Livros Espíritas
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Na quinta-feira os amigos passaram por sua casa para acertar os últimos detalhes e ela lhes comunicou sua inesperada decisão. A reação foi pronta e inconformada. Não ia por quê? Que motivo teria surgido, assim, imprevisto? Como não havia nenhum a alegar, ela pretextou estar sem dinheiro. Mas isso não seria problema, disseram eles, dispostos a emprestar a importância necessária. Ela recusou a oferta generosa e continuou irredutível na decisão de não mais ir com eles. A despeito da insistência deles, ela se manteve firme. Saíram decepcionados e até um pouco magoados com ela, que também ficara aborrecida consigo mesma em face daquela inexplicável teimosia; mas sem dúvida 'algo' dizia, lá dentro dela, que não fosse. Podia perfeitamente estar equivocada, mas resolveu ouvir a advertência interior. O casal estava igualmente decidido a levar uma companheira de viagem e na sexta- feira foram em busca de uma amiga comum, em Nova Iguaçu. A moça não estava preparada para uma longa e repentina viagem como aquela, mas acabou cedendo ante a insistência do convite e a perspectiva de um passeio interessante sem grandes despesas. Trouxeram-na para a casa deles e foi aí que ela preparou sua roupa, chegando ao extremo de ter de lavar e secar a ferro algumas peças. Realmente eles não queriam viajar sozinhos. Tudo acertado, partiram no domingo como ficara combinado. A semana começou sem maiores incidentes. Desde que os amigos haviam partido, Regina desligou - se deles e da viagem. No entanto, na quinta-feira daquela semana - eles estavam ainda em viagem -, teve uma vidência (sonho?), que lhe apresentava nitidamente três quadros enigmáticos, como instantâneos ou fragmentos de uma sequência com um óbvio simbolismo que somente entenderia mais tarde. No primeiro desses quadros, ela se via na escola, onde trabalhava, diante de um lago, e, nele, um peixe muito irrequieto, cujo corpo tinha formas femininas e os olhos de sua amiga, mulher do colega professor. A identificação era óbvia, pois a moça tinha olhos lindos, verdes, grandes, extremamente expressivos. Diziam dela que 'falava com os olhos', realmente inconfundíveis. De repente, um aluno muito chegado a Regina se põe ao seu lado e lhe oferece, numa jarra d'água, o peixe, que acabara de apanhar para ela. Regina meteu as mãos na jarra para segurar o peixe e ao retirá-los trazia pelos ombros o cadáver de uma mulher. No segundo quadro, caminhava ela por uma estrada asfaltada aberta na mata. Ao lado dela, de braços dados, caminhava um homem. De repente, quando olha para ele, Regina percebeu que estava arrastando um cadáver ! No terceiro e último quadro, ainda a caminhar pela mesma estrada, surge inesperadamente à sua frente um enorme tronco de árvore tombado, barrando-lhe a passagem. Regina olhou à sua volta para pedir socorro e avistou uma pequena casa um tanto afastada da rodovia. Decidiu ir até lá para chamar alguém, quando dela saiu um homem, de machado às costas, para cortar o tronco. Regina percebe, então, que o tronco é oco, de forma oval como a de uma canoa. Dentro dele ela vê o cadáver de uma mulher. Após essa tétrica sucessão de imagens, ela despertou. Embora intrigada com as visões, não conseguiu descobrir-lhes qualquer sentido, se é que tinham. Nem fez qualquer conexão, no momento, com seus amigos que àquela altura já deveriam estar em Brasília. Imaginou que fosse mais um desses sonhos incongruentes que resistem a qualquer tipo de abordagem interpretativa. Na noite seguinte, sexta-feira, teve outro desprendimento - não era sono comum -, mas agora a mensagem era descomplicada, ainda que aparentemente sem muito sentido. Via-se acordada por uma das suas vizinhas, à 1h30 da madrugada, para dar-lhe uma notícia de morte de três pessoas, ou seja, de seus três amigos viajantes. Era a vizinha de baixo, a única que tinha telefone no prédio naquela época. Sábado, pela manhã, às 7h30, ainda estava na cama pensando naqueles sonhos esquisitos, quando a vizinha chamou-a pela janela. Regina recebeu sobre o plexo, na boca do estômago, o imediato impacto de uma sensação desconfortável. Tinha agora certeza do que se tratava, ou seja, que notícia a vizinha tinha a lhe dar. E era. Seria 1h30 da madrugada, disse a, quando alguém telefonara pedindo para mandar chamá- la. Era para comunicar-lhe a morte de uns amigos, dissera a voz do outro lado. Três pessoas. Ela não quis chamar Regina, àquela hora, por saber que ela morava sozinha e aquilo bem poderia ser uma cilada ou um trote, coisa assim. - Acho que fiz mal - concluiu ela. Deveria ter chamado você. - Não importa - respondeu Regina desolada. - Eu sei do que se trata. De fato, os três haviam morrido em acidente rodoviário. Vamos alinhar cronologicamente os episódios: 1) Regina viu seus amigos já mortos na quinta-feira, um dia antes do acidente fatal, que ocorreu na sexta às 7hOO