Livros Espíritas
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“Nossa consciência normal não é mais que um tipo particular de consciência, separado, como por fina membrana, de vários outros que aguardam momento favorável para entrar em jogo. Podemos atravessá-los sem suspeitarmos de sua existência; mas, em presença de estímulo conveniente, mostram-se mais reais e complexos.” A propósito de certas conversões acrescenta:(201) “Descobrem-se profundezas novas na alma, à proporção que ela se transforma, como se fosse formada de camadas sobrepostas, cada uma das quais permanece desconhecida, enquanto está coberta por outras.” E, mais adiante:(202) “Quando um homem tende conscientemente para um ideal, é em geral para alguma coisa vaga e indefinida; existem, contudo, bem no fundo de seu organismo, forças que aumentam e caminham em sentido determinado. Os fracos esforços, que esclarecem a sua consciência, suscitam esforços subconscientes, aliados vigorosos que trabalham na sombra; mas essas forças orgânicas convergem para um resultado que muitas vezes não é o mesmo e que é sempre mais bem determinado que o ideal concebido, meditado, reclamado pela consciência nítida.” Tudo isso confirma que a causa inicial e o princípio da sensação não estão no corpo, mas na alma; os sentidos físicos são simplesmente a manifestação externa e grosseira, o prolongamento na superfície do ser, dos sentidos íntimos e ocultos. O Chicago Chronicle, de dezembro de 1905, refere um caso extraordinário de manifestação do sexto sentido, que julgamos dever citar aqui. Trata-se de uma menina de 17 anos, cega e surda-muda, desde a idade de 6 anos, e na qual se desenvolveu, dessa época em diante, uma faculdade nova: “Ella Hopkins pertence a uma boa família de Utica, Nova Iorque. Há três anos foi colocada pelos pais num Instituto de Nova Iorque destinado à instrução dos surdos-mudos. Como às outras crianças daquela casa, ensinaram-lhe a ler, a ouvir e a exprimir-se por meio dos dedos. Não somente Ella rapidamente se apropriou dessa linguagem, como chegou a perceber o que se passa em volta de si, tão facilmente como se gozasse de seus sentidos normais. Sabe quem entra e sai, se é pessoa conhecida ou estranha; segue e percebe a conversa sustentada em voz baixa no aposento onde se encontra e, a pedido, a reproduz fielmente por escrito. Não se trata de leitura de pensamento direto, pois que a menina não compreende o pensamento das pessoas presentes senão quando lhe dão uma expressão vocal. Mas, essa faculdade tem intermitências e mostra-se às vezes com outros aspectos. A memória de Ella é das mais notáveis. O que aprendeu uma vez – e aprende depressa – nunca mais o esquece. Sentada diante da máquina de escrever, com os olhos fixos, como se vissem, com interesse intenso nas teclas do instrumento, do qual se serve com extrema precisão, tem toda a aparência de uma jovem em plena posse das faculdades normais. Os olhos são claros e expressivos, a fisionomia animada e variável. Ninguém diria que Ella é cega, surda e muda. Devemos acreditar que o diretor do Instituto, Sr. Currier, está habituado à manifestação das faculdades anormais nesses infelizes, pois que não parece admirar-se com o caso da menina. “Temos todos – diz ele – consciência de certas coisas sem o auxílio aparente dos sentidos ordinários... Aqueles que são privados de dois ou três desses sentidos e obrigados a contar com o desenvolvimento de outras faculdades para os substituir, vêem naturalmente estas se desenvolverem e fortificarem.” Há, na mesma classe de Ella, outras duas mocinhas igualmente cegas, surdas e mudas, que possuem também este “sexto sentido”, ainda que em menor grau. Faz gosto, ao que parece, vê-las, todas três, comunicarem-se rapidamente pelo vôo do pensamento, tendo apenas necessidade do ligeiro contacto dos dedos sensitivos.” À enumeração desses fatos acrescentaremos um testemunho de alto valor, o do Prof. César Lombroso, da Universidade de Turim. Escrevia ele na revista italiana Arena (junho de 1907): “Até 1890 fui acérrimo adversário do Espiritismo. Em 1891, porém, tive de combater numa cliente minha um dos fenômenos mais curiosos que jamais se me depararam. Tive de tratar a filha de um alto funcionário de minha cidade natal, a qual, de repente, foi acometida, na época da puberdade, de violento acesso de histeria acompanhado de sintomas de que nem a Patologia nem a Fisiologia podiam dar explicação. Havia momentos em que os olhos perdiam totalmente a faculdade de ver e em compensação a doente via com os ouvidos. Era capaz de ler com os olhos vendados algumas linhas impressas que lhe apresentassem ao ouvido. Quando se lhe punha uma lente entre o ouvido e a luz solar, ela experimentava como que uma queimadura nos olhos; exclamava que queriam cegá-la... Conquanto não fossem novos esses fatos, não deixavam de ser singulares. Confesso que, pelo menos, pareciam-me inexplicáveis pelas teorias fisiológicas e patológicas estabelecidas até então. Parecia-me bem clara uma única coisa: que esse estado punha em ação, numa pessoa dantes inteiramente normal, forças singulares em relação com sentidos desconhecidos. Foi então que tive a idéia de que talvez o Espiritismo me facilitasse