Livros Espíritas
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numa discussão. Não se esqueça, por outro lado, de que não pode deixar o Espírito falando sozinho, a não ser em condições muito especiais, que a intuição do doutrinador deverá indicar, O Espírito precisa ser atendido com interesse, muito mais que com simples urbanidade. Não apenas se encontra na condição de visita, por assim dizer, pois veio até a nossa casa, como ele ficará ainda mais irritado, e difícil, se o recebemos com fria e polida cortesia, ou, pior ainda, quando nos deixamos envolver pela sua agressividade e respondemos com idêntica hostilidade, que o aliena cada vez mais. Estejamos certos de encontrar sempre, da parte deles, o desejo de nos arrastar à discussão azeda e violenta. É o clima que convém aos seus propósitos. Na sua dolorosa e compreensível inconsciência, usarão de todos os recursos ao seu alcance para atingir esse fim. Quantas vezes tenho ouvido agressões iniciais, e reiteradas, como estas: — Fale como homem! Não suporto essa voz melíflua! Será que você não tem sangue nas veias? Não seja covarde! Está com medo? Calma, paciência, tolerância. Não altere a voz, não se deixe irritar, não reaja da maneira que ele espera, pois assim não conseguirá ajudá-lo. Resista, mas resista mesmo, ao impulso de “responder-lhe à altura”, mesmo que tenha o argumento que parece decisivo. Se o tem mesmo, tanto melhor. Use-o com a mesma voz tranquila e serena. É muito difícil um diálogo áspero entre duas pessoas, quando somente uma grita, O gritador acaba por perceber que está fazendo papel ridículo e usando violência desnecessária, que cai num vazio, que o aturde e o traz à razão. De vez em quando, se ele insistir em falar em altos brados, faça-o compreender, em voz baixa e tranquila, que não é preciso gritar. Que a gente somente grita quando não tem razão. Ele acabará por convencer-se da justeza dessa observação. Se o doutrinador cai na tolice de gritar-lhe de volta, o clima torna-se insustentável e a situação difícil de ser contornada. Procure dirigir a conversação para o terreno pessoal, certo de que o Espírito está negaceando, precisamente para evitar cair nesse campo, que sabe ser o mais “perigoso”, por ser o único revelador do núcleo interior de sua problemática. Mas, não o force. Espere o momento oportuno. Aguarde pacientemente. Siga-o na conversa, sem aumentar sua irritação, sem atritar-se com ele. Não é importante superá-lo na troca de ideias. Você não está ali para provar que é mais inteligente do que ele, nem mais culto, ou eticamente melhor do que ele: você está ali para ajudá-lo, compreendê-lo e servi-lo. Não há razão alguma para pensar que você é um Espírito redimido, e ele um réprobro enredado nos seus crimes. As leis morais, o Evangelho do Cristo e a prática espírita nos repetem, de mil formas, a mesma lição: a de que são os próprios pecadores que se ajudam mutuamente: o coxo servindo ao cego, o cego ao mudo e, sobre todos nós, a infinita misericórdia de Deus, a sabedoria ilimitada do Cristo e a assistência incansável de nossos irmãos mais experimentados, que se alongaram mais profundamente no caminho da luz. * É certo, ainda, que, durante esse diálogo difícil — em que, tantas vezes, o doutrinador tem de aceitar o papel de um pobre, infeliz débil mental, covarde, hipócrita, medroso —, haverá mistificações, propostas, bravatas, ameaças, ironias, tentativas de intimidação. Mantenhamos o equilíbrio, atentos, porém, ao fato de que humildade não quer dizer submissão e aceitação sem exame de tudo quanto nos diz o Espírito manifestante, pois ele se encontra diante de nós exatamente para que tentemos convencê-lo de seus enganos, fantasias e deformações filosóficas, teológicas e psicológicas. É a sensibilidade do doutrinador que vai indicar em que ponto e em que momento interferir. Enquanto esse momento não chega — e geralmente ele não ocorre, mesmo, na fase inicial do diálogo — esperemos com paciência, atentos às informações que o Espírito nos fornece, dado que é com elas que vamos montando o quadro que nos mostrará o perfil psicológico do comunicante. Atenção com os pormenores que pareçam irrelevantes: uma referência passageira, o tom de voz, uma lembrança fugaz, uma observação aparentemente sem importância. Tudo serve para compor o quadro. Lembremo-nos de que o perfil que procuramos é importante, é essencial ao entendimento da personalidade daquele irmão. Embora dificilmente admita, ele precisa da nossa ajuda. Se o mencionarmos, porém, ele replicará com toda a veemência, que de forma alguma precisa de nós. Está muito bem como está. Não poucos serão os que, ao contrário, nos farão propostas e nos dirão as mais estranhas bravatas. Falam-nos do enorme poder de que dispõem — e muitas vezes isso é estritamente verdadeiro — e das “providências enérgicas” que tomarão contra nós. Um deles me anunciou que iria “botar fogo” no grupo. E me perguntou: — Como é que você quer morrer? Você fecha o grupo espontaneamente, ou nós teremos que fazê-lo? Outro me Informou que tinha “ordens do chefe” para remover-me do seu caminho, se possível, sem me ferir, mas se isso fosse impraticável, então, era para arrebentar tudo a dinamite, porque a pedra tinha que ser afastada, para que eles passassem. Um terceiro, cujo aspecto truculento e olhar terrível o médium descreveu antes que se incorporasse, também pronunciou sua ameaça, apoiada numa bravata: estava disposto a afastar-me de qualquer maneira, se possível por bem, pois não desejava causar-me dano pessoal, a não ser que a isto fosse obrigado. Confessa, mesmo, que tem por mim certa afeição e — coisa estranha, meu Deus! —sinto por ele, também, uma inexplicável ternura que, não sei de onde nem de quando, vem das telas infinitas desse continuo espaço-tempo em que vivemos. Fala-me da sua glória, na qual insiste. Sonha grande, mas não hesita diante da violência, para realizar os seus sonhos de domínio. Já no passado cometeu, várias vezes, esse engano, embora projetando-se, na História, como um temível conquistador. A essa altura, já estamos conversando, como dois velhos amigos que se reencontraram, e não como um agressivo guerreiro, surgido dos registros históricos, com um mero doutrinador espírita, do século XX. Ao falar das suas grandezas, me diz, de maneira dúbia: — Você preferiu outros caminhos... — Sim, é verdade — digo-lhe eu —, preferi a obscuridade. É isso, precisamente, que ele não entende. Como pode alguém desejar viver na obscuridade, se pode, pelo menos, tentar a glória? Nem sempre, porém, essas bravatas e ameaças terminam assim, amistosamente, num reencontro de dois seres que seguiram rotas diferentes, mas continuam a estimar-se e respeitar-se. Usualmente, o rancor está firme atrás delas, e pelo menos algumas das ameaças concretizam-se mesmo, sob variadas formas: pequenos incidentes na vida diária, mal-entendidos entre familiares, doenças inesperadas, aflições maiores. O problema das ameaças merece alguma digressão mais ampla, porque ele tem implicações muito sérias no trabalho de doutrinação. Em primeiro lugar, como nos disse um Espírito amigo, certa vez, não podemos colher rosas, sem jamais nos ferirmos nos espinhos. Quanta verdade nesta imagem! Por mais estranho que nos pareça, a uma observação superficial, os Espíritos mais terrivelmente perturbados e desarmonizados guardam em si incrível potencial para as realizações futuras — aptidões, experiências e qualificações inesperadas, preciosas, e, por mais fantástico que nos pareça, uma enorme capacidade de amar. Um deles, muito difícil, agressivo, poderoso, quase inabordável, não pôde conter sua gratidão, depois de desperto: beijou, com emoção e respeito, a mão de seu aturdido doutrinador, o mesmo que, ainda há poucas semanas, ele daria tudo para destruir. No trabalho mediúnico de desobsessão, temos, pois, que contar com contratempos, ferimentos e angústias, especialmente se deixarmos cair as nossas guardas. Isto é válido para todo o grupo, e não apenas para o médium, ou para o doutrinador. O cerco aperta-se, ainda que estejamos guardados na prece e na vigilância. — “Vigiai e orai” — disse o Cristo, segundo Marcos — “para não cairdes em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Marcos, 14:38) O Espírito deseja a libertação, teme novas quedas, sonha com a paz, sofre a ausência de afetos muito profundos e, de certa forma, está pronto para a vida em plano melhor e mais purificado, ou, pelo menos, não tão difícil e grosseiro como este mundo de provas em que vivemos; mas, no fundo, mergulhado no corpo físico, que o sufoca, sua vontade debilita-se e a fraqueza da carne vence as melhores intenções. Os seres desencarnados inferiores que nos vigiam, nos espionam e nos assediam, sabem disso, tão bem ou melhor do que nós, e, enquanto puderem, hão de reter-nos na retaguarda, pelo menos, como disse um amigo espiritual muito querido, para engrossar as fileiras dos que estão parados. Mesmo com toda a vigilância, e em prece, continuamos vulneráveis. E “eles” sabem disso: quando o esquecemos, eles nos lembram: — Você pensa que é invulnerável? Quem poderá responder que é? E as nossas mazelas, os erros ainda não resgatados, as culpas ainda não cobradas, as infâmias ainda não desfeitas? Contudo, temos que prosseguir o trabalho de resgate, a despeito dos espinhos das rosas, das ameaças e, logicamente, de um ou outro desengano maior. É preciso estarmos, no entanto, bem certos de que, em nenhuma hipótese, sofreremos senão naquilo em que ofendemos a Lei, e jamais em decorrência do trabalho de desobsessão, em si mesmo. Seria profundamente injusta a Lei, se assim não fosse. Então, vamos ser punidos porque estamos procurando, exatamente, praticar a Lei universal do amor fraterno e da solidariedade que nos recomenda o Cristo?
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