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Espíritos
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Revista Espírita - Por espíritos diversos através da codificação de Allan Kardec O Doutor Demeure
Morto em Albi (Tarn), em 26 de janeiro de 1865 Mais uma alma de escol acaba de deixar a Terra! O Sr. Demeure era um médico homeopata muito distinto em Albi. Seu caráter, tanto quanto o seu saber, tinham lhe granjeado a estima e a veneração de seus concidadãos. Só o conhecemos por meio de sua correspondência e da de seus amigos, mas bastou para nos revelar toda a grandeza e toda a nobreza de seus sentimentos. Sua bondade e sua caridade eram inesgotáveis e, malgrado a idade avançada, nenhuma fadiga o impedia de ir socorrer os pobres doentes. O preço das visitas era a menor de suas preocupações; preocupava-se mais com os desgraçados do que com aqueles que sabia que podiam pagar, porque, como dizia, em sua falta estes últimos sempre poderiam arranjar outro médico. Aos primeiros, não somente dava os remédios gratuitamente, mas muitas vezes provia às suas necessidades materiais, o que, algumas vezes, é o mais útil dos medicamentos. Pode dizer-se que era o Cura d’Ars da Medicina. O Sr. Demeure havia abraçado com ardor a Doutrina Espírita, na qual encontrara a chave dos mais graves problemas, cuja solução pedira em vão à Ciência e a todas as filosofias. Seu Espírito profundo e investigador fê-lo compreender imedia-tamente todo o seu alcance, de tal modo que se tornou um de seus mais zelosos propagadores. Embora jamais nos tivéssemos visto, dizia-nos em uma de suas cartas que estava convicto de que não éramos estranho um ao outro e que havia relações anteriores entre nós. Sua prontidão em vir até nós assim que morreu, sua solicitude por nós e os cuidados que nos dispensou na circunstância em que nos achávamos no momento, o papel que parece chamado a desempenhar, parecem confirmar esta previsão, que ainda não pudemos verificar. Soubemos de sua morte em 30 de janeiro, e nosso primeiro pensamento foi o de nos entretermos com ele. Eis a comunicação que nos deu naquela mesma noite, através da Sra. Cazemajour, médium: “Eis-me aqui. Ainda em vida prometi a mim mesmo, desde que estivesse morto, que viria, se possível, apertar a mão do meu caro mestre e amigo Allan Kardec. “A morte havia dado à minha alma esse pesado sono, que se chama letargia; mas o pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto, que prolonga a perturbação que segue a morte, despertei e, de um salto, fiz a viagem. “Como estou feliz! Já não sou velho nem enfermo; meu corpo era apenas um disfarce imposto; sou jovem e belo, belo dessa eterna juventude dos Espíritos, cujas rugas não mais sulcam o rosto, cujos cabelos não embranquecem sob a ação do tempo. Sou leve como o pássaro que em vôo rápido atravessa o horizonte de vosso céu nebuloso; admiro, contemplo, bendigo, amo e me inclino, átomo que sou, ante a grandeza, a sabedoria, a ciência de nosso Criador, ante a grandeza das maravilhas que me cercam. “Estava junto de vós, caro e venerado amigo, quando o Sr. Sabò falou em fazer a minha evocação, e eu o segui. “Sou feliz; estou na glória! Oh! quem poderia jamais descrever as esplêndidas belezas da terra dos eleitos: os céus, os mundos, os sóis, seu papel no grande concerto da harmonia universal? Pois bem! eu tentarei, meu mestre; vou fazer o seu estudo e virei depor junto a vós a homenagem de meus trabalhos de Espírito, que antecipadamente vos dedico. Até logo.” Demeure Observação – As duas comunicações seguintes, dadas em o 1 e 2 de fevereiro, são relativas à doença que nos acometeu subitamente em 31 de janeiro. Embora sejam pessoais, nós as publicamos porque provam que o Dr. Demeure é tão bom como Espírito quanto o era como homem e porque oferecem, além disso, um ensinamento. É um testemunho de gratidão, que devemos à solicitude de que fomos objeto de sua parte, nessa circunstância: “Meu bom amigo, tende confiança em nós e muita coragem. Esta crise, não obstante fatigante e dolorosa, não será longa e, com os cuidados prescritos, podereis, conforme os vossos desejos, completar a obra, de que a vossa existência foi o principal objetivo. No entanto, sou aquele que está sempre junto de vós, com o Espírito de Verdade, que me permite tomar a palavra em seu nome, como o último de vossos amigos vindos entre os Espíritos! Eles me fazem as honras das boas-vindas. Caro mestre, como estou feliz por ter morrido a tempo para estar com eles neste momento! Se tivesse morrido mais cedo, talvez vos pudesse ter evitado esta crise que eu não previa; havia pouquíssimo tempo que estava desencarnado para me ocupar de outra coisa que não fosse o espiritual. Mas agora velarei por vós. Caro mestre, é vosso irmão e amigo que é feliz de ser Espírito para estar junto de vós e vos prodigalizar cuidados na vossa moléstia. ‘Ajuda-te, e o céu te ajudará.’ Ajudai, pois, os Espíritos bons nos cuidados que vos dispensam, submetendo-vos estritamente às suas prescrições. “Faz muito calor aqui; este carvão é fatigante. Enquanto estiverdes doente, não o queimeis; ele continua a aumentar a vossa opressão; os gases que dele se desprendem são deletérios.” Vosso amigo, Demeure “Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho dizer-lhe que estava ao seu lado quando lhe ocorreu o acidente, que poderia ter sido funesto sem uma intervenção eficaz, para a qual tive a felicidade de contribuir. Segundo minhas próprias observações e informações que colhi em boa fonte, para mim é evidente que, quanto mais cedo se der a sua desencarnação, tanto mais cedo se dará a sua reencarnação, a fim de poder completar a sua obra. Contudo, é preciso que ele dê, antes de partir, uma última demão nas obras que devem completar a teoria doutrinária, da qual é o iniciador; e ele se tornará culpado de homicídio voluntário se, por excesso de trabalho, contribuir para a falência de sua organização, que o ameaça de uma súbita partida para os nossos mundos. Não se deve ter receio em dizer-lhe toda a verdade, para que se guarde e siga rigorosamente as nossas prescrições.” Demeure A comunicação seguinte foi recebida em Montauban, o em 1 de fevereiro, no círculo dos amigos espíritas que ele tinha naquela cidade: “Antoine Demeure. Não estou morto para vós, meus bons amigos, mas para os que, como vós, não conhecem esta santa doutrina, que reúne os que se amaram na Terra e que tiveram os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e caridade. “Sou feliz; mais feliz do que podia esperar, porquanto gozo de rara lucidez entre os Espíritos desprendidos da matéria há tão pouco tempo. Tende coragem, meus bons amigos; doravante estarei junto a vós e não deixarei de vos instruir sobre muitas coisas que ignoramos quando ligados à nossa pobre matéria, que nos oculta tantas magnificências e tantos prazeres. Orai pelos que estão privados dessa felicidade, pois não sabem o mal que fazem a si mesmos. “Hoje não me delongarei muito, mas vos direi que não me acho completamente estranho neste mundo dos invisíveis. A mim parece que sempre o habitei. Aqui estou feliz, porque vejo os meus amigos e posso comunicar-me com eles sempre que o deseje. “Não choreis, meus amigos; faríeis que lamentasse vos haver conhecido. Deixai correr o tempo e Deus vos conduzirá à esta morada, onde todos devemos nos reunir. Boa-noite, meus amigos: que Deus vos console; aqui estou junto a vós.” Demeure Observação – A situação do Sr. Demeure, como Espí-rito, é bem a que podia deixar pressentir sua vida tão dignamente e tão utilmente realizada. Mas um outro fato não menos instrutivo ressalta de suas comunicações: é a atividade que ele demonstra, quase imediatamente depois da morte, para ser útil. Por sua alta inteligência e por suas qualidades morais, pertence à ordem dos Espíritos muito adiantados; ele é muito feliz, mas sua felicidade não está na inação. Há poucos dias, cuidava dos doentes como médico e, apenas desencarnado, desvela-se em ir cuidá-los como Espírito. Algumas pessoas perguntarão: Que se ganha em estar no outro mundo, se ali não se goza de repouso? A isto lhes perguntaremos, para começar, se nada significa não mais ter preocupações, nem necessidades, nem as enfermidades da vida, ser livre e poder, sem afadigar-se, percorrer o espaço com a rapidez do pensamento, ir ver os amigos a qualquer hora, seja qual for a distância em que se encontrem? Depois acrescentamos: Quando estiverdes no outro mundo, nada vos forçará a fazer seja o que for; sereis perfeitamente livres para ficar numa ociosidade beata, tanto tempo quanto quiserdes; mas logo vos cansareis dessa ociosidade egoísta e pedireis uma ocupação. Então vos será respondido: Se vos aborreceis por nada fazerdes, buscai vós mesmos algo fazer; as ocasiões de ser útil não faltam no mundo dos Espíritos, como não faltam entre os homens. É assim que a atividade espiritual não é um constrangimento; é uma necessidade, uma satisfação para os Espíritos que procuram as ocupações segundo seus gostos e aptidões, e escolhem de preferência as que possam ajudar o seu adiantamento.