da noite, conforme ficou sabendo depois; 2) eles morreram na estrada para Brasília, aberta em um trecho de matas mais densas; 3) a notícia foi dada por um radioamador local que morava numa casa próxima da estrada. O radioamador entendeu-se com um colega do Rio e pediu para avisar parentes e amigos, cujos nomes e telefones constavam de papéis encontrados com os mortos; 4) o telefonema para a vizinha de Regina tinha sido realmente à 1h30 da madrugada de sábado, mas ela soube dele ainda na sexta-feira, à noite. Tudo conferia! Neste caso, a telepatia não pode ser acolhida como explicação, porque as vidências antecederam as ocorrências reais. O que houve aí foi um misterioso jogo de anacronismos, ou seja, um baralhamento no tempo e na seqüência dos eventos, Na sexta-feira pela manhã, quando Regina despertou de volta ao corpo físico, ela já vira seus amigos mortos, ainda que envolvidos em certos simbolismos, que no momento ela não soube interpretar. No entanto eles só foram morrer realmente na sexta-feira, às 7hOO da noite, um dia depois de já terem sido vistos como mortos por ela. O mesmo ocorreu com o telefonema. Ela soube que havia uma chamada para ela na noite de sexta-feira, mas a chamada real somente chegou à 1h30 da madrugada de sábado e ela só tomou conhecimento do fato, pela manhã. O fenômeno, aliás, não era novo para Regina, ainda que desta vez tenha sido de intensa e trágica dramaticidade. Houve tempo em que ela experimentava regularmente a vidência antecipada de seu dia de trabalho. Logo pela manhã, as cenas se desenrolavam à sua visão interior com impressionantes detalhes, que depois era só conferir com a realidade do ocorrido horas mais tarde. Em A memória e o tempo, observamos que algumas pessoas conseguem ir ao futuro e voltar ao presente para, afinal, chegar, pela segunda vez, ao episódio que já viram por antecipação, J. W. Dunne, eminente matemático inglês, realizou durante anos experimentações com esse fenômeno, pelo simples procedimento de anotar seus sonhos. Em seu famoso e muito citado livro 'An experiment with time', ele oferece até uma formulação matemática como base teórica para essas mágicas do tempo. A Dra. Louise Rhine, em 'Canais Ocultos da mente', estuda situações semelhantes e as documenta com relatos confiáveis de pessoas que viram o futuro acontecer em minúcias, com antecipação de dias ou de meses. Os profetas - bíblicos e leigos, como Nostradamus - superaram barreiras de séculos e até de milênios, foram ao futuro e voltaram para contar o que viram, e nem sempre entenderam com a desejada nitidez. Na minha opinião, os eventos já existem e nós apenas passamos por eles. É o que pensam, também, Dunne, Oliver Lodge e Pascal. Enfim, estou em boa companhia ... Para Regina a teoria é outra. Acha ela que o tempo decorre em ritmos diversos e, portanto, com diferentes espaços de duração. Os franceses têm a palavra própria para caracterizar o fenômeno, sem recorrer a expressões como espaço, que obviamente são geométricos e não cronológicos. Eles preferem dizer 'durêe', como se vê com freqüência em Bergson, creio que em Matiere et memoire. Quanto a mim, acho que o tempo é, também, um local, como ficou dito no já citado A memória e o tempo. Vejamos, porém, como Regina explica sua teoria. Ela acha que no plano invisível, onde vivem os seres desencarnados, o ritmo é muito mais acelerado do que neste em que vivemos nós, os encarnados. Segundo essa hipótese, os seres espirituais movimentam-se em outra dimensão, como se costuma dizer, na qual a velocidade dos eventos é de difícil apreensão para nós, enquanto encarnados. Porém, uma vez desdobrados, ou seja, na condição de espíritos em estado de relativa liberdade, porque ainda presos ao corpo físico, temos condição de captar o que se passa nessa outra dimensão. Isto parece fazer algum sentido, pois constitui motivo de constante perplexidade a incrível velocidade com a qual certos médiuns psicografam textos de autoria de seres desencarnados. O lápis, em tais casos, voa sobre o papel como se mal o tocasse ou como se o material da grafita apenas se depositasse em bloco, formando palavras ou frases inteiras, em vez de escrever letra por letra. Fenômeno semelhante ocorre - e ainda veremos isto - quando um espírito de mais elevada condição evolutiva em vez de transmitir ao médium uma exposição, palavra por palavra, transfere-lhe tudo de uma vez, cabendo a este desdobrar o pensamento. É como se, em vez de transferir o conteúdo de uma caixa- d'água para outra, através de um cano, a própria caixa fosse colocada subitamente dentro da outra. Devo declarar que a teoria não me parece nada absurda, porque aqueles que experimentaram com a escrita direta, como o conhecido barão de Guldenstubbé, atestam esse fenômeno, no qual a grafita não é esfregada no papel por atrito, mas depositada sem movimentação do lápis .
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