Livros Espíritas
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Pelo que ficou exposto neste livro, até aqui, podemos observar que uma riqueza muito mais ampla de fenômenos anímicos do que de fenômenos mediúnicos, e que estes nunca ocorrem em grau de pureza absoluta, ou seja, sem o mais leve toque de animismo, pois a alma do médium nele se envolve e tem mesmo de envolver-se -, do contrário não haveria fenômeno mediúnico. Discutidos tais aspectos, sem esgotá-los, obviamente, mas creio com as conotações suficientes a uma boa avaliação da questão, acho que podemos passar às considerações em torno dos problemas específicos do que estamos chamando de semiologia da comunicação e do desenvolvimento da mediunidade. Nota: Psicografia. Tão habituados estamos a considerar a psicografia como fenômeno tipicamente mediúnico que nos esquecemos dela como fenômeno anímico, no qual o sensitivo funciona como médium de si mesmo, ou seja, de seu próprio espírito. A psicografia é um fenômeno dicotômico que tanto pode figurar na categoria dos fatos anímicos quanto entre os que compõem o amplo leque de manifestações mediúnicas. Quanto ao termo em si - e ao contrário de vários outros, como vimos - julgo poder considerá-lo adequado a uma aceitável conceituação dos fenômenos que se propõe rotular. Trata-se realmente de uma escrita (grafia) de natureza psíquica, ainda que dotada de características peculiares e específicas pois, no fundo, toda escrita é manifestação do psiquismo humano. Ainda está pouco difundido o emprego da palavra, especialmente entre os povos de língua inglesa - entre os quais circula uma boa literatura especializada de pesquisa - de vez que continua sendo usada, nesse idioma, a conhecida expressão automatic writing, isto é, escrita automática, bem mais imprecisa, como se vê. Para não expandir esta breve notícia além dos limites em que estamos procurando conter este livro, valho-me do excelente estudo do dr. Nandor Fodor, verbete Automatic writing, de sua An Encyclopaedia of Psychic Science, na qual o assunto é tratado com abundância de informações, critério seletivo e bom-senso. Define ele a escrita automática como "textos produzidos sem o controle do ser consciente". Poderíamos, de certa forma, questionar sua conceituação, por sabermos que o espírito exerce pleno controle da situação e está sempre consciente, sem o que não poderia produzir o texto. O que ocorre é que a consciência está presente no ser em vigília e ausente (mas não inexistente) no estado de transe. Não há, portanto, esse automatismo que a expressão parece sugerir, como se os textos emergissem de um mecanismo impessoal, à revelia do consciente. À sua maneira, e com sua terminologia específica - que pode divergir da que adotamos no contexto da doutrina espírita - o dr. Fodor está bem alertado, para o fato de que os textos da chamada escrita automática tanto podem emergir do próprio sensitivo, como serem gerados em mente estranha à dele, em outras palavras: o eminente estudioso sabe que há uma psicografia anímica e uma psicografia mediúnica, embora não se utilize de tais palavras. A faculdade - não apenas dele, mas de todos nós - consiste em distinguir uma da outra, aspecto a que aludiu Gabriel Delanne, que propõe alguns critérios aferidores com essa finalidade. Escreve Fodor: É a modalidade mais comum de mediunidade, fonte de inúmeros casos de auto-ilusão e, ao mesmo tempo, um dos mais elevados e preciosos dons espirituais, de vez que, se confiável, abre um canal direto de comunicação com a finalidade de obterem-se ensinamentos do além. Entre esses dois extremos, muitos problemas de complexa natureza se apresentam ao pesquisador. (Fodor. Nandor.1969.) Realmente, é esse o quadro. Tão complexo que não apenas tem gerado auto-ilusões desastrosas, mas também equívocos lamentáveis em pesquisadores que deixam sua competência neutralizar-se ante a paixão pelas idéias preconcebidas, tentando enquadrar o fenômeno num corpo morto de hipóteses prediletas, em vez de deduzir as leis que o regem a partir da serena observação dos fatos. É preciso observar, ainda, que nem sempre a comunicação psicográfica de características mediúnicas provém de um espírito desencarnado. Já Kardec nos alertava para esse aspecto, ao informar que o espírito encarnado também pode comunicar-se através de um médium, como se desencarnado estivesse, pois não deixa de ser espírito somente porque está preso a um corpo material. Sobre esse aspecto, o dr. Fodor tem interessantes contribuições a oferecer. Segundo ele, o jornalista inglês William T. Stead recebeu, durante quinze anos, comunicações dessa natureza de vários de seus amigos encarnados. Não lhe foi difícil comprovar a exatidão desses textos em meticulosa pesquisa pessoal que levou a termo e o convenceu da autenticidade deles. Pôde verificar nessas pesquisas que nem sempre os comunicantes tinham conhecimento do que lhe transmitiam. Stead não foi, porém, o único psicógrafo a produzir esse tipo de fenômeno. Ele próprio conhecia pelo