Livros Espíritas
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Aos que se julgam sábios: “Dizeis que sois meus discípulos? Pois bem! acrescentai que permaneceis sempre em casa, jamais ides às termas, não matais os animais, não comeis carne, estais livres das paixões, da inveja, da malignidade, do ódio, da calúnia, do ressentimento, que, enfim, pertenceis ao número dos homens livres. Não façais como os que, em discursos mentirosos, fazem crer que vivem de um modo, ao passo que vivem de modo totalmente oposto.” Ao seu irmão Hestieu: “Em toda parte sou olhado como um homem divino; nalguns lugares chegam a me tomar por um deus. Em minha pátria, contudo, não passo de um desconhecido. É de admirar? Vós mesmos, meus irmãos, bem vejo que ainda não estais convencidos de que eu seja superior a muitos homens pela palavra e pelos costumes. E como os meus concidadãos e os meus parentes se enganaram a meu respeito? Ah! este erro me é bem doloroso! Sei que é belo considerar toda a Terra como sua pátria e todos os homens como irmãos e amigos, já que todos descendem de Deus e são de uma mesma natureza, visto terem igualmente as mesmas paixões e serem todos, igualmente, homens, quer nascidos gregos ou bárbaros.” Estando em Catânia, na Sicília, numa instrução dada a seus discípulos, falando do Etna, disse: “Escutando-os, sob essa montanha geme acorrentado algum gigante, Tifeu ou Enceládio, que, em sua longa agonia, vomita todo esse fogo. Concordo que tenham existido gigantes, porque, em diversos locais, túmulos entreabertos nos deixam ver esqueletos que indicam homens de estatura extraordinária; mas eu não poderia admitir que tivessem entrado em luta contra os deuses; no máximo teriam ultrajado seus templos e suas estátuas. Mas que tenham escalado o céu e dali expulsado os deuses, é insensato dizer e acreditar. Outra fábula, que parece menos irreverente para com os deuses e da qual já não devemos fazer caso, é que Vulcano trabalha na forja nas profundezas do Etna e que ali faz incessantemente retinir a bigorna. Em diversos pontos da Terra há outros vulcões e ninguém se lembra de dizer que haja outros tantos gigantes e Vulcanos.” Certos leitores teriam achado mais interessante que citássemos os prodígios de Apolônio para os comentar e explicar; mas, antes de tudo, quisemos mostrar o filósofo e o sábio, em vez do taumaturgo. Pode-se aceitar ou rejeitar tudo quanto se queira dos fatos maravilhosos a ele atribuídos, mas parece difícil que um homem que diz tais palavras, que professa e pratica tais princípios, seja um prestidigitador, um velhaco, ou um possesso do demônio. No que respeita a prodígios, citaremos apenas um, que prova suficientemente uma das faculdades de que ele era dotado. Depois de narrar minuciosamente o assassinato de Domiciano, acrescenta Filostrato: “Enquanto tais fatos se passavam em Roma, Apolônio os via em Éfeso. Domiciano foi assaltado por Clemente por volta de meio-dia; no mesmo dia, no mesmo momento, Apolônio dissertava nos jardins contíguos aos xistos. De repente baixou um pouco a voz, como se tomado de súbito pavor. Continuou seu discurso, mas a linguagem não tinha a força habitual, como acontece aos que falam pensando em outra coisa. Depois se calou, como quem perde o fio da conversa; lançou para o chão um olhar assustador, deu três ou quatro passos à frente e exclamou: ‘Fulmina o tirano! fulmina!’ Dir-se-ia que visse não a imagem do fato num espelho, mas o próprio fato em toda a sua realidade. Os efésios (porquanto Éfeso inteira assistia ao discurso de Apolônio) foram tomados de espanto. Apolônio parou, semelhante a um homem que buscasse ver o desfecho de um acontecimento duvidoso. Enfim exclamou: ‘Tende bom ânimo, efésios. O tirano foi morto hoje. Que digo, hoje? Por minerva! Acaba de ser morto agora mesmo, quando me interrompi.’ Os efésios pensaram que Apolônio houvesse perdido o juízo; desejavam vivamente que ele tivesse dito a verdade, mas temiam que algum perigo resultasse desse discurso. ‘Não me admiro – disse Apolônio – que ainda não me acreditem: a própria Roma ainda não sabe por completo. Mas eis que o saberá, a notícia se espalha e milhares de cidadãos já acreditam; isto faz pular de alegria o duplo desses homens e o quádruplo e o povo inteiro. A notícia logo chegará aqui; podeis adiar, até que souberdes do fato, o sacrifício que deveis oferecer aos deuses por esta ocasião. Quanto a mim, retiro-me para lhes render graças pelo que vi.’ Os efésios mantiveram-se na sua incredulidade, mas logo vieram mensageiros para lhes anunciar a boa nova e testemunharem em favor da ciência de Apolônio; porque o assassinato do tirano, o dia e a hora em que foi consumado, o autor do assassínio, que havia entusiasmado Apolônio, todos os detalhes eram perfeitamente conformes aos que os deuses lhe haviam mostrado no dia em que discursava aos efésios.” Naquela época nada mais era preciso para fazê-lo passar por um homem divino. Em nossos dias os cientistas o teriam tratado como visionário. Para nós era dotado da segunda vista, cuja explicação é dada pelo Espiritismo. (Vide a teoria do sonambulismo e da dupla vista em O Livro dos Espíritos, no 455). Sua morte apresentou outro prodígio. Certa tarde, tendo entrado no templo de Dictina, em Lynde (Creta), não obstante os cães ferozes que lhe guardavam a entrada e que, em vez de ladrar à sua chegada, vieram acariciá-lo, foi, por isto mesmo, detido como mago pelos guardas do templo, e acorrentado. Durante a noite desapareceu à vista dos guardas, sem deixar vestígios e sem que lhe encontrassem o corpo. Dizem que naquela ocasião foram ouvidas vozes de moças que cantavam: “Deixai a Terra; ide para o Céu, ide!” como para o exortar a elevar-se da Terra para as regiões superiores. Assim termina Filostato a narração da vida de Apolônio: “Mesmo depois de desaparecido, Apolônio sustentou a imortalidade da alma e ensinou que é verdade aquilo que se diz a respeito. Havia então em Tiana um certo número de jovens apaixonados por sua filosofia; a maior parte de suas discussões girava em torno da alma. Um deles não podia admitir que fosse imortal. Eis dez meses – dizia ele – que rogo a Apolônio me revele a verdade sobre a imortalidade da alma; mas ele está tão morto que minhas preces são inúteis, não me aparecendo nem mesmo para provar que era imortal. Cinco dias depois falou do mesmo assunto com os seus companheiros e adormeceu no mesmo lugar em que havia ocorrido a discussão. De repente pulou, como se vitimado por um acesso de demência: estava meio adormecido e banhado de suor. Eu te acredito, bradou ele. Seus camaradas perguntaram-lhe o que tinha. Não vedes o sábio Apolônio? Está em nosso meio, ouve a nossa discussão e recita melodiosos cantos sobre a alma. – Onde está ele?, perguntaram os outros, pois não o vemos e isto é uma felicidade que preferiríamos a todos os bens da Terra. – Parece que veio só para mim: quer ensinar-me aquilo que me recusava a crer. Escutai, pois, escutai os cantos divinos que me faz ouvir: “A alma é imortal; não é vossa, mas da Providência. Quando o corpo está esgotado, semelhante a um corredor veloz que vence todo o seu trajeto, a alma se eleva e se precipita nos espaços etéreos, tomada de desprezo pela triste e rude escravidão que sofreu. Mas que vos importam essas coisas! Conhecê-las-ei quando não mais existirdes. Por que tentar penetrar esses mistérios, se ainda vos encontrais entre os vivos?” “Tal o oráculo tão claro, dado por Apolônio sobre os destinos da alma. Quis ele que, conhecendo a nossa natureza, marchássemos com o coração alegre, para o fim que nos destinam as Parcas.” A aparição de Apolônio depois da morte é tratada como alucinação pela maioria de seus comentadores, cristãos ou outros, que pretendiam que o jovem tivesse a imaginação ferida pelo próprio desejo de o ver, o que o levou apensar que o tinha visto. Em todos os tempos, contudo, a Igreja, tem reconhecido esse tipo de aparição; cita vários exemplos como autênticos. O Espiritismo vem explicar o fenômeno, baseado nas propriedades do perispírito, envoltório ou corpo fluídico do Espírito que, por uma espécie de condensação, toma uma aparência visível e pode, como se sabe, tornar-se tangível. Sem o conhecimento da lei constitutiva dos Espíritos, esse fenômeno é maravilhoso; conhecida a lei, o maravilhoso desaparece para dar lugar a um fenômeno natural. (Vide em O Livro dos Médiuns a teoria das manifestações visuais, capítulo VI). Admitindo que o jovem tivesse sido joguete de uma ilusão, restaria aos negadores explicar as palavras atribuídas a Apolônio, palavras sublimes e inteiramente opostas às idéias que, momentos antes, ele acabava de sustentar.
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(45) Apolônio de Tiana, sua vida, suas viagens, seus prodígios; por Filostrato. Nova tradução do texto grego, pelo Sr. Chassang, mestre de conferências na Escola Normal. – 1 vol. in-12 de 500 páginas. Preço: 3,50 francos. Casa Didier & Cia, editores, Quai des Augustins, 35, Paris.
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