Livros Espíritas
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Todos os segredos são desvendados aos seus olhos; é grande o Altíssimo. – Aquele que fala em segredo, aquele que fala em público, o que se envolve nas sombras da noite e o que aparece em pleno dia, lhes são igualmente conhecidos. – É ele quem faz brilhar o raio aos vossos olhos para vos inspirar o temor e a esperança. É ele quem eleva as nuvens carregadas de chuva. – O trovão celebra seus louvores. Os anjos tremem em sua presença. Ele lança o raio e este fere as vítimas marcadas. Os homens rivalizam com Deus, mas ele é o forte e o poderoso. – Ele é a verdadeira invocação. Os que imploram outros deuses não serão atendidos. Assemelham-se ao viajante que, premido pela sede, estende a mão para a água que não pode alcançar. A invocação dos infiéis se perde na noite do erro. (Surata XIII, v. 10 a 15). Jamais digas: “Farei isto amanhã”, sem acrescentar: “Se for da vontade de Deus.” Eleva a ele o teu pensamento, quando tiveres esquecido alguma coisa, e dize: “Talvez ele me esclareça e me faça conhecer a verdade.” (Surata XVIII, v. 23). Se as ondas do mar se transmudassem em tinta para descrever os louvores do Senhor, seriam esgotadas antes de ter celebrado todas as suas maravilhas. Um outro oceano semelhante ainda não bastaria. (Surata XVIII, v. 109). Aquele que busca a verdadeira grandeza a encontra em Deus, fonte de todas as perfeições. Os discursos virtuosos sobem ao seu trono. Ele exalta as boas obras; pune rigorosamente o celerado que trama perfídias. Não, o céu jamais revoga o decreto que ele pronunciou. – Não percorreram a Terra? não viram que ela foi o fim deplorável dos povos que, antes deles, marcharam nos caminhos da iniqüidade? Esses povos eram mais fortes e mais poderosos do que eles. Mas nada nos céus e na Terra pode opor-se às vontades do Altíssimo. A ciência e a força são seus atributos. – Se Deus punisse os homens desde o instante em que se tornam culpados, não restaria sobre a Terra um ser animado. Ele adia os castigos até ao termo marcado. – Quando chegar o tempo, ele distingue a ação de seus servidores. (Surata XXXV, v. 11, 41 a 45). Bastam estas citações para mostrar o profundo sentimento de piedade que animava Maomé e a idéia grande e sublime que fazia de Deus. O Cristianismo poderia reivindicar este quadro. Maomé não ensinou o dogma da fatalidade absoluta, como geralmente se pensa. Esta crença, de que estão imbuídos os muçulmanos, e que paralisa sua iniciativa em muitas circunstâncias, não passa de falsa interpretação e falsa aplicação do princípio da submissão à vontade de Deus, levado além dos limites racionais; não compreendem que esta submissão não exclui o exercício das faculdades humanas, e lhes falta como corretivo a máxima: Ajuda-te, e o céu te ajudará. As passagens seguintes tratam de pontos particulares da doutrina: Deus tem um filho, dizem os cristãos. Longe dele esta blasfêmia! Tudo o que está no céu e na Terra lhe pertencem. Todos os seres obedecem à sua voz. (Surata II, v. 110). Ó vós que recebestes as Escrituras, não ultrapasseis os limites da fé; não digais de Deus senão a verdade. Jesus é filho de Maria, o enviado do Altíssimo e o seu Verbo. Ele o fez descer no seio de Maria; ele é seu sopro. Crede em Deus e em seus apóstolos; mas não digais que há uma trindade em Deus. Ele é uno: esta crença vos será mais segura. Longe de ter um filho, ele governa só o céu e a Terra; ele se basta a si mesmo. – O Messias não corará por ser o servo de Deus, assim como os anjos que cercam o seu trono e lhe obedecem. (Surata IV, v. 169, 170). Os que sustentam a trindade de Deus são blasfemos; não há senão um só Deus. Se não mudarem de crença, um doloroso suplício será o prêmio de sua impiedade. (Surata V, v. 77). Os judeus dizem que Ozaï é filho de Deus. Os cristãos dizem a mesma coisa do Messias. Falam como os infiéis que os precederam. O céu punirá suas blasfêmias. Eles chamam senhores aos seus pontífices, seus monges, e o Messias filho de Maria. Mas lhes é recomendado servir a um só Deus: não há outro. Anátema sobre os que eles associam ao seu culto (Surata IX, v. 30, 31). Deus não tem filhos; não partilha o império com outro Deus. Se assim fosse, cada um deles quereria apropriar-se de sua criação e elevar-se acima de seu rival. Louvor ao Altíssimo. Longe dele essas blasfêmias! (Surata XXII, v. 93). Declara, ó Maomé, o que o céu te revelou. – A assembléia os gênios, tendo escutado a leitura do Alcorão, exclamou: “Eis uma doutrina maravilhosa. – Ela conduz à verdadeira fé e não damos uma igual a Deus. – Glória à sua Majestade suprema! Deus não tem esposa; ele não gerou. (Surata LXXII, v. 1 a 4). Dizei: “Cremos em Deus, no livro que nos enviou, no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e