Livros Espíritas
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Em sua obra capital, Dos Princípios, livro I, Orígenes passa em revista os numerosos argumentos que mostram, na preexistência e sobrevivência das almas em outros corpos, o corretivo necessário à desigualdade das condições humanas. De si mesmo inquire qual é a totalidade dos ciclos percorridos por sua alma em suas peregrinações através do infinito, quais os progressos feitos em cada uma de suas estações, as circunstâncias da imensa viagem e a natureza particular de suas residências. São Gregório de Nysse diz que “há necessidade natural para a alma imortal de ser curada e purificada e que, se ela não o foi em sua vida terrestre, a cura se opera pelas vidas futuras e subseqüentes”. Todavia, essa alta doutrina não podia conciliar-se com certos dogmas e artigos de fé, armas poderosas para a Igreja, tais como a predestinação, as penas eternas e o juízo final. Com ela, o Catolicismo teria dado lugar mais largo à liberdade do espírito humano, chamado em suas vidas sucessivas a elevar-se por seus próprios esforços e não somente por “graça do Alto”. Por isso, foi um ato fecundo em conseqüência funesta a condenação das opiniões de Orígenes e das teorias gnósticas pelo Concílio de Constantinopla em 553. Ela trouxe consigo o descrédito e a repulsa do princípio das reencarnações. Então, em vez de uma concepção simples e clara do destino, compreensível para as mais humildes inteligências, conciliando a justiça divina com a desigualdade das condições e do sofrimento humanos, vimos edificar-se todo um conjunto de dogmas, que lançaram a obscuridade no problema da vida, revoltaram a razão e, finalmente, afastaram o homem de Deus. A doutrina das vidas sucessivas reaparece novamente em épocas diferentes no mundo cristão, sob a forma das grandes heresias e das escolas secretas, mas foi muitas vezes afogada no sangue ou abafada debaixo das cinzas das fogueiras. Na Idade Média eclipsa-se quase de todo e deixa de influenciar o desenvolvimento do pensamento ocidental, causando-lhe dano por essa forma. Daí os erros e a confusão daquela época sombria, o mesquinho fanatismo, a perseguição cruel, o ergástulo do espírito humano. Uma espécie de noite intelectual estendeu-se sobre a Europa. No entanto, de tempos em tempos, como um relâmpago, o grande pensamento ilumina ainda, por inspiração do Alto, algumas belas almas intuitivas; continua a ser para os pensadores de escol a única explicação possível do que, para a massa, se tornara o profundo mistério da vida. Não somente os trovadores, nos seus poemas e cantos, lhe faziam discretas alusões, mas até espíritos poderosos, como Boaventura e Dante Alighieri, a mencionam de maneira formal. Ozanam, escritor católico, reconhece que o plano da Divina Comédia segue muito de perto as grandes linhas da iniciação antiga, baseada, como vimos, sobre a pluralidade das existências. O Cardeal Nicolau de Cusa sustenta, em pleno Vaticano, a pluralidade das vidas e dos mundos habitados, com o assentimento do Papa Eugênio IV. Thomas Moore, Paracelso, Jacob Boehme, Giordano Bruno e Campanella afirmaram ou ensinaram a grande síntese, muitas vezes com o próprio sacrifício. Van Helmont, em De Revolutione Animarum, expõe, em duzentos problemas, todos os argumentos em prol da reencarnação das almas. Não são essas altas inteligências comparáveis aos cumes dos montes, aos cimos gelados dos Alpes, que são os primeiros a receber os alvores do dia, a refletir os raios do Sol, e que ainda são iluminados por ele quando já o resto da Terra está imerso nas trevas? O próprio Islamismo, principalmente no novo Alcorão, dá lugar importante às idéias palingenésicas.