Livros Espíritas
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Quando experimentei pessoalmente o fenômeno da regressão da memória (ver a propósito o livro A memória e o tempo), aprendi que o trabalho de indução ficaria prejudicado ou arruinado de todo se exigisse dos sensitivos uma atitude de severa concentração. Em vez de qualquer esforço consciente, destinado a obter a clássica concentração, o que se pedia era exatamente uma atitude de relaxamento e descontração, deixando que o fenômeno ocorresse naturalmente, segundo sua própria dinâmica. Quanto mais o sensitivo se empenha em concentrar-se para observar a mecânica do processo e permanecer alerta para o que se passa com ele, mais difícil se torna alcançar a condição básica e indispensável para que as coisas aconteçam como desejado. Dificilmente o sensitivo terá condições de funcionar como agente dos fenômenos e instrumento deles ao mesmo tempo em que os observa como espectador. É certo que, após reconduzido ao estado normal de consciência em vigília, um exame retrospectivo de tudo quanto ocorreu suscitará lembranças e impressões mais ou menos vivas do que se passou com ele, mas, de modo geral, o esforço da chamada concentração é uma das principais causas inibidoras do fenômeno. Sei que estamos aqui a discorrer sobre fenômenos anímicos - desprendimento, regressão da memória, transe magnético etc -, mas a experiência com o assunto indica que há uma só realidade subjacente, tanto no fenômeno anímico quanto no mediúnico, dado que estão ambos apoiados no mesmo instrumento básico da sensibilidade e, em algumas modalidades, na mesma capacidade de desdobramento do corpo espiritual. "Apesar de valiosa, a concentração facilmente se transforma em um estado mental que frustra seu próprio objetivo, ao restringir a emissão de força magnética" - escreve Boddington, em University of spiritualism. Em Secrets ef mediumship, ele amplia seu comentário, lembrando que o relaxamento físico e mental constituem fator "de primária importância no desenvolvimento da mediunidade". Ao contrário do que muita gente pensa, a concentração não consiste em fixar na mente um pensamento ou imagem, mas precisamente o contrário, ou seja, em esvaziar a mente de pensamentos. O que vale dizer, abrir espaço para que o fenômeno anímico ou mediúnico se produza, sem interferências, sem obstáculos, sem distrações que o inibam. Isto é perfeitamente compreensível. Já vimos que o contexto, o ambiente, o campo de ação da mediunidade é o pensamento. Este conceito é universal e incontestável até mesmo para os chamados fenômenos de efeito físico, pois não há movimento algum de idéias ou de objetos, da vontade, enfim, que não tenha de receber os comandos da mente através do cérebro, a grande central diretora do ser encarnado ou desencarnado. (Muitos esquecem - ou não sabem - que o desencarnado também tem seu cérebro no corpo espiritual, isto é, no perispírito). Como poderia o espírito comunicante movimentar seus recursos através da mente do sensitivo se ela está teimosamente obstruída ou paralisada na fixação de um idéia ou de uma imagem? Sabemos todos que não é fácil fazer parar a maquininha de produzir pensamentos como quem desliga os terminais de um computador com o simples apertar de um botão de comando ou apaga a lâmpada pressionando um interruptor. Muitas pessoas dispõem, contudo, dessa interessante faculdade como que inata, espontânea e pronta para utilização. Acredito que a maioria acabe desistindo de conseguir realizar essa verdadeira proeza. Sem dúvida, porém, é possível despertar e desenvolver a faculdade de controlar o fluxo torrencial e aparentemente inestancável do pensamento. Não é nosso propósito recomendar aqui nenhuma técnica especial, das muitas que existem em livros. Nem me considero autoridade no assunto. Em verdade, tenho certas desconfianças sobre técnicas que se propõem a desenvolver essa faculdade, em tantas lições, ao ponto de produzir prodígios. Não duvido de que alguns de tais prodígios sejam até viáveis, mas questiono a finalidade a que se destinam. Lembro-me sempre daquela ilustrativa historinha do discípulo que, após muitos anos, apresentou- se ao seu guru para lhe anunciar, eufórico, que já conseguia transportar-se de um lado a outro de um rio pelo simples poder da mente. Ao que recebeu uma decepcionante e arrasadora observação: -Ah, meu filho, você perdeu seu tempo! Você pode fazer a mesma coisa a troco de umas poucas moedinhas atravessando de canoa ... A famosa concentração não é, pois, exatamente o que pensam muitos que ela seja. Experiências de telepatia, como lembra Boddington, falham lamentavelmente até que se descubra que a 'mensagem' mental da pessoa que transmite não consegue ser acolhida pela mente receptora sempre que esta esteja ocupada por um pensamento, qualquer que seja ele. Concentrar-se não é, pois, agarrar-se tenazmente a uma idéia ou imagem, mesmo porque