às doze tribos. Cremos na doutrina de Moisés, de Jesus e de seus profetas; não fazemos nenhuma diferença entre eles e somos muçulmanos.” (Surata II, v. 130). Não há senão o Deus vivo e eterno. – Ele te enviou o livro que encerra a verdade, para confirmar a verdade das Escrituras que o precederam. Antes dele, fez descer o Pentateuco e o Evangelho, para servirem de guias aos homens; enviou o Alcorão dos céus. – Os que negarem a doutrina divina só devem esperar suplícios; Deus é poderoso e a vingança está em suas mãos. (Surata III, v. 1, 2, 3). Há os que dizem: “Juramos a Deus não crer em nenhum outro profeta, a menos que a oferenda que ele apresenta seja confirmada pelo fogo do céu.” – Responde-lhes: “Tínheis profetas antes de mim; eles operaram milagres e aquele mesmo de que falais. Por que, então, manchastes as vossas mãos com seu sangue, se dizeis a verdade?” – Se negam a tua missão, trataram do mesmo modo os apóstolos que te precederam, embora fossem dotados do dom dos milagres e tivessem trazido o livro que esclarece (O Evangelho) e o livro dos salmos. (Surata III, v. 179 a 181). Nós te inspiramos, como inspiramos Noé, os profetas, Abraão, Ismael, Isaac, Jacob, as tribos, Jesus, Job, Jonas, Aarão e Salomão. Nós demos os salmos de Davi. (Surata IV, v. 161). Em muitas outras passagens Maomé fala no mesmo sentido e com o mesmo respeito dos profetas, de Jesus e do Evangelho. Mas é evidente que se equivocou quanto ao sentido ligado à Trindade e à qualidade de Filho de Deus, que toma ao pé da letra. Se esse mistério é incompreensível para tantos cristãos, e se entre estes suscitou tantos comentários e controvérsias, não é de admirar que Maomé não o tenha compreendido. Nas três pessoas da Trindade ele viu três deuses e não um só em três pessoas distintas; no filho de Deus ele viu uma procriação. Ora, a idéia que ele fazia do ser supremo era tão grande que a menor paridade entre Deus e um ser qualquer e a idéia de que pudesse partilhar o seu poder lhe parecia uma blasfêmia. Não se tendo Jesus jamais apresentado como Deus e não tendo falado da Trindade, esses dogmas lhe pareceram uma derrogação das próprias palavras do Cristo. Ele viu em Jesus e no Evangelho a confirmação do princípio da unidade de Deus, objetivo que ele mesmo perseguia. Eis por que os tinha em grande estima, ao passo que acusava os cristãos por se terem afastado deste ensinamento, fracionando Deus e deificando o seu Messias. Por isso se diz enviado depois de Jesus, para reconduzir os homens à unidade pura da divindade. Toda a parte dogmática do Alcorão repousa nesse princípio, que ele repete a cada passo. Tendo suas raízes no Antigo e no Novo Testamento, o Islamismo é uma derivação deles. Pode-se considerá-lo como uma das numerosas seitas nascidas das dissidências que surgiram desde a origem do Cristianismo, no que respeita à natureza do Cristo, com a diferença que o Islamismo, formado fora do Cristianismo, sobreviveu à maioria dessas seitas e conta hoje cem milhões de sectários. Maomé vinha combater com todo rigor, na sua própria nação, a crença em vários deuses, para aí restabelecer o culto abandonado do Deus único de Abraão e de Moisés; o anátema que lançou contra os infiéis e os ímpios tinha por objeto, principalmente, a grosseira idolatria professada pelos de sua raça, mas, em contrapartida, também feria os cristãos. Tal a causa do desprezo dos muçulmanos por tudo quanto leva o nome de cristão, malgrado seu respeito por Jesus e pelo Evangelho. Esse desprezo se transformou em ódio sob a influência do fanatismo alimentado e superexcitado por seus sacerdotes. Digamos, também, que, por seu lado, os cristãos não estão isentos de censura e que eles mesmos alimentaram este antagonismo por suas próprias agressões. Conquanto censurasse os cristãos, Maomé não tinha por eles sentimentos hostis e no próprio Alcorão recomenda respeito para com eles, mas o fanatismo os englobou na proscrição geral dos idólatras e dos infiéis, cuja presença não deve macular os santuários do islamismo, razão por que a entrada nas mesquitas, em Meca e nos lugares santos lhes é interdita.23 Deu-se o mesmo em relação aos judeus, e se Maomé os castigou rudemente em Medina, foi por se haverem coligado contra ele. Aliás, em parte alguma no Alcorão se encontra a exterminação dos judeus e dos cristãos instituída como um dever, como geralmente se crê. Seria, pois, injusto imputar-lhe os males causados por um zelo ininteligente e pelos excessos de seus sucessores.
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(23) N. do T.: Esta medida já foi liberalizada, pelo menos no Egito, onde qualquer cidadão pode visitar suas mesquitas sem ser molestado, desde que aí entre descalço e guarde atitude respeitosa.
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