menos uma dezena de outros sensitivos com os quais acontecia o mesmo tipo de manifestação. Há, a respeito, curioso depoimento de uma sensitiva de nome Felícia Scatcherd que, a certa altura e relutantemente, começou a receber mensagens assinadas por pessoas que ela sabia vivas e bem conhecidas, embora lhe fossem pessoalmente estranhas. Pelo menos um desses episódios ela conferiu. Sabendo que, num jantar para o qual fora convidada, em Paris, encontrar-se com determinado cientista (famoso, diz ela), levou consigo textos que havia recebido dele, meses antes. Não foi surpresa para ela ouví-lo expressar os mesmos sentimentos que lhe havia transmitido por psicografia em linguagem, aliás, que obviamente não era a sua habitual. Ficou em mim a frustração - que partilho com o leitor - de não saber se o cientista tomou conhecimento do fenômeno e o que pensou a respeito. Intrigado com o problema, Stead perguntou, certa vez, a Julia, o espírito que se comunicava regularmente com ele, como era possível alguém transmitir-lhe, pela psicografia, coisas que nunca lhe diria pessoalmente. O espírito respondeu-lhe que o ser encarnado não revela segredos pessoais a não ser deliberadamente, mas que o ser real é muito diferente - ele ficava, atrás dos sentidos físicos e da mente, usando um e outro como lhe apraz". Mas Stead não estava ainda satisfeito, e voltou a questionar: como ele podia obter de um amigo encarnado informações tão precisas, sem o conhecimento do comunicante? Julia informou o seguinte: - O ser real nem sempre se preocupa em dar conhecimento ao seu próprio cérebro que transmitiu certa informação pela mão de alguém. Ainda segundo o dr. Fodor, uma senhora, que ele menciona apenas pela inicial S., recebia, regularmente, mensagens psicográficas de Frederick Bligh Bond, o famoso pesquisador de Glastonbury, perfeitamente lúcido e ainda encarnado. Nos seus comentários sobre o assunto, Bligh Bond declara que a temática das comunicações girava em torno das suas pesquisas arqueológicas. A partir de 1922, após um encontro pessoal com a sensitiva, intensificou-se o fenômeno, como se acabasse de ser reforçado o vínculo que havia entre eles. As comunicações passaram, daí em diante, a conter respostas a certas dúvidas que Bond tinha em mente, ainda que não conscientemente formuladas. Ao que parece, portanto, seu espírito desdobrado servia-se da sensitiva para esclarecer aspectos que, como ser encarnado, constituíam verdadeiros enigmas para ele. Se dispusesse da sensibilidade adequada, ele próprio teria conseguido produzir os textos com as informações, por psicografia anímica. Conta ainda Bond que, certa vez, a senhora S. lhe enviou uma carta que ele, Bond, escrevera a si mesmo, devidamente assinada com o seu nome, ainda que a letra não fosse a sua. Não há como ignorar a dificuldade que existe em atestar positivamente se um texto recebido por psicografia é de origem mediúnica ou anímica. Isso não quer dizer, porém, que não seja possível fazê-lo. A mesma dificuldade prevalece quando se deseja identificar, com precisão, o espírito comunicante, tanto na psicografia anímica, quanto na mediúnica, ou, ainda, na psicofonia. A doutrina espírita não ignora ou minimiza tais dificuldades, mas alerta para o fato de que o fenômeno anímico não exclui nem renega o fenômeno espírita ou mediúnico. Ao contrário, confirma o dado que se o espírito encarnado pode manifestar-se pela psicografia, pela psicofonia, ou por qualquer outra faculdade ao seu alcance, inclusive materializando-se parcialmente, por que não pode fazê-lo o espírito desencarnado que dispõe de maior quota de liberdade, de conhecimento e de apoio para o que pretende realizar nesse campo? Além disso, existe abundante documentação testemunhal com suficiente credibilidade para demonstrar a autenticidade do fenômeno. Nosso objetivo aqui, como ficou dito alhures, não é o de provar a realidade espiritual, mais do que suficientemente demonstrada, e sim, o de desdobrar o conhecimento decorrente para que o agnosticismo de alguns não retarde a marcha dos que desejam seguir em frente. Lembremos apenas um caso, dentre muitos, o da mensagem autógrafa de Chaumontet, o falecido prefeito de Chessenaz, na Suíça, constante do livro Des lndes à la Planèt Mars, do prof. Flournoy e que deixou sem explicações o autor do livro, adversário declarado e enfático da doutrina dos espíritos. Acresce que, muitas vezes, como lembram Delanne e o próprio dr. Fodor, textos produzidos por psicografia estão bem acima do nível mental e cultural dos sensitivos, o que, na opinião de ambos, denuncia uma fonte estranha e superior. Mais uma vez, como ficou dito alhures neste livro, não devemos ignorar que o espírito do sensitivo (encarnado), pode dispor de conhecimentos e sabedoria de nível muito mais elevado do que transparece em seu estado habitual de vigília, mas claro é que esse é mais um componente a levar-se em conta no julgamento da autenticidade mediúnica da comunicação.
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