Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
Quando as dificuldades pareciam insuperáveis deste lado, ela emigrava para o outro, em busca da felicidade que lá estava à sua espera. Para isso bastava imobilizar-se, em estado de relaxamento, num móvel que lhe oferecesse um mínimo de comodidade, e soltar a imaginação. E assim passavam-se as horas, num estado de inação e desligamento. Um experimentado psiquiatra talvez diagnosticasse aquilo como crise de catatonia. A vida seguia seu curso em toda a sua intensidade no universo interior. Agora, não eram apenas as visões de ambientes estáticos fixados em fotografias mentais, como na infância. Havia movimento, cor, som, diálogos com outros seres. As cenas se projetavam, nítidas e reais, como numa tela de cinema a exibir um filme emocionante, no qual a mocinha é ao mesmo tempo personagem e espectadora. Tão reais que ela perdia a noção de tempo e espaço e envolvia-se em conversas com aquelas personagens que ali estavam, à sua volta, como qualquer ser vivo. Cada vez mais ela se entregava àquela realidade e rejeitava a outra. Ali, era intensamente feliz, tinha seu marido, filhos, uma família com a qual convivia. As tarefas do dia eram desempenhadas como que em estado sonambúlico, mas com impaciência, na ansiosa expectativa das horas de recolhimento, quando pudesse ir para casa e entregar-se aos seus sonhos. Se ela dispusesse de tempo livre e dinheiro farto, provavelmente teria começado a via dolorosa dos consultórios, em busca de psiquiatras, analistas e psicólogos das mais variadas tendências e doutrinas. Teria ficado coberta de rótulos mais ou menos cabalísticos e estaria saturada de drogas, provavelmente internada em alguma clínica elegante. Ficaria eu profundamente desapontado se o que se vai ler a seguir fosse tomado como crítica injusta ou ataque às nobres profissões que se interessam pelo sofrimento alheio. Desejo limitar-me a observações em torno de uma realidade incontestável. Sem apontar o dedo acusador para nenhum médico, psiquiatra, analista, ou psicólogo, que conceitos e que teorizações têm suas respectivas ciências, na abordagem de um caso como o de Regina? Os mesmos de sempre. Primeiro rótulo: sofria de alucinações visuais e auditivas. Quanto ao processo de fuga da realidade, de que maneira poderia ser catalogado? Esquizofrenia? Catatonia? Psicose maníaco-depressiva? Autismo? Simples neurastenia? Ou mera hipocondria? E as neuroses? Quantas delas? E complexos? Quais? Pelo menos um aspecto qualquer analista poderia identificar com facilidade: sua óbvia preferência pelo pai com a respectiva indiferença ou rejeição pela mãe caracterizariam o complexo freudiano de Eletra. Certamente que haveria outros: o de inferioridade (a não aceitação da cor da pele e do aspecto dos cabelos); de superioridade (a rejeição de namorados de cor) e outros. Mediunidade nascente? Animismo? Nem pensar ... Em verdade, ela acabou mesmo encaminhada a um analista. Saberia mais tarde que ele era espírita e até médium. E competente, aliás. Não obstante, via sua cliente como um caso clínico mais do que como um Ser humano confuso que busca saídas para seus conflitos interiores e seus choques com a realidade objetiva. Embora de formação espírita, ou tendo pelo menos uma boa noção dos aspectos doutrinários do espiritismo, tratou a jovem com os rígidos e clássicos recursos de sua formação profissional, ou seja, sem utilizar-se dos conhecimentos de que dispunha acerca do dualismo corpo/espírito do ser humano encarnado. Era, portanto, um analista que também era espírita, mas não um analista espírita. Provavelmente entendia o espiritismo como mera teoria do conhecimento, um elemento a mais no quadro geral da sua cultura, mas que nada tinha a ver com o exercício de sua profissão. É possível que atuasse como espírita - e até médium - nas demais situações da existência, não porém como analista. Não há como criticá-lo ou censurá-lo, pois nem sabemos das razões que o levaram a essa postura. Merece todo o respeito pelas opções e procedimento. Somente agora, enquanto escrevemos este relato, alguns psicólogos, analistas e psiquiatras de vanguarda começam a utilizar-se de metodologia terapêutica mais adequada, enriquecida pela valiosa contribuição de importantes postulados espíritas como sobrevivência e reencarnação. A expressão postulados espíritas ficou aí colocada por mera conveniência expositiva, pois na realidade o espiritismo jamais se considerou 'proprietário' ou mesmo criador desses conceitos. A doutrina os adotou como princípios básicos, necessários ao entendimento de aspectos ainda mal compreendidos da vida e que eles iluminam e explicam com clareza. O ponto a considerar aqui é o