(183) Finalmente, a Filosofia, nos últimos séculos, enriqueceu-se com elas. Cudworth e Hume consideram-nas como a teoria mais racional da imortalidade. Em Lessing, Herder, Hegel, Schelling, Fichte, o moço, elas são discutidas com elevação. Mazzini, apostrofando os bispos, na sua obra Dal Concilio a Dio, diz: “Cremos numa série indefinida de reencarnações da alma, de vida em vida, de mundo em mundo, cada uma das quais constitui um progresso em relação à vida precedente. Podemos recomeçar o estádio percorrido quando não merecemos passar a um grau superior; mas, não podemos retrogradar nem perecer espiritualmente.” Reportemo-nos agora às origens dos franceses e veremos a idéia das vidas sucessivas pairar sobre a terra das Gálias. Essa idéia vibra nos cantos dos bardos, sussurra na grande voz das florestas: “Debati-me em cem mundos; em cem círculos vivi.” (Canto bárdico; Barddas cad Goddeu.) É a tradição nacional por excelência; inspirava aos pais dos franceses o desprezo da morte, o heroísmo nos combates; deve ser amada por todos aqueles que se sentem vinculados pelo coração ou pelo sangue à raça céltica, móbil, entusiasta, generosa, apaixonada pela justiça, pronta sempre a lutar em prol das grandes causas. Nos combates contra os romanos – diz d'Arbois de Jubainville, professor do Colégio de França – os druidas ficavam imóveis como estátuas, recebendo feridas sem fugir e sem se defenderem. Sabiam que eram imortais e contavam achar em outra parte do mundo um corpo novo e sempre jovem.(184) Os druidas não eram somente homens valentes, eram também sábios profundos.(185) Seu culto era o da Natureza, celebrado sob a abóbada sombria dos carvalhos ou sobre as penedias batidas pelas tempestades. As Tríades proclamam a evolução das almas partidas de anoufn, o abismo, subindo vagarosamente a longa espiral das existências (abred) para chegarem, depois de muitas mortes e renascimentos, a gwynfyd, o círculo da felicidade. As Tríades são o mais maravilhoso monumento que nos resta da antiga sabedoria dos bardos e dos druidas; abrem perspectivas sem limites à vista admirada do investigador. Citaremos três, as que se referem mais diretamente ao nosso assunto, as Tríades, 19, 21 e 36:(186) “19. Três condições indispensáveis para chegar à plenitude (ciência e virtude): transmigrar em abred, transmigrar em gwynfyd e recordar-se de todas as coisas passadas até anoufn.” “21. Três meios eficazes de Deus em abred (círculo dos mundos planetários) para dominar o mal e vencer a sua oposição em relação ao círculo de gwynfyd (círculo dos mundos felizes): a necessidade, a perda da memória e a morte.” “36. Os três poderes (fundamentos) da ciência e da sabedoria: a transmigração completa por todos os estados dos seres; a lembrança de cada transmigração e dos seus incidentes; o poder de passar de novo, à vontade, por um estado qualquer em vista da experiência e do julgamento. Será isso obtido no círculo de gwynfyd.” Certos autores entenderam, conforme a interpretação que deram aos textos bárdicos, que as vidas ulteriores da alma continuavam exclusivamente nos outros mundos. Apresentamos dois casos que demonstram que os gauleses admitiam também a reencarnação na Terra. Extraímo-los do “Cours de Littérature Celtique” do Sr. d'Arbois de Jubainville:(187) Find Mac Cumail, o célebre herói irlandês, renasce em Morgan, filho de Fiachna, rainha de Ulster, em 603, e sucede-lhe mais tarde. Os Annales de Tigernach fixam a morte de Find no ano 273 da nossa era, na batalha de Atbrea. “Um segundo nascimento, diz d'Arbois de Jubainville, dá-lhe nova vida e um trono na Irlanda.” Os celtas praticavam também a evocação dos mortos. Levantara-se uma controvérsia entre Mongan e Forgoll a respeito da morte do rei Folhad, da qual Mongan fora testemunha ocular, e do lugar onde esse rei perdera a vida. “Ele evocou, diz o mesmo autor, do reino dos mortos, Cailté, seu companheiro nos combates. No momento em que o terceiro dia ia expirar, o testemunho de Cailté fornece a prova de que Mongan