Livros Espíritas
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Dezenas de quilômetros foram instantaneamente vencidos. Em plena noite alta, colocamo-nos ao lado dela, num aposento mal iluminado, em que venerável anciã dormia tranquila. — Matilde! Matilde!… A recém-chegada tentou despertá-la, à pressa, mas em vão. Consciente de que não dispunha senão de rápidos instantes, vibrou algumas pancadas no leito da irmã, que acordou de chofre, entrando, de imediato, em sua esfera de influência. Dona Elisa passou a falar-lhe, atormentada. Dona Matilde, contudo, não lhe escutava as palavras pelos condutos auditivos do vaso carnal e sim pelo cérebro, através de ondas mentais, em forma de pensamentos a lhe remoinharem ao redor da cabeça. Reerguendo-se, inquieta, falou de si para consigo: — “Elisa morreu”. Indicando-nos as duas irmãs juntas, o Assistente explicou: — Temos aqui um dos tipos habituais de comunicação nas ocorrências de morte. Pela persistência com que se repetem, os cientistas do mundo são constrangidos a examiná-los. Alguns atribuem esses fatos a transmissões de ondas telepáticas, ao passo que outros neles encontraram os chamados “fenômenos de monição”. Isso tudo, porém, reduz-se na Doutrina do Espiritismo à verdade simples e pura da comunhão direta entre as almas imortais. — Todas as pessoas, desde que o desejem perguntou meu colega, — podem efetuar semelhantes despedidas, quando partem da Terra? — Sim, Hilário, você diz bem quando afirma “desde que o desejem”, porque semelhantes comunicações, no instante da morte, somente se realizam por aqueles que concentram a própria força mental num propósito dessa espécie. Todavia, não dispúnhamos de tempo para maiores conversações. Dona Elisa, após liberar-se do anseio que lhe inquietava o campo íntimo, qual se o corpo distante lhe reclamasse a presença, à feição do que ocorre num caso de desdobramento vulgar, voltou, de imediato, a casa. Seguindo-a de perto, notamo-la menos aflita, embora fatigada. No aposento familiar, quis reaver o veículo físico, satisfazendo aos velhos hábitos, como se a realidade lhe constituísse tão somente estranho pesadelo, contudo, abatida e atormentada flutuou sobre o leito, ligada aos despojos pelo . () A recém-desencarnada, de alma opressa, resistia à fome de repouso que lhe castigava o pensamento, indecisa e agoniada, sem saber definir se estava viva dentro da morte ou se estava morta dentro da vida. Outros amigos espirituais penetraram a câmara. Áulus consultou o horário e acrescentou: — Voltemos. Nada mais nos cabe fazer. Hilário fixou o laço prateado entre o corpo hirto e a nossa amiga recém-liberta e indagou: — Não poderemos colaborar no desfazimento desse cordão incômodo? — Não, — explicou o orientador, — esse elo tem a sua função específica no reequilíbrio da alma. Morte e nascimento são operações da vida eterna que demandam trabalho e paciência. Além disso, há companheiros especializados no serviço da libertação última. A eles compete o toque final. E, acompanhando o instrutor, retiramo-nos do lar de Anésia, onde havíamos recolhido preciosas lições.
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