seguinte: o postulado A ou B é verdadeiro ou não? Podemos, com este ou aquele, explicar racionalmente aspectos ainda obscuros da psicologia humana? Se são verdadeiros, não pertencem a ninguém e, sim, a todos. Isso quer dizer que conceitos como reencarnação e sobrevivência do espírito um dia estarão sendo lidos tanto nos Evangelhos, onde aliás se encontram há quase dois milênios - e já se encontravam em outros documentos de conotação religiosa anterior, como em tratados de medicina, psicologia, biologia, sociologia, antropologia, de ciência enfim, além de compor também a estrutura básica dos estudos filosóficos. pelo menos na filosofia ninguém estará inovando, porque era exatamente assim que pensava Sócrates, há mais de vinte e quatro séculos. E não me consta que ele fosse um débil mental. Precisamos, contudo, ver como foi a experiência de Regina com seu analista. 3. PSICANÁLISE Sem entender o que se passava com ela própria e até mesmo temerosa de que tudo degenerasse numa crise geral de alienação, ela resolveu buscar ajuda de quem estaria profissionalmente preparado para estudar sua problemática, explicá-la e proporcionar- lhe orientação confiável. É que, a essa altura, as fugas estavam se tornando cada vez mais freqüentes e mais longas e, por contraste e consequência, o mundo material cada vez mais áspero, difícil e insuportável. Ela precisava trabalhar e tinha elevadas aspirações a realizar, como a de estudar até o limite extremo de suas possibilidades para conseguir um tipo de vida pelo menos tolerável; um acordo entre suas aspirações e aquilo que a vida lhe poderia dar. Não tardou muito o desencanto com a metodologia terapêutica do analista. Em vez de uma discussão objetiva e racional de seus problemas, ele usava o jargão típico de sua formação e uma terminologia que servia apenas para rotular os fenômenos e não para explicá-los e corrigir os desvios da emoção que Regina apresentava. Falava-lhe em alucinações visuais e auditivas e em processos de fuga, com tendências autistas; abordava o problema das neuroses da maneira habitual e, pior que isso, prescrevia-lhe drogas para relaxar, dormir, combater a inexplicável rejeição pelo alimento e coisas dessa natureza. Em paralelo com os antidistônicos, prosseguia a busca dos 'traumas' de infância. A questão, contudo, é que os tais traumas, que certamente existiam, não estavam guardadinhos à espera da análise, no âmbito de uma vida que mal excedia duas décadas. Eles vinham de longe, muito longe, no tempo e no espaço. Regina foi dotada, desde a mais tenra idade, daquilo que Joan Grant, escritora inglesa, chama de far memory (memória remota). Ao contrário da maioria que esquece - a memória é uma 'coisa' com a qual a gente esquece -, suas lembranças do passado varavam as camadas do tempo, escapavam pelas frinchas dos cofres secretos de sua intimidade e se apresentavam dramatizadas, vivas, dotadas de movimento, cor, som e emoção à sua aturdida vidência. Não caberia aqui uma contestação formal à doutrina freudiana de um passado traumático, nem a de que existe nítida possibilidade de ajustar as emoções em tumulto ou, pelo menos, aliviar os conflitos íntimos quando os traumas são identificados, debatidos e racionalizados. Não que isto seja uma panacéia capaz de solucionar qualquer distúrbio da mente, é claro, mas porque é realmente no passado que se encontram os conflitos que hoje emergem como neuroses e psicoses de variada conotação e terminologia. Não há o que discordar do eminente professor vienense na formulação desses conceitos válidos. Pelo contrário, o que se propõe é que sejam ampliados no tempo a fim de que possam alcançar não apenas os possíveis traumas infantis de uma existência, mas também os mais remotos, de antigas vivências alhures. Interferindo nesse jogo de emoções em tumulto, havia, ainda, o complicador adicional da mediunidade que nem o analista nem ela estavam levando em conta. Ela, porque não sabia; ele, porque não queria. Grande parte daquela fenomenologia era certamente de origem anímica, ou seja, gerada pelo psiquismo da própria Regina como resultante da manipulação (voluntária ou involuntária) de seu inconsciente, onde se agitavam memórias de muitas vidas que lutavam por emergir e expressar-se. Sem dúvida, porém, participava daquilo tudo um componente mediúnico, pois mediunidade e animismo são fenômenos conjugados e complementares. Isso porque os espíritos desencarnados produzem fenômenos, utilizando-se de recursos anímicos do médium. Ou, para dizer as coisas de outra maneira: o fenômeno resulta de uma ação conjugada entre dois espíritos - um encarnado e outro desencarnado.
Mais opções
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×