Livros Espíritas
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Em suma: as memórias individuais permanecem autônomas em ambas entidades: médium e espírito comunicante. Se falta ao manifestante a palavra ou expressão adequada, ele precisa buscá-la no 'dicionário verbal' do médium, mesmo aí, contudo, parece haver uma consulta subliminar entre dois, sem que um invada a memória alheia. Parece haver um confronto mental no campo do pensamento puro e o que o espírito do médium 'traduz' na expressão que ele usaria para se fazer entendido pelos destinatários da comunicação. São diferentes, portanto, os circuitos utilizados. É como se, num sofisticado equipamento de som e imagem, fosse cedido apenas o acesso aos dispositivos de comando do toca-discos, por exemplo, e não os circuitos eletrônicos da parte nobre do sistema, por onde circula o material gravado nos cassetes da memória de proprietário. Em outras palavras: o manifestante pode tocar o seu disco, mas não tem acesso às gravações que fluem pelos circuitos privativos destinados aos cassetes da memória do médium. Ele movimenta o toca-discos alheio, emprestado, mas utilizando-se de seu próprio sistema interno, também privativo. Se, por acaso, surge a necessidade de obter uma palavra ou imagem típica, para expressar certos matizes de pensamento, o manifestante faz a consulta como quem opera o terminal de um computador que tenha acesso à memória do seu instrumento mediúnico, mas não pode simplesmente 'ir lá' e remexê-la, em busca da desejada expressão. Esse fenômeno da autonomia das memórias parece bem evidenciado ainda nos casos ditos de múltipla personalidade ou condomínio espiritual. Desconheço exemplo em que um espírito saiba o que o outro fez e pensou através do corpo por eles utilizado. Cada um que toma posse do corpo, provoca um desligamento dos circuitos do dono do corpo, ligando a sua própria tomada para ativar seus circuitos pessoais. Horas, dias ou anos depois, ao retirar-se, pode deixar seqüelas físicas e até algumas vagas imagens mentais, mas não a lembrança do que disse ou fez enquanto esteve na posse do corpo alheio, pois a instrumentação da memória veio com o invasor e com ele se vai. Basta conferir essa realidade: com os vários casos hoje documentados como, para citar apenas um, o de Hanwksworth, no livro The five of me, que teve os seus circuitos desligados aos três anos de idade, foi 'ocupado' por quatro entidades diferentes durante quarenta e três anos, e só retomou a posse do seu sistema aos quarenta e seis anos de idade e sem lembrança do que ocorreu nesse ínterim. Fica por responder uma pergunta: onde esteve ele durante todo esse tempo e o que fez? Lamentavelmente pesquisadores que cuidam de tais casos não têm a mínima noção da realidade espiritual e, por isto, tantas oportunidades preciosas de estudo são desperdiçadas. É provável que o espírito dono do corpo fique hipnotizado, em estado de torpor, ou que, embora vivendo em paralelo, desligado de seu próprio corpo, ao voltar, de nada se lembre, precisamente porque durante todo o tempo ele esteve desligado somente operou a sua memória perispiritual, nada registrando nos cassetes celulares do cérebro físico. É natural, portanto, que nada encontre ali para orientá-lo, da mesma forma que ocorre ao espírito reencarnado que, na imensa maioria dos casos, esquece totalmente não apenas a existência anterior como o período vivido no espaço entre uma existência e outra. Enfim, são enigmas da memória que ainda persistem porque persiste a arrogante postura da ciência que se obstina em ignorar a realidade espiritual. Um dia, com menos orgulho e mais humildade intelectual, tais enigmas serão todos decifrados. E com isto, voltemos a Regina. 7. AUTONOMIA Regina nos proporciona uma sólida convicção de autonomia. Deixe-me ver se consigo explicar isso. Como trabalhamos juntos durante muitos anos, é natural que chegasse a conhecer bem a personalidade dela, suas características de temperamento, sua maneira de considerar as coisas, sua ética, suas idéias, seu comportamento, grau de cultura, preferências e idiossincrasias. É de se esperar, portanto, que eu esteja em condições de distinguir com relativa segurança e convicção se falo com ela ou com outra entidade, através do seu corpo físico. Embora valendo-se de seu corpo e até de uma outra expressão que lhe é habitual, a entidade se manifesta com indiscutível autonomia no modo de falar, nos gestos e até cacoetes ou deficiências que porventura ainda traga consigo, como vimos há pouco. Ou seja, se o espírito ainda não se libertou de sua gaguez, não recuperou o uso da língua que lhe fora decepada em 'vida' ou se tem problemas na garganta - rouquidão, câncer, voz anasalada -, tudo isso se reproduz através dela. Há, às vezes, fenômenos de xenoglossia, e pode ocorrer com freqüência - como também acontecia com outro médium muito seguro com o qual trabalhei alguns anos - que o espírito manifestante não encontre, em nossa língua, a palavra exata que deseja para