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Mês Março
Ano 1865
Revista Espírita - Pelo espírito  Doutor Demeure  através da codificação de Allan Kardec Poder Curativo do Magnetismo Espiritual – Espírito Doutor Demeure
ESPÍRITO DOUTOR DEMEURE Em nosso artigo do mês anterior sobre o Dr. Demeure, prestamos uma justa homenagem às suas eminentes qualidades como homem e como Espírito. O fato seguinte é uma nova prova de sua benevolência, constatando, ao mesmo tempo, o poder curativo da magnetização espiritual. Escrevem-nos de Montauban: Vindo aumentar o número de nossos amigos invisíveis, que nos cuidam da moral e do físico, quis o Espírito do bom pai Demeure manifestar-se desde os primeiros dias por um benefício. A notícia de sua morte ainda não era conhecida dos nossos irmãos de Montauban, quando empreendeu espontânea e diretamente a cura de um deles por meio do magnetismo espiritual, apenas pela ação fluídica. Vedes que ele não perdia tempo e, como Espírito, continuava, como dizeis, sua obra de alívio da Humanidade sofredora. Entretanto, há aqui uma importante distinção a fazer. Certos Espíritos continuam a dedicar-se às suas ocupações terrenas, sem terem consciência de seu estado, sempre se julgando vivos; é próprio dos Espíritos pouco adiantados, ao passo que o Sr. Demeure se reconheceu imediatamente e age voluntariamente como Espírito com a consciência de, neste estado, ter maior força. Tínhamos ocultado à Sra. G..., médium vidente e sonâmbula muito lúcida, a morte do Sr. Demeure, para poupar sua extrema sensibilidade, e o bom doutor, por certo nos penetrando o pensamento, tinha evitado manifestar-se a ela. No dia 10 de fevereiro último, estávamos reunidos a convite de nossos guias que, diziam, queriam aliviar a Sra. G... de uma entorse de que sofria cruelmente desde a véspera. Não sabíamos mais que isto, e estávamos longe de aguardar a surpresa que nos reservavam. Tão logo caiu em sonambulismo, a dama soltou gritos lancinantes, mostrando o pé. Eis o que se passava: A Sra. G... via um Espírito curvado sobre sua perna, mas sua fisionomia ficava oculta; realizava fricções e massagens, exercendo de vez em quando uma tração longitudinal sobre a parte doente, absolutamente como teria feito um médico. A manobra era tão dolorosa que a paciente por vezes vociferava e fazia movimentos desordenados. Mas a crise não durou muito; ao cabo de dez minutos toda a marca de entorse havia desaparecido, não mais edema, o pé havia recobrado sua aparência normal. A Sra. G... estava curada. Quando se pensa que para curar completamente uma afecção desse gênero, os mais dotados magnetizadores e os mais experientes, sem falar da medicina oficial, que ainda não chegou a uma solução, é necessário um tratamento cuja duração nunca é inferior a trinta e seis horas, consagrando três sessões por dia, com uma hora de duração cada uma, esta cura em dez minutos, pelo fluido espiritual, pode bem ser considerada como instantânea, com tanto mais razão, como diz o próprio Espírito numa comunicação que encontrareis a seguir, quanto era de sua parte uma primeira experiência feita com vistas a uma aplicação posterior, em caso de êxito. Entretanto, o Espírito ficava sempre desconhecido do médium, persistindo em não mostrar suas feições; dava mesmo a impressão de querer fugir, quando, de um salto só, nossa doente, que minutos antes não podia dar um passo, se lança no meio do quarto para pegar e apertar a mão de seu médico espiritual. Dessa vez o Espírito virou-se para ela, deixando sua mão na dela. Neste momento a Sra. G... solta um grito e cai desfalecida no parquete: acabava de reconhecer o Sr. Demeure no Espírito curador. Durante a síncope recebeu os cuidados diligentes de vários Espíritos simpáticos. Enfim, readquirida a lucidez sonambúlica, conversou com os Espíritos, trocando com eles calorosos apertos de mão, notadamente com o Espírito do doutor, que respondia a seus testemunhos de afeição penetrando-a de um fluido