falara a verdade.” O outro fato de reencarnação remonta a época muito mais antiga. Algum tempo antes da nossa era, Aeochaid Airem, rei absoluto da Irlanda, desposara Etâin, filha de Etar. Etâin, já alguns séculos antes, havia nascido em país céltico. Nessa vida anterior foi filha de Aillil e esposa de Mider, deificado depois de morto por causa de suas façanhas. É provável que na história dos tempos célticos se encontrassem numerosos casos de reencarnação; mas, como se sabe, os druidas nada confiavam à escrita e contentavam-se com o ensino oral. Os documentos referentes à sua ciência e filosofia são raros e de data relativamente recente. A doutrina céltica, decorridos séculos de esquecimento, reapareceu na França moderna e foi reconstituída ou sustentada por toda uma plêiade de escritores conspícuos: C. Bonnet, Dupont de Nemours, Ballanche, Jean Reynaud, Henri Martin, Pierre Leroux, Fourier, Esquiros, Michelet, Victor Hugo, Flammarion, Pezzani, Fauvety, Strada, etc. “Nascer, morrer, renascer e progredir sempre, tal é a lei”, disse Allan Kardec. Graças a ele, graças à escola espírita de que ele é o fundador, a crença nas vidas sucessivas da alma vulgarizou-se, espalhou-se por todo o Ocidente, onde conta hoje milhões de partidários. O testemunho dos Espíritos veio dar-lhe sanção definitiva. À exceção de algumas almas em grau atrasado de evolução, para quem o passado está ainda envolto em trevas, todos, nas mensagens recolhidas em França, afirmam a pluralidade das existências e o progresso indefinido dos seres. A vida terrestre – dizem eles –, em essência, não é mais do que um exercício, uma preparação para a vida eterna. Limitada a uma única existência, não poderia, em sua efêmera duração, corresponder a tão vasto plano. As reencarnações são os degraus da subida que todas as almas percorrem em sua ascensão; é a escada misteriosa que, das regiões obscuras, por todos os mundos da forma, nos leva ao reino da luz. Nossas existências desenrolam-se através dos séculos; passam, sucedem-se e renovam-se. Em cada uma delas largamos um pouco do mal que há em nós. Lentamente, avançamos, penetramos mais na via sagrada, até que tenhamos adquirido os méritos que nos hão de dar entrada nos círculos superiores donde eternamente irradiam a beleza, a sabedoria, a verdade, o amor!
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(183) Ver Surate, II, v. 26 do Alcorão; Surate, VII, v. 55; Surate, XVII, v. 52; Surate, XIV, v. 25.
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Nota 2:
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(184) Ver Tácito, Ab excessu Augusti, livro XIV, c. 30.
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Nota 3:
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(185) É o que afirmava César nos seus Commentaires de la guerre des Gaules, liv. VI, cap. XIX, edição Lemerre, 1919. Ver também: Alex. Poly. Histor., fragmento 138, na coleção dos fragmentos dos historiadores gregos, edit. Didot, 1849; Strabão, Geogr., liv. IV, cap. IV, Diodoro di Sicilia. Bibl. hist., liv. V, cap. XXVIII; Clemente de Alexandria, Stromates, IV, cap. XXV.
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Nota 4:
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(186) As Tríades, publicadas por Ed. Williams, conforme o original gaulês e a tradução de Edward Darydd. Ver Gatien Arnoult, Philosophie Gauloise, t. I.
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Nota 5:
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(187) T. L, págs. 266, 267. Ver também: H. d'Arbois de Jubainville, Les Druides et les Dieux Celtiques, págs. 137 a 140; Livre de Leinster, pág. 41; Annales de Tigernach, publicação de Whitley Stokes; Revue Celtique, t. XVII, pág. 21; Annales des Quatre Maltres, edição O. Donovan, t. I, 118, 119.
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