expressar alguma idéia. Neste caso, o manifestante faz uma pausa e permanece em silêncio por rápidos instantes, como se estivesse a procurar no 'dicionário' vivo da mente de seu médium a palavra ou expressão recalcitrante. Em outro grupo junto ao qual servi, tínhamos um amigo espiritual alegre e descontraído, embora firme na sua participação no trabalho, que sempre iniciava a tarefa com uma conversa amena, sem toques de personalismo nem de 'ocultismo'. Certa vez, para significar precisamente que os espíritos que levam suas tarefas a sério não são de estar resolvendo problemas que competem a nós, encarnados, resolver, buscou na mente do nosso médium a expressão adequada, achou-a e disse, com um sorriso: - Os espíritos não são de botar azeitona na empada de ninguém ... Às vezes, depois da dita palavra pesquisada, ele acrescentava: - É essa a palavra que encontro aqui, na mente do nosso irmão. Esse espírito apresentava uma curiosa característica: falava com carregado sotaque francês - fora francês na sua existência mais recente. Antes de começar a comunicação, o médium parecia adaptar-se ao seu modo de ser, como que produzindo para ele uma garganta especial, ectoplásmica, após ligeira regurgitação. Até expressões suas em português denunciavam, às vezes, as matrizes francesas que se produziam. Companheiro muito querido, bem-humorado, mas também severo quando necessário. Sua aparente rudeza era a fachada tênue atrás da qual procurava ocultar um magnífico e generoso coração. Essa busca de expressões adequadas também ocorre com Regina e frequentemente acontece de ser inglesa a palavra achada, de vez que ela conhece bem essa língua. Certa vez, todo o diálogo foi em inglês, dado que o doutrinador também o conhece. Creio que o espírito manifestante assim preferiu porque fora sua língua naquela existência, na Inglaterra vitoriana, na qual fora um membro da igreja anglicana. É importante, contudo, assinalar que o espírito manifestante encontra em Regina espaço suficiente para que - dentro de óbvias limitações de bom-senso e ética - expresse à vontade o que pretende dizer, gesticule, module a voz nos tons desejáveis, mostre sua indignação ou angústia, seus remorsos e esperanças, alegrias e tristezas. É preciso que os médiuns se esforcem por não 'pasteurizar' a comunicação, tornando-a incolor, inexpressiva, asséptica e irreal. Se o espírito ali comparece deprimido, indignado ou irônico, ele vai manifestar exatamente tais sentimentos, sem jamais faltar às regras de civilidade, sem usar palavrões, sem berrar impropérios, porque isso o médium não faz na sua vida normal. Não há nele campo para esses despropósitos. Dê mesma forma que o espírito interrompe, às vezes. sua narrativa em busca de uma palavra apropriada e acaba encontrando-a, se ele procurar o palavrão não irá encontrá- lo. Mesmo o ímpeto inicial de irritação ou indignação vai se atenuando no decorrer do diálogo. Em primeiro lugar, porque o psiquismo do médium não o alimenta e, em segundo, porque o doutrinador deve deixá-lo falar sozinho por algum tempo, a fim de que ele próprio se esvazie de suas aflições. Poucas violências prevalecem por muito tempo quando não são resistidas. O conceito, que parece paradoxal - e talvez o seja -, é indiscutível. É só experimentar. Uma pessoa que berra despropósitos como um possesso a outra que se limita a ouvir com paciência e calma, acaba sentindo-se tola, atirada ao ridículo de um berreiro que não faz sentido. E, se o espírito intenta elevar a voz mais do que o necessário, costumamos pedir-lhe, calmamente que se controle, e dando-lhe a razão do apelo; se ele tem razão no que não precisa gritar; se não a tem, não adianta fazê-lo, pois não é a gritaria que lhe vai dar a razão. A observação produz sempre resultados surpreendentes. Não há a menor dúvida, contudo, que ali está uma entidade inteiramente diversa de tudo quanto Regina é e pensa. Dentro das limitações já assinaladas, o espírito fala, gesticula, extravasa toda a sua indignação e revolta. Se caso, pode até ir à agressão verbal ao doutrinador que está se metendo na sua vida; formula ameaças, ironiza, reclama, alteia a voz e a modula como quiser, produzindo um autêntico retrato psicológico, com riqueza de elementos permitem ao doutrinador avaliar a situação em que se encontra e cararcterizar, com nitidez, que fala a uma entidade diferente da pessoa que lhe ser intermediária. Se, ao contrário. Sua comunicação fosse muito bem- comportado, tranqüila, com palavras bem escolhidas, sem veemências verbais e gestuais, então, sim, ficaríamos em dúvida quanto à autonomia da entidade. Poderíamos, em tais casos, ser levados à suspeita de que estávamos a falar com o próprio médium e não com um espírito desencarnado. Seria desastroso o trabalho, a meu ver, que o comunicante fosse dominado pelo médium de tal maneira a ponto de produzir uma comunicação bem-educada e artificial que jamais conduziria ao verdadeiro núcleo dos seus problemas.
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