Livros Espíritas
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A crença é um ato de entendimento e, por isso mesmo, não pode ser imposta. Se, durante certo período da humanidade, o dogma das penas eternas se manteve inofensivo, salutar mesmo, chegou o momento em que se torna perigoso. Com efeito, a partir do momento em que é imposto como verdade absoluta, quando a própria razão o repele, podem acontecer duas coisas: ou o homem quer acreditar e procura uma crença mais racional, se afastando dos que o professam, ou, então, descrê absolutamente de tudo. Quem quer que estude o assunto, calmamente, verá que, em nossos dias, o dogma da eternidade das penas tem feito mais ateus e materialistas do que todos os filósofos. As ideias seguem um curso incessantemente progressivo, de modo que não se pode governar os homens desviando-se desse curso. Pretender contê-los, retroceder ou simplesmente parar enquanto ele avança, é condenar-se. Seguir ou deixar de seguir essa evolução é uma questão de vida ou de morte para as religiões como para os governos. Esse fatalismo é um bem ou um mal? Certamente é um mal para os que, vivendo do passado, o veem aniquilar-se; mas para os que vivem pelo futuro é uma lei do progresso, ou seja, uma Lei de Deus. E contra uma Lei divina é inútil toda revolta, impossível toda luta. Por que, então, querer a todo custo uma crença que cai em desuso e que, afinal, causa mais danos que benefícios à religião? Ah! é triste dizê-lo, mas uma questão material domina aqui a questão religiosa. Essa crença tem sido grandemente explorada pela ideia de que com dinheiro se abrem as portas do céu e se fecham as do inferno. As quantias arrecadadas por estes meios, outrora e ainda hoje, são incalculáveis; é o imposto adiantado que se paga pelo temor da eternidade. E, sendo ele facultativo, a renda é sempre proporcional à crença; se a crença deixar de existir, nula será a renda. A criança cede de boa vontade o seu pedaço de bolo a quem lhe promete afugentar o lobisomem; contudo, se já não acreditar em lobisomem, guardará o bolo.
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