Livros Espíritas
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— inquiriu Barnabé revelando espírito de solidariedade. - Os outros, certo, hão de protestar. Principal mente agora, que o judaísmo vai absorvendo os esforços apostólicos, é justo prever muitos clamores. Contudo, a própria Natureza dá lições neste sentido. Não clama mos tanto contra a dor? E quem nos traz maiores bene fícios? Às vezes, nossa redenção está naquilo mesmo que ant es nos parecia verdadeira calamidade. É indispensável sacudir o marasmo da instituição de Jerusalém, cha mando os incircuncisos, os pecadores, os que estejam fora da Lei. De outro modo, dentro de alguns poucos anos, Jesus será apresentado como aventureiro vulgar. Naturalmente, depois da morte de Simão, os adversários dos princípios ensinados pelo Mestre acharão grande facilidade em deturpar as anotações de Levi. A Boa Nova será aviltada e, se alguém perguntar pelo Cristo, daqui a cinqüenta anos, terá como resposta que o Mestre foi um criminoso comum, a expiar na cruz os desvios da vida. Restringir o Evangelho a Jerusalém será condená-lo à extinção, no foco de tantos dissídios religiosos, sob a política mesquinha dos homens. Necessitamos levar a notícia de Jesus a outras gentes, ligar as zonas de entendimento cristão, abrir estradas novas... Será mesmo justo que também façamos anotações do que sabemos de Jesus e de sua divina exemplificação. Outros discípu los, por exemplo, poderiam escrever o que vi ram e ouviram, pois, com a prática, vou reconhecendo que Levi não anotou mais amplamente o que se sabe do Mestre. Há situações e fatos que não foram por ele registrados. Não conviria também que Pedro e João anotassem suas obser vações mais íntimas? Não he sito em afirmar que os pósteros hão de rebuscar muitas vezes a tarefa que nos foi confiada. Barnabé rejubilava-se com perspectivas tão seduto ras. As advertências de Saulo eram mais que justas. Haveria que prestar informações amplas ao mundo. — Tens razão — disse admirado —, precisamos pensar nesses serviços, mas como? — Ora — esclareceu Saulo tentando aplainar as dificuldades —, se quiseres chefiar qualquer esforço neste sentido, podes contar com a minha cooperação incondicional. Nosso plano seria desenv olvido na organização de missões abnegadas, sem outro fito que servir, de forma absoluta, à difusão da Boa Nova do Cristo. Come çaríamos, por exemplo, em regiões não de todo desconhecidas, formaríamos o hábito de ensinar as verdades evangélicas aos mais vários agrupamentos; em seguida, terminada essa experiência, demandaríamos outras zonas, levaríamos a lição do Mestre a outras gentes. O companheiro ouvia-o, afagando sinceras esperan ças. Tomado de novo ânimo, disse ao convertido de Da masco, esboçando o pr imeiro número do programa: — De há muito, Saulo, tenho necessidade de voltar à minha terra, a fim de resolver certos problemas de família. Quem sabe poderíamos iniciar o serviço apostólico através das aldeias e cidades de Chipre? Conforme o resultado, prosseguiríamos por outras zonas. Estou informado de que a região em que demora Antioquia da Pisídia é habitada por gente simples e generosa, e suponho que colheríamos belos resultados no empreen dimento. — Poderás contar comigo — respondeu Saulo de Tarso, re soluto. — A situação requer o concurso de ir mãos corajosos e a igreja do Cristo não poderá vencer com o comodismo. Comparo o Evangelho a um campo infinito, que o Senhor nos deu a cultivar. Alguns trabalhadores devem ficar ao pé dos mananciais, velando -lhes a pureza, outros revolvem a terra em zonas determinadas; mas não há dispensar a cooperação dos que precisam empunhar instrumentos rudes, desfazer cipoais intensos, cortar espinheiros para ensolarar os caminhos. Barnabé reconheceu a excelência do projeto , mas considerou: — Todavia, temos ainda a examinar a questão do dinheiro. Tenho alguns recursos, mas insuficientes para atender a todas as despesas. Por outro lado, não seria possível sobrecarregar as igrejas... —Absolutamente! — adiantou o ex-rabino — onde estacionarmos, poderei exercer o meu ofício. Por que não? Qualquer aldeia paupérrima tem sempre teares de aluguel. Montarei, então, uma tenda móvel! Barnabé achou graça no expediente e ponderou: — Teus sacrifícios não serão pequenos. Não receias as di ficuldades imprevisíveis? — Por quê? — interrogou Saulo com firmeza. Certo, se Deus não me permitiu a vida em família foi para que me dedicasse exclusivamente ao seu serviço. Por onde passarmos, montaremos a tenda singela - E onde não houver tapetes, a con sertar e a tecer, haverá sandálias. O discípulo de Simão Pedro entusiasmou -se. O resto da viagem foi dedicado aos projetos da futura excursão. Havia, entretanto, uma coisa a considerar. Além da necessidade de submeter o plano à aprovação da igreja de Antioquia, era indispensável pensar no jovem João Marcos. Barnabé procurou interessar o sobrinho nas conversações. Em breve, o rapaz convenceu-se de que deveria incorporar -se à missão, caso a assembléia antio quiana não a desaprovasse. Interessou -se por todas as minúcias do programa tracejado. Seguiria o trabalho de Jesus, fosse onde fosse. — E se houver muitos obstáculos? — perguntou Saulo avisadamente. — Saberei vencê-los — respondeu João, convicto. — Mas é possível venhamos a experimentar dificul dades sem conta — continuava o ex-rabino preparando-lhe o espírito - Se o Cristo, que era sem pecado, encontrou uma cruz entre apodos e flagelos, quando ensinava as verdades de Deus, que não devemos esperar em nossa condição de almas frágeis e indigentes? — Hei de encontrar as forças necessárias. Saulo contemplou-o, admirado da firme resolução que suas palavras deixaram transparecer, e observou: — Se deres um testemunho tão grande como a co ragem que revelas, não tenho dúvidas quanto à grandeza de tua missão. Entre confortadoras esperanças, o projeto terminou com formosas perspectivas de trabalho para os três. Na primeira reunião, depois de relatar as observa ções pessoais concernentes à igreja de Jerusalém, Bar nabé expôs o plano à assembléia, que o ouviu atentamente. Alguns anciães falaram da lacuna que se abriria na igreja, expuseram o desejo de que se não quebrasse o conjunto harmonioso e fraternal. No entanto, o orador voltou a explicar as necessidades novas do Evangelho. Pintou os quadros de Jerusalém com a fideli dade possível, fez a súmula de suas conversações com Saulo de Tarso e salientou a conveniência de chamar novos trabalhadores ao serviço do Mestre. Quando tratou o problema com toda a gravidade que lhe era devida, os chefes da comunidade mudaram de atitude . Estabeleceu-se o acordo geral. De fato, a situação explanada por Barnabé era muito séria. Seus parece res veementes eram mais que justos. Se perseverasse o marasmo nas igrejas, o Cristianismo estava destinado a perecer. Ali mesmo, o discípulo de Simão recebeu a aquiescência irrestrita e, no instante das preces, a voz do Espírito Santo se fez ouvir no ambiente de simplici dade pura, inculcando fossem Barnabé e Saulo desta cados para a evangelização dos gentios. Aquela recomendação superior, aquela voz que provinha dos arcanos celestes, ecoou no coração do ex -rabino como um cântico de vitória espiritual. Sentia que acabava de atravessar imenso deserto para encontrar de novo a mensagem doce e eterna do Cristo. Por conquistar a dignidade espiritual, só experimentara padecimentos, des de a cegueira dolorosa de Damasco. Ansiara por Jesus. Tivera sede abrasadora e terrível. Pedira em vão a compreensão dos amigos, debalde buscara o terno acon chego da família. Mas, agora, que a palavra mais alta o chamava ao serv iço, deixava-se empolgar por júbilos infinitos. Era o sinal de que havia sido considerado digno dos esforços confiados aos discípulos. Refletindo como as dores passadas lhe pareciam pequeninas e infantis, comparadas à alegria imensa que lhe inundava a alma , Saulo de Tarso chorou copiosamente, - experimentando maravilhosas sensações. Nenhum dos irmãos presentes, nem mesmo Barnabé, poderia avaliar a grandiosidade dos sentimentos que aquelas lágrimas revelavam. To mado de profunda emoção, o ex -doutor da Lei reconhecia que Jesus se dignava de aceitar suas oblatas de boa -vontade, suas lutas e sacrifícios. O Mestre chamava-o e, para responder ao apelo, iria aos confins do mundo. Numerosos companheiros colaboraram nas providên cias iniciais, em favor do empreendimento. Dentro em pouco, cheios de confiança em Deus, Saulo e Barnabé, seguidos por João Marcos, despediam -se dos irmãos, a caminho de Selêucia. A viagem para o litoral decorreu em ambiente de muita alegria. De quan do a quando, repousavam à margem do Oronte, para a merenda salutar. À sombra dos carvalhos, na paz dos bosques enfeitados de flores, os missionários comentaram as primeiras esperanças. Em Selêucia não foi demorada a espera de embar cação. A cidade estava sempre cheia de peregrinos que demandavam o Ocidente, sendo freqüentada por elevado número de navios de toda ordem. Entusiasmados com o acolhimento dos irmãos de fé, Barnabé e Saulo em barcaram para Chipre, sob a impressão de comovente e carinhosa despedida. Chegaram à ilha, com o jovem João Marcos , sem incidentes dignos de menção. Estacionados em Cítium por muitos dias, aí solucionou Barnabé vários assuntos de seu interesse familiar. Antes de se retirarem, visitaram a sinagoga, num sábado, com o propósito de iniciar o movimento. Como chefe da missã o, Barnabé tomou a palavra, procurou conjugar o texto da Lei, examinado naquele dia, às lições do Evangelho, para destacar a superioridade da missão do Cristo. Saulo notou que o companheiro explanava o assunto com respeito algo excessivo às tra dições judaicas. Via-se claramente que desejava, antes de tudo, conquistar as simpatias do auditório; em alguns pontos, demonstrava o temor de encetar o trabalho, abrindo as lutas tão em desacordo com o seu tempera mento. Os israelitas mostraram-se surpreendidos, mas satisfeitos. Observando o quadro, Saulo não se sentiu plenamente confortado.
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