também a imagem é um pensamento visualizado, como que objetivado, ainda que sem a participação dos órgãos normais da visão. Quando a emissão de pensamentos alheios nos alcança, eles se misturam sutilmente aos nossos a ponto de nem sempre conseguirmos distinguir uns dos outros. Sabendo disso é que os espíritos conseguem nos influenciar, seja com pensamentos positivos e construtivos, seja com idéias negativas. Só com alguma experiência e acurado senso analítico podemos identificar idéias alheias na correnteza normal dos nossos pensamentos, mas isto já é outro problema e fica para discussão mais adiante neste livro. O que importa aqui é entender bem o que é de fato concentração. Vemos, pelo que fica exposto, que se concentrar é estancar a torrente de pensamento próprio, a fim de que o alheio possa ser recebido; é portanto, criar espaço para receber as idéias alheias, ou claro, nossas próprias, guardadas no inconsciente, onde está a memória de todas as vidas passadas. (Novamente recomendo a leitura de A memória e o tempo, onde o assunto foi examinado com mais vagar). Se as idéias que o médium acolhe são suas mesmas, o fenômeno é anímico; se são alheias, ele é mediúnico e sobre isso temos algo a dizer no próximo módulo deste livro. Utilizamos acima a palavra idéias, mas é certo que também poderíamos ter acrescentado imagens, porque não apenas os espíritos manifestantes se utilizam da mente do médium para vestir seus pensamentos com palavras do vocabulário do médium, como podem, também, suscitar imagens e cenas inteiras ou narrativas mais ou menos longas, como se um filme cinematográfico estivesse sendo exibido na intimidade do sensitivo. Nos fenômenos anímicos, isto é, emergidos das memórias do próprio médium, pensamentos e imagens são sacados do inconsciente dele. Em ambas as situações, o consciente do sensitivo tem de estar 'desocupado', tem de oferecer espaço mental para que os fenômenos ocorram. Este aspecto é de tão grande importância na dinâmica do fenômeno mediúnico que Boddington é de opinião que aí está "a causa secreta do fracasso de todas as formas de mediunidade", opinião essa de que partilhamos, pois é também nossa experiência pessoal. O médium precisa aprender a controlar tanto sua atividade consciente quanto a inconsciente. Há um sutil inter-relacionamento entre esses dois aspectos da mente, como procurei expor em A memória e o tempo. Propus, neste livro, o conceito de que o consciente é apenas um dispositivo de passagem, num sentido e no outro, ou seja, tanto do subconsciente e do inconsciente para 'fora', como de 'fora' para 'dentro'. A terminologia inglesa eletrônica dispõe das palavras adequadas: input e output (entrada e saída). O que por aí transita fica depositado em dois 'arquivos' especiais: um, o subconsciente, onde se encontra o material de uso corrente que pode ser evocado com relativa facilidade; outro, o inconsciente, espécie de arquivo morto de acesso mais difícil, mas não impossível. O subconsciente retém as lembranças da vida presente e, por isso, é de acesso mais fácil; o inconsciente é o vastíssimo armazém das memórias passadas, desde que começou a funcionar em nós o dispositivo da consciência, que nos identifica como um ser à parte, distinto do mundo em que vivemos e das demais formas de vida nele existentes. Não sei se Boddington concordaria com esse esquema; é certo, porém, que ele acha que o grande segredo da mediunidade é saber controlar a atividade subconsciente, tanto quanto a consciente. Até que o médium consiga isso, acha ele impraticável a produção de mensagens convincentes que possam ser consideradas como de mentes alheias e não da sua própria. Não estamos muito de acordo neste ponto, mesmo porque a experiência ensina que não devemos dogmatizar com nenhum aspecto da mediunidade ou, para ser mais amplo e abrangente, com nenhum aspecto da complexa atividade mental do ser humano. Acho que por muito tempo - e bota tempo nisso - teremos surpresas e mistérios a decifrar nesse campo de estudo. Testemunhamos, às vezes, notáveis fenômenos e comunicações de irrespondível evidência mediúnica em sensitivos que, obviamente, não demonstram conhecer, com tanta nitidez como desejaria Boddington, a distinção entre idéias próprias e alheias ou que dominem, com perfeição, os dispositivos da mente. Não há dúvida, porém, de que o bom funcionamento da mediunidade exige certo controle do que se passa no consciente e no subconsciente ou, para dizer de outra maneira, capacidade para ceder espaço mental desobstruído ao espírito comunicante, estranho à individualidade do médium. Isso não quer dizer que o médium capaz de realizar essa operação íntima domine toda sua atividade mental, como sugere Boddington e, sim, que consiga deixar fluir, por seus condutos mentais, o pensamento alheio, como que se pondo à margem para deixar o outro passar.
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