Livros Espíritas
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Embora isso não deixe de ser uma intermediação, não representa, a rigor, uma forma de mediunidade tal como a conhecemos, se ficarmos adstritos ao conceito de que o médium é aquele que serve de intermediário entre os seres desencarnados e os encarnados. Há, contudo, exemplos bem caracterizados de espíritos que não apenas descrevem o que estão captando de outros espíritos, mas funcionam mesmo como médiuns de tais companheiros, servindo de ponte psíquica àquele que não tem condições de se utilizar de um médium encarnado a fim de alcançar, com seu recado, outros seres encarnados. (Não é este, creio eu, o caso de Emmanuel, que parece criar condições para que próprio espírito transmita o seu pensamento ao Chico, em vez de utilizar-se de Emmanuel como médium). André luiz relata um episódio, em Libertação, em que o espírito se concentra, como médium, para que Matilde consiga manifestar-se perante Gregório. Mais de uma vez, nos anos de prática de trabalhos mediúnicos, tive oportunidade de presenciar fenômenos semelhantes. Numa de tais ocasiões, o espírito manifestante produziu um convincente fenômeno de xenoglossia. Acho que era tão forte a sua fixação no idioma da língua que falara na terra - húngaro -, que o seu pensamento estava sendo transmitido pelo médium nessa língua (devo acrescentar que o médium nada conhecia de húngaro, sua presente existência, embora tenha sido húngaro na vida imediatamente anterior). De repente, suspendeu -se por alguns momentos a penosa tentativa de diálogo. Quando o médium voltou a falar, já nos foi possível o entendimento em português. Interrogado, posteriormente, um de nossos amigos espirituais - podemos considerá-lo como um dos 'controles' do médium, ou seja, um espírito familiar - nos explicou que, em vista da dificuldade criada pela dramática xenoglossia e pela aflição do espírito em manifestar-se, ele, 'controle', interferiu no processo, passando a funcionar como intermediário entre o manifestante e o médium, ou seja, o pensamento continuou sendo o do húngaro, agora, porém, retransmitido ao médium de tal maneira que este podia vazá-lo em português. Reportando-se novamente ao caso de Emmanuel, nas tarefas em que ele traz a Francisco Cândido Xavier espíritos que, sozinhos, não teriam condições de se manifestarem, e os assiste, é oportuno verificar, mais uma vez, a fantástica precisão dos conceitos doutrinários e experimentais, sempre que a fonte é boa. Digo isto, porque encontro na erudita exposição do dr. Fodor, esta observação: ".... no caso de Cristo d·Angelo, alguns espíritos muito transmitirem suas mensagens aos destinatários, com suas próprias vibrações vocais, manifestaram-se através do controle, do que resultava certa mixagem no sotaque e predominância ocasional do timbre de voz usualmente empregado pelo controle." (Idem). Os problemas da comunicação, contudo, são de tal maneira complexos que não podemos ter a esperança de chegar ao fundo deles com apenas algumas especulações, principalmente porque, a cada estágio que alcançamos, uma nova safra de dificuldades está a nossa espera. Por exemplo: se o espírito não fala, mas apenas usa a linguagem do pensamento, como é que pode ter sotaque ou falar línguas que o médium não conhece? Evidentemente não há explicações para tudo, e ainda há pouco observávamos que nem os espíritos, amplamente mais experimentados do que eu, não se arriscam a definir, conceituar e explicar tudo o que lhes seja perguntado. Pelo menos, não é esse o procedimento dos espíritos responsáveis e sensatos. O que não impede que possamos formular e propor hipóteses que ficam, como costumava assinalar Kardec, à espera do teste final da verificação. Entendo que, realmente, o espírito não fala. Conforme já vimos, há uma unanimidade no sentido de que a linguagem deles é o pensamento. Ocorre, não obstante, um acoplamento do perispírito da entidade manifestante com o do médium, através da aura, como também já vimos. É por meio desse mecanismo que o espírito manifestante assume certos controles do corpo físico do médium, através do qual irá como que 'materializar' sua mensagem. Vimos, também, como Hernani Guimarães Andrade, que a profundidade do transe depende do mais amplo ou mais reduzido 'espaço' que o médium conceda a esse acoplamento do perispiritual. Parece lógico concluir-se, portanto, que nos casos em que a chamada incorporação é mais completa, ou seja, quando o médium cede o máximo de espaço possível, (sem abandonar, de todo, o controle remoto de seu corpo), o espírito parece ficar mais à vontade e com mais efetivo controle sobre o instrumento humano de que se utiliza no momento. Como também observamos alhures, : Silver Birch se refere a um "punhado de fios", através dos quais ele mantém os comandos que lhe facultam transmitir seu pensamento. Uma vez reunidas