reparador. Não é uma cena impressionante e dramática? Dir-se-ia que todas as personagens representavam seu papel na vida humana. Não é uma prova entre mil de que os Espíritos são seres perfeitamente reais, tendo um corpo e agindo como faziam na Terra? Estávamos felizes por encontrar nosso amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua delicada solicitude. Durante a vida ele tinha sido médico da médium; conhecia sua extrema sensibilidade e a tinha conduzido como se fora sua própria filha. Esta prova de identidade, dada àqueles a quem o Espírito amava, não é admirável e capaz de fazer encarar a vida futura sob seu aspecto mais consolador? Eis a comunicação recebida do Sr. Demeure, no dia seguinte a esta sessão: “Meus bons amigos, estou ao vosso lado e vos amo sempre, como no passado. Que felicidade poder comunicar-me com os que me são caros! Como fui feliz, ontem à noite, por me tornar útil e aliviar nosso caro médium vidente! É uma experiência que me servirá e que porei em prática no futuro, toda vez que se apresentar uma ocasião favorável. Hoje seu filho está muito doente, mas espero que logo o curaremos; tudo isto lhe dará coragem para perseverar no estudo do desenvolvimento de sua faculdade. (Com efeito, o filho da Sra. G... foi curado de uma angina diftérica, com medicação homeopática prescrita pelo Espírito). “Daqui a algum tempo poderemos dar-vos ocasião de testemunhar fenômenos que ainda não conheceis, e que serão de grande utilidade para a ciência espírita. Serei feliz em poder contribuir para essas manifestações, que me teriam dado tanto prazer de ver quando vivo; mas, graças a Deus, hoje as assisto de maneira muito particular e que me prova evidentemente a verdade do que se passa entre vós. Crede, meus bons amigos, sinto sempre um verdadeiro prazer em tornar-me útil aos semelhantes, ajudando-os a propagar estas belas verdades, que devem mudar o mundo, trazendo-o a melhores sentimentos. Adeus, meus amigos; até logo.” Antoine Demeure Não é curioso ver um Espírito, já instruído na Terra, fazer como Espírito estudos e experiências para adquirir mais habilidade no alívio de seus semelhantes? Há nesta confissão uma louvável modéstia que denota o verdadeiro mérito, ao passo que os Espíritos pseudo-sábios geralmente são presunçosos. O último número da Revista cita uma comunicação do Sr. Demeure, como tendo sido dada em Montauban em 1o de fevereiro; foi em 26 de janeiro que ele a ditou. Em minha opinião esta data tem uma certa importância, porque foi o dia seguinte ao de sua morte. No segundo parágrafo ele diz: “Gozo de rara lucidez entre os Espíritos desprendidos da matéria há tão pouco tempo.” Realmente, essa lucidez prova um rápido desprendimento, só compatível com os Espíritos moralmente muito adiantados. Observação – A cura reportada acima é um exemplo da ação do magnetismo espiritual puro, sem qualquer mescla com o magnetismo humano. Por vezes os Espíritos se servem de médiuns especiais, como condutores de seu fluido. São esses os médiuns curadores propriamente ditos, cuja faculdade apresenta graus muito diversos de energia, conforme sua aptidão pessoal e a natureza dos Espíritos que os assistem. Conhecemos em Paris uma pessoa acometida há oito meses de exostoses no quadril e no joelho, que lhe causam grandes sofrimentos e a obrigam a ficar acamada. Um de seus amigos, rapaz dotado desta preciosa faculdade, prodigalizou-lhe cuidados pela simples imposição das mãos sobre a cabeça, durante alguns minutos, e pela prece, que o doente acompanhava com fervor edificante. No momento este último apresentava uma crise muito dolorosa, análoga à que sentia a Sra. G..., logo seguida de uma calma perfeita. Então ele sentia a impressão de várias mãos, que massageavam e estiravam a perna, que se via alongar-se de 10 a 12 centímetros. Nele já há uma melhora muito sensível, pois começa a andar; mas a antiguidade e a gravidade do mal necessariamente tornam a cura mais difícil e mais demorada que a de