a aproximação da verdade.” Eis outro exemplo do desenvolvimento dos sentidos psíquicos, para o qual chamamos toda a atenção do leitor. A pessoa de quem vamos falar é considerada como uma das maravilhas de nossa época:(203) Helen Keller é também uma menina cega, surda e muda. Não possui, em aparência, senão o sentido do tato para comunicar com o mundo exterior. E, entretanto, pode conversar em três línguas com seus visitantes; sua bagagem intelectual é considerável; possui um sentimento estético que lhe permite gozar das obras de arte e das harmonias da Natureza. Pelo simples contacto das mãos, ela distingue o caráter e a disposição de espírito das pessoas que encontra. Com a ponta dos dedos colhe a palavra nos lábios e lê nos livros apalpando os caracteres salientes, especialmente impressos para ela. Eleva-se à concepção das coisas mais abstratas e sua consciência ilumina-se com claridades que vai buscar nas profundezas de sua alma. Escutemos o que nos diz a Sra. Maëterlinck, depois da visita que lhe fez em Wrentham (América): “Helen Keller é um ser superior; vê-se sua razão equilibrada, tão poderosa e tão sã, sua inteligência tão clara e tão bela, que o problema logo se transmuda. Já não se procura ser compreendido, mas compreender. Helen possui profundos conhecimentos de Álgebra, de Matemática, um pouco de Astronomia, de latim e grego; lê Molière e Anatole France e se exprime em seus idiomas; compreende Goethe, Schiller e Heine em alemão, Shakespeare, Rudyard Kipling e Wells em inglês e escreve ela própria como filósofa, psicóloga e poetisa.” O sentido do tato é impotente para produzir tal estado mental, tanto mais que Helen, dizem seus educadores, consegue perceber o farfalhar das folhas, o zumbido das abelhas. Agrada-lhe o correr nos bosques. Seu biógrafo, Gérard Harry, assegura que a intensidade de suas percepções confere-lhe aptidões de uma leitora do pensamento. Evidentemente, encontramo-nos em presença de um ser evoluído, retornando à cena do mundo com toda a aquisição dos séculos percorridos. O caso de Helen prova que por trás dos órgãos momentaneamente atrofiados existe uma consciência desde muito familiarizada com as noções do mundo exterior. Há, aí, ao mesmo tempo, uma demonstração das vidas anteriores da alma e da existência dos seus próprios sentidos, independentes da matéria, dominando-a e sobrevivendo a toda desagregação corporal. Para desenvolver, apurar a percepção, de modo geral, é preciso, a princípio, acordar o sentido íntimo, o sentido espiritual. A mediunidade demonstra-nos que há seres humanos muito mais bem dotados, em relação à visão e audição interiores, do que certos Espíritos que vivem no espaço e cujas percepções são extremamente limitadas em vista da insuficiência de sua evolução. Quanto mais puros e desinteressados são os pensamentos e os atos, numa palavra, quanto mais intensa é a vida espiritual e quanto mais ela predomina sobre a vida física, tanto mais se desenvolvem os sentidos interiores. O véu que nos esconde o mundo fluídico adelgaça-se, torna-se transparente, e por trás dele a alma distingue um conjunto maravilhoso de harmonias e belezas, ao mesmo tempo em que se torna mais apta a recolher e transmitir as revelações, as inspirações dos seres superiores, porque o desenvolvimento dos sentidos internos coincide, geralmente, com uma extensão das faculdades do Espírito, com uma atração mais enérgica das radiações etéreas. Cada plano do universo, cada círculo da vida, corresponde a um número de vibrações que se acentuam e tornam mais rápidas, mais sutis, à medida que se aproximam da vida perfeita. Os seres dotados de fraco poder de radiação não podem perceber as formas de vida que lhes são superiores, mas todo Espírito é capaz de obter pela preparação da vontade e pela educação dos sentidos íntimos um poder de vibração que lhe permite agir em planos mais extensos. Achamos uma prova da intensidade dessa forma de emissão mental no fato de se terem visto moribundos ou pessoas em perigo de morte impressionarem telepaticamente, a grandes distâncias, vários indivíduos, ao mesmo tempo.(204) Na realidade, cada um de nós podia, se quisesse, comunicar a todos os momentos com o mundo invisível. Somos Espíritos. Pela vontade podemos governar a matéria e desprender-nos de seus laços para vivermos numa esfera mais livre, a esfera da vida superconsciente. Para isso é mister espiritualizar-nos, voltar à vida do espírito por uma concentração perfeita de nossas forças interiores. Então, nos encontraremos face a face com uma ordem de coisas que nem o instinto, nem a experiência, nem mesmo a razão pode perceber.
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(201) W. James - L'Expérience Religieuse, pág. 160.
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(202) Idem, ibidem, pág. 178.
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(203) Ver a obra de Gérard Harry sobre Helen Keller. - Livraria Larousse, com prefácio de Mme. Maëterlinck.
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Nota 4:
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(204) Ver Annales des Sciences Peychiques, outubro de 1906, págs. 611, 613.
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