condições para que esse comando seja o mais completo possível, é claro que lhe é facultado impor aos instrumentos até suas características pessoais e sua língua mais recente, cacoetes, tiques nervosos, gagueira, sotaque e até mesmo o tom de voz. Segundo pude observar, sempre que tais fenômenos ocorrem, o médium mergulha num transe mais profundo, do qual desperta sem se lembrar do que ocorreu ou do que disse enquanto sob controle do manifestante. Daí a expressão (inadequada, a meu ver) de mediunidade inconsciente. O espírito do médium afasta-se mais de seu corpo físico a fim de ceder mais espaço. Não, porém, que mergulhe na inconsciência. Um médium de meu conhecimento, e com o qual trabalhei durante alguns anos, dizia- me que, com certos espíritos que recebia por incorporação, ele se mantinha lúcido e consciente, acompanhando até o diálogo com a pessoa incumbida de falar com os espíritos; com outros, isso não ocorria. Parece que, para se manifestarem, precisavam de mais 'espaço' no seu psiquismo. Um desses espíritos era de uma presença particularmente marcante e característica. Vivera na França do século XIX - morrera na revolução de 1848 - e conservava o seu forte sotaque ao se utilizar da instrumentação mediúnica. Era fácil para nós identificar sua aproximação porque, momentos antes de começar sua manifestação, o médium parecia reglugitar certa quantidade de ectoplasma, como se estivesse - e isto é opinião do próprio médium - a elaborar uma espécie de garganta fluídica, através da qual pudesse o espírito expressar-se. Seu tom de voz era baixo e profundo, e o sotaque francês lá estava, inequívoco, característico e constante. E como reclamava (com a terrnura de um irmão amoroso) do aparelho fonador do médium, que ele dizia assemelhar-se a uma chaminé semi-obstruída pela 'picumã' dos muitos cigarros fumados, ao longo de muitos anos! ... Parece que, assim como certos espíritos atuam diretamente sobre os centros nervosos da visão (diencéfalo) ou da audição (cóclea), uns tantos outros devem atuar diretamente sobre os centros nervosos da fala ou da motricidade. Basicamente, o processo é um só: a força mesma do pensamento que expede comandos mentais aos diversos centros, como se o corpo que lhe está sendo emprestado pelo médium fosse seu próprio, tal como ensina Kardec. Isto explica, ainda, porque é possível a um só médium, como tem sido observado, 'receber', simultaneamente, dois ou três espíritos, um deles escrever com a mão direita, outro utilizando-se da esquerda, enquanto um terceiro fala, por psicofonia. A digressão, contudo, está nos levando longe demais, e ainda temos a dizer acerca dos controles, guias ou espíritos familiares. Podemos observar que os guias ou controles costumam atuar também em grupos, contando com a colaboração de companheiros desencarnados de nível semelhante ao seu, ou se colocam como auxiliadores mais modestos, embora não se perceba nenhum ranço de comando e hierarquia nesse relacionamento, e nada, absolutamente, de autoritarismo, ainda que haja nítida definição de autoridade. Há, pois, uma autoridade que não se impõe, mas é reconhecida sem constrangimento e acatada com respeito. Em algumas (raras) oportunidades, podem até ocorrer incidentes devidos a algum equívoco da parte dos espíritos participantes da reunião, ou, mais comumente, por causa de problemas suscitados entre os próprios encarnados. Conta o dr. Fodor que, numa sessão em que Stainton Moses funcionava como médium, houve um descontrole qualquer e, em vez de se produzirem focos luminosos, como estava programado, o cômodo ficou literalmente cheio de uma fumaça fosforescente que deixou o médium apavorado, julgando-se em chamas. Em outra ocasião, em vez do perfume prometido, algo saiu errado com os preparativos, de tal sorte que o ambiente ficou insuportável por causa do mau cheiro, que expulsou todo mundo da sala. Os controles ou guias espirituais raramente se identificam com algum nome conhecido do passado. Optam pelo anonimato e preferem ser avaliados pelo trabalho que realizam, pelas idéias que transmitem, pelos ensinamentos que ministram. Costumam ser simples, tranqüilos, profundamente humanos e compreensivos. Enérgicos, quando necessário, mas nunca são autoritários. Parecem, às vezes, um tanto frios e distantes, indiferentes e até insensíveis ao observador desatento. É preciso, no entanto, compreender que a visão que têm dos problemas humanos é inteiramente diversa da que costumamos ter aqui. Por que razão iriam se afligir ante a dor maior de um amigo encarnado, se sabem que é precisamente aquele o amargo remédio prescrito pela lei divina para corrigir uma grave disfunção espiritual do passado? Deveria o médico deixar de operar um paciente em estado grave ou de receitar um remédio salvador, porque a operação vai doer ou o remédio é amargo?
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