uma simples entorse. Faremos observar que a mediunidade curadora ainda não se apresentou, ao que saibamos, com caracteres de generalidade e de universalidade, mas, ao contrário, restrita como aplicação, isto é, o médium tem uma ação mais poderosa sobre certos indivíduos do que sobre outros, e não cura todas as doenças. Compreende-se que assim deva ser, quando se conhece o papel capital que representam as afinidades fluídicas em todos os fenômenos mediúnicos. Algumas pessoas somente o gozam acidentalmente e para um determinado caso. Seria, pois, um erro acreditar que, pelo fato de se ter obtido uma cura, mesmo difícil, podem ser obtidas todas, em virtude de o fluido próprio de certos doentes ser refratário ao fluido do médium; a cura é tanto mais fácil quanto mais naturalmente se opera a assimilação dos fluidos. Também é surpreendente ver algumas pessoas, frágeis e delicadas, exercerem uma ação poderosa sobre indivíduos fortes e robustos. É que, então, essas pessoas são bons condutores do fluido espiritual, ao passo que homens vigorosos podem ser péssimos condutores. Têm apenas o seu fluido pessoal, fluido humano, que jamais tem a pureza e o poder reparador do fluido depurado dos Espíritos bons.
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Mês Abril
Ano 1865
Revista Espírita - Pelo espírito  Doutor Demeure  através da codificação de Allan Kardec Poder Curativo do Magnetismo Espiritual – Espírito Doutor Demeure
De acordo com isto, compreendem-se as causas maiores que se opõem a que a mediunidade curadora se torne uma profissão. Para que isso ocorra, seria preciso ser dotado de uma faculdade universal. Ora, só os Espíritos encarnados da mais elevada ordem poderiam possuí-la nesse grau. Ter essa presunção, mesmo exercendo-a com desinteresse e por pura filantropia, seria uma prova de orgulho que, por si só, seria um sinal de inferioridade moral. A verdadeira superioridade é modesta; faz o bem sem ostentação e apaga-se, em vez de procurar o brilho; o famoso vai buscá-la e a descobre, ao passo que o presunçoso corre atrás da fama que muitas vezes lhe escapa. Jesus dizia aos que havia curado: “Ide, dai graças a Deus e não faleis disto a ninguém.” É uma grande lição para os médiuns curadores. Lembraremos aqui que a mediunidade curadora está exclusivamente na ação fluídica mais ou menos instantânea; que não se deve confundi-la nem com o magnetismo humano, nem com a faculdade que têm certos médiuns de receber dos Espíritos a indicação de remédios. Estes últimos são apenas médiuns receitistas16, como outros são médiuns poetas ou desenhistas.
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Mês Abril
Ano 1865
Revista Espírita - Pelo espírito  Doutor Demeure  através da codificação de Allan Kardec O Espiritismo e a Cólera
Sabe-se de que acusações eram vítimas os primeiros cristãos em Roma. Não havia crimes de que não fossem capazes, nem desgraças públicas que, no dizer de seus inimigos, eles não fossem os autores voluntários ou a causa involuntária, porque sua influência era perniciosa. Dentro de alguns séculos ter-se-á dificuldade em crer que espíritos fortes do século dezenove tenham tentado ressuscitar essas idéias no que concerne aos espíritas, declarando-os autores de todas as perturbações da sociedade, comparando sua doutrina à peste e estimulando a sua perseguição. Isto é história impressa; estas palavras foram despejadas de mais de uma cátedra evangélica; mas o que é mais surpreendente, é que são encontradas nos jornais, que dizem falar em nome da razão e se arvoram em campeões de todas as liberdades e, em particular, da liberdade de consciência. Já possuímos uma coleção assaz curiosa, de amenidades desse gênero, que nos propomos mais tarde reunir num volume, para maior glória de seus autores e para edificação da posteridade. Assim, seremos gratos aos que nos ajudarem a enriquecer essa coleção, enviando-nos tudo o que, em seu conhecimento, apareceu ou aparecerá a respeito. Comparando