria soberania, siga, no curso ordinário das coisas humanas, esses métodos que julga adequados, é nosso dever ligar um comércio estreito com essa parte ativa da providência, que influi diretamente em nossa conduta, sem nos embaraçar o espírito em vãs discussões sobre a maneira pela qual essa providência influi em nossos negócios, e sobre o objetivo que ela se propõe. “Entrando nesta correspondência com esta virtude ativa da sabedoria de Deus, devemos examinar os seus caminhos, enquanto pareçam acessíveis à nossa penetração e às nossas pesquisas; devemos prestar a mesma atenção à voz secreta que já tive o cuidado de descrever, quanto a essa voz clara e forte que nos fala dos acontecimentos mais adequados a nos ferir. “Quem quer que não faça um estudo sério de penetrar no sentido dessa voz secreta, que se oferece à sua intenção, se priva deliberadamente de grande número de conselhos úteis e de fortes consolações, dos quais por vezes sente necessidade no caminho que deve percorrer neste mundo. “Que consolação não é para os que escutam essa voz, ver a cada momento que um poder invisível e infinitamente poderoso se ocupa em conservar e administrar os seus interesses! Com essa atenção religiosa, é impossível não se dar conta dessa proteção, não refletir sobre as soluções imprevistas, que todo homem encontra na variedade dos incidentes da vida humana, evidentemente sem ver que não o deve à sua própria prudência, mas unicamente ao socorro eficaz de um poder infinito, que o favorece porque o ama.” – A segunda parte, intitulada: Visão do mundo angélico, contém o relato de fatos que pertencem mais particularmente à ordem dos fatos espíritas, dos quais tomamos as seguintes passagens: “Página 359 – ‘Em minha opinião, o Espírito que apareceu a Saul devia ser um Espírito bom, que se chamava o anjo de um homem, como parece pelo que dizia aquela serva dos Atos dos Apóstolos, ao ver Pedro diante da porta, saído miraculosamente da prisão. Se se tomar a coisa desta maneira, ela confirma minha idéia no que tange ao comércio dos Espíritos puros com os Espíritos encerrados em corpos e quanto às vantagens que os homens podem tirar de tal comércio. – Os que pretendem que foi um Espírito mau, devem, ao mesmo tempo, supor que Deus possa servir-se do diabo como de um profeta, pôr na boca da mentira as verdades que julgue por bem revelar aos homens, e admitir que ele pregue aos transgressores de sua lei a justiça dos castigos que resolveu infligir-lhes. Não sei de que ardil esses intérpretes se serviram para salvar todos os inconvenientes de tal opinião; para mim, não acho que convenha à majestade divina emprestar a Satã o seu Espírito de Verdade e dele fazer um pregador e um profeta’.” Página 365 – “Os efeitos mais diretos de nosso comércio com as inteligências puras, e que me pareciam tão sensíveis que é impossível negá-los, são: sonhos, certas vozes, certos ruídos, avisos, pressentimentos, temores, uma tristeza involuntária.” Página 380 – “Parece-me que examinais com muita atenção a natureza dos sonhos e as provas que deles podem ser tiradas da realidade do mundo dos Espíritos. Mas peço-vos que me digais o que pensais dos sonhos que nos vêm em vigília, dos transportes, êxtases, visões, ruídos, vozes e pressentimentos? Não vedes que são provas ainda mais fortes da mesma verdade, pois que nos chocam ao tempo em que nossa razão é senhora de si mesma, e que a sua luz não está envolta nos vapores do sono?” Página 393 – “Ainda vi, como num golpe de vista, a maneira pela qual esses Espíritos maus exercem seu poder; até que ponto se estende, que obstáculos devem superar e que outros Espíritos se opõem ao êxito de seus abomináveis desígnios...
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