esses documentos da história do Espiritismo com os da história dos primeiros séculos da Igreja, ficar-se-á surpreso de neles encontrar pensamentos e expressões idênticos. Aí só falta uma coisa: as feras do circo, o que já é um progresso. Sendo, pois, o Espiritismo uma peste eminentemente contagiosa, uma vez que, segundo seus adversários, invade com terrível rapidez todas as classes da sociedade, tem certa analogia com a cólera. Assim, neste último levante, certos críticos o chamaram jocosamente de Spirito-morbus, e nada haveria de surpreendente se o acusassem de haver importado o flagelo; porque é notável que dois campos diametralmente opostos se dêem as mãos para o combater. Em um, ao que nos disseram, cunharam uma medalha com a efígie de São Bento, que basta usar para se preservar do contágio espírita. Não se diz se esse meio cura os que são atingidos pelo mal. Realmente há uma analogia entre o Espiritismo e a cólera: é o medo que um e outro causam a certa a gente. Mas consideremos a coisa de um ponto de vista mais sério. Eis o que nos escreveram de Constantinopla: “...Os jornais vos informaram do rigor com que o terrível flagelo acaba de assolar nossa cidade e seus arredores, posto atenuasse seus efeitos desastrosos. Algumas pessoas, que se dizem bem informadas, elevam o número de coléricos mortos a setenta mil, e outros a cerca de cem mil. A verdade é que fomos rudemente provados, e podeis imaginar as dores e o luto geral de nossas populações. É principalmente nestes tristes momentos dessa horrenda epidemia que a fé e a crença espíritas dão coragem; acabamos de dar a mais verídica das provas. Quem sabe se não devemos a essa calma da alma, a essa persuasão da imortalidade, a essa certeza das existências sucessivas, em que os seres são recompensados segundo seu mérito e seu grau de adiantamento; quem sabe, digo eu, se não é por essas crenças, bases de nossa bela doutrina, que nós todos, espíritas de Constantinopla que, como sabeis, somos bastante numerosos, devemos ter sido preservados do flagelo que se espalhou e ainda se espalha à nossa volta! Digo isto tanto mais quanto foi constatado, aqui e alhures, que o medo é o prenúncio mais perigoso da cólera, como a ignorância infelizmente se torna uma fonte de contágio...” Repos Filho, advogado Certamente seria absurdo acreditar que a fé espírita fosse um diploma de garantia contra a cólera. Mas, como está cientificamente reconhecido, o medo, ao mesmo tempo enfraquecendo o moral e o físico, torna as pessoas mais impressionáveis e mais susceptíveis de serem acometidas pelas doenças infecciosas; evidente, assim, que toda causa tendente a fortalecer o moral é um preservativo. Isto hoje é tão bem compreendido que se evita, tanto quanto possível, quer nos relatórios, quer nas disposições materiais, aquilo que possa ferir a imaginação por seu aspecto lúgubre. Sem dúvida os espíritas podem morrer de cólera, como todo o mundo, porque seu corpo não é mais imortal que o dos outros e porque, quando chegar a hora, é preciso partir, seja por esta ou por outra causa. A cólera é uma das causas que não tem como particularidade senão levar maior número de pessoas ao mesmo tempo, o que produz mais sensação. Parte-se em massa, em vez de individualmente – eis toda a diferença. Mas a certeza que têm do futuro e, sobretudo, o conhecimento desse futuro, que corresponde a todas as aspirações e satisfaz à razão, fazem que absolutamente não lamentem a Terra, onde se consideram em exílio passageiro. Enquanto em presença da morte o incrédulo só vê o nada, ou pergunta o que vai ser de si, o espírita sabe que, se morrer, apenas será despojado de um invólucro material, sujeito aos sofrimentos e às vicissitudes da vida, mas será sempre ele, com um corpo etéreo, inacessível à dor; que gozará de percepções novas e de maiores faculdades; que vai encontrar aqueles a quem amou e que o esperam no limiar da verdadeira vida, da vida imperecível. Quanto aos bens materiais, sabe que deles não mais necessitará, e que os prazeres que proporcionam serão substituídos por outros mais puros e mais invejáveis, que não deixam em seu rasto nem amarguras nem pesares. Assim, abandona-os sem dificuldade e com alegria, lamentando os que, ficando na Terra, ainda irão precisar deles. É como aquele que, tornando-se rico, abandona seus trajes velhos aos infelizes. Por isso, ao deixar os amigos, lhes diz: não me lastimeis; não choreis minha morte; antes me felicitai, por estar livre das preocupações da vida e por entrar num mundo radioso, de onde vos esperarei. Quem quer que tenha lido e meditado nossa obra O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo e, sobretudo, o capítulo sobre o temor da morte, compreenderá a força moral que os espíritas haurem em sua crença, diante do flagelo que dizima as populações. Segue-se daí que devam negligenciar as precauções necessárias em casos semelhantes e baixar a cabeça ante o perigo? De modo algum: tomarão todas as cautelas exigidas pela prudência e uma higiene racional, porque não são fatalistas e porque, se não temem a morte, sabem que não devem procurá-la. Ora, não levar em conta as medidas sanitárias que os podem preservar seria verdadeiro suicídio, cujas conseqüências conhecem muito bem para a elas se exporem. Consideram como um dever velar pela saúde do corpo, porque a saúde é necessária para a realização dos deveres sociais. Se buscam prolongar a vida corporal, não é por apego à Terra, mas para ter mais tempo para progredir, melhorar-se, depurar-se, despojar-se do velho homem e adquirir mais soma de méritos para a vida espiritual. Mas, se a despeito de todos os cuidados, devem sucumbir, tomam o seu partido sem queixa, sabendo que todo progresso traz os seus frutos, que nada do que se adquire em moralidade e em inteligência fica perdido, e que se não desmereceram aos olhos de Deus, serão sempre melhores no outro mundo do que neste, ainda mesmo que ali não ocupem o primeiro lugar. Apenas dizem: Vamos um pouco mais cedo aonde iríamos um pouco mais tarde. Crê-se que com tais pensamentos não se esteja nas melhores condições de tranqüilidade de espírito recomendada pela Ciência? Para o incrédulo ou para o que duvida, a morte tem todos os seus terrores, porque perde tudo e nada espera. Que pode dizer um médico materialista para acalmar nos doentes o medo de morrer? Nada do que certo dia um deles dizia a pobre coitado que tremia à simples palavra cólera: “Ah! enquanto não se está morto, há esperança; depois, em última análise, só se morre uma vez e logo tudo passa; quando se está morto, tudo está acabado; não se sofre mais.” Tudo está acabado quando se está morto, eis o supremo consolo que ele dá. Ao contrário, o médico espírita diz ao que vê a morte à sua frente: “Meu amigo, vou empregar todos os recursos da Ciência para vos restabelecer a saúde e vos conservar o maior tempo possível; espero que sejamos bem-sucedidos. Mas a vida do homem está nas mãos de Deus, que nos chama quando terminado nosso tempo de prova na Terra; se a hora de vossa libertação tiver chegado, rejubilai-vos, como o prisioneiro que vai sair da prisão. A morte nos desembaraça do corpo que nos faz sofrer e nos restitui à verdadeira vida, vida isenta de perturbações e misérias. Se deveis partir, não penseis que estejais perdido para os vossos parentes e amigos que ficaram. Não, não estareis menos no meio deles; vê-los-eis e os ouvireis melhor do que podeis fazê-lo neste momento. Vós os aconselhareis, os dirigireis, os inspirareis para o bem. Se, pois, aprouver a Deus vos chamar a Ele, agradecei-lhe por vos restituir a liberdade; se prolongar a vossa estada aqui, agradecei-lhe ainda por vos dar tempo de concluir a vossa tarefa. Na dúvida, submetei-vos sem murmurar à sua santa vontade.” Tais palavras não são propícias a trazer serenidade à alma, e esta serenidade não secunda a eficácia dos remédios, enquanto a perspectiva do nada mergulha o moribundo na ansiedade do desespero?
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Mês Novembro
Ano 1865
Revista Espírita - Pelo espírito  Doutor Demeure  através da codificação de Allan Kardec O Espiritismo e a Cólera
Além desta influência moral, o Espiritismo tem outra mais material. Sabe-se que os excessos de todo gênero são uma das causas que mais predispõem para a epidemia reinante. Assim, os médicos recomendam sobriedade em tudo, prescrição salutar, à qual muita gente tem dificuldade de se submeter. Admitindo que o façam, é sem dúvida um ponto importante, mas é de crer-se que uma abstenção momentânea possa reparar instantaneamente as desordens orgânicas causadas por abusos inveterados, degenerados em hábito, que consumiram o corpo e, por isto mesmo, o tornaram acessível aos miasmas deletérios?28 Fora da cólera, não se sabe quanto é pernicioso o hábito da intemperança nos climas tórridos, e naqueles onde a febre amarela é endêmica? Pois bem! o espírita – por efeito de suas crenças e da maneira pela qual encara o objetivo da vida presente e o resultado da vida futura – modifica profundamente os seus hábitos; em vez de viver para comer, come para viver; não pratica nenhum excesso; não vive como cenobita. Assim, usa de tudo, mas não abusa de nada. Isto deve ser, com certeza, uma consideração preponderante a acrescentar à que faz valer o nosso correspondente de Constantinopla. Eis, pois, um dos resultados desta doutrina, sobre a qual a incredulidade lança a injúria e o sarcasmo; que ridiculariza, tacha de loucura e, segundo ela, traz perturbação à sociedade. Guardai vossa incredulidade, se ela vos apraz, mas respeitai uma crença que torna felizes e melhores os que a possuem. É loucura acreditar que nem tudo se acaba com a vida? que depois da morte vivemos uma vida melhor, isenta de preocupações? que voltamos ao meio daqueles a quem amamos? que ao morrer não somos mergulhados nas chamas eternas, sem esperança de sair, o que equivaleria ao nada, nem perdidos na ociosa e beatífica contemplação do infinito? Ah! quisera Deus fossem loucos todos os homens! Haveria entre eles muito menos crimes e suicídios. Numerosas comunicações foram dadas sobre a cólera; várias o foram na Sociedade de Paris ou no nosso círculo íntimo. Reproduzimos apenas duas, fundidas numa só, para evitar as repetições, e porque resumem o pensamento dominante da maioria. (Sociedade de Paris – Médiuns: Srs. Desliens e Morin) Já que a cólera é uma questão de atualidade e cada um traz o seu remédio para rechaçar o terrível flagelo, eu me permitirei, se o quiserdes, dar também a minha opinião, embora me pareça pouco provável que tenhais de temer os doentes de maneira cruel. Entretanto, como é bom que na ocasião não faltem os meios, ponho minha pouca luz à vossa disposição. Dizem que essa afecção não é imediatamente contagiosa, e os que se acham numa localidade onde ela se alastra, não devem temer cuidar dos doentes. Não existe remédio universal contra essa moléstia, seja preventivo, seja curativo, considerando-se que o mal se complica de uma porção de circunstâncias que ora se devem ao temperamento dos indivíduos, ora ao seu estado moral e aos seus hábitos, ora às condições climáticas, o que faz que tal remédio dê resultado em certos casos e não em outros. Pode dizer-se que a cada período de invasão e conforme as localidades, o mal deve ser objeto de estudo especial e requer uma medicação diferente. É assim, por exemplo, que em 1832 e 1849 o gelo e o remédio caseiro puderam curar numerosos casos de cólera em certas regiões, mas deram resultados negativos em outras épocas e em países diferentes. Há, pois, uma imensidão de remédios bons, mas nenhum que seja específico. É essa diversidade nos resultados que tem confundido, e ainda confundirá por muito tempo a Ciência, e faz que nós mesmos não possamos dar um remédio aplicável a todo o mundo, porque a natureza do mal não o comporta. Há, contudo, regras gerais, frutos da observação, das quais importa não se afastar. O melhor preservativo consiste nas precauções de higiene sabiamente recomendadas em todas as instruções dadas a respeito; passam pela limpeza, pelo afastamento de toda causa de insalubridade e dos focos de infecção, e pela abstenção de todos os excessos. A par disto, deve evitar-se a mudança de hábitos alimentares, a não ser para coibir as coisas debilitantes. É preciso evitar também os resfriados, as transições bruscas de temperatura e abster-se, salvo necessidade absoluta, de toda medicação violenta que possa trazer perturbação à economia. Em casos semelhantes, sabeis que o medo, muitas vezes, é pior que o mal. Infelizmente o sangue-frio não se impõe; mas vós, espíritas, não precisais de nenhum conselho sobre este ponto, pois encarais a morte sem pestanejar e com a calma dada pela fé. Em caso de ataque, importa não negligenciar os primeiros sintomas. O calor, a dieta, uma transpiração abundante, as fricções, a água de arroz, acrescida de algumas gotas de láudano, são medicamentos pouco custosos e cuja ação é muito eficaz, se aí vierem juntar-se a energia moral e o sangue-frio. Como muitas vezes é difícil conseguir o láudano na ausência de médico, pode-se substitui-lo, em caso de urgência, por qualquer outra composição calmante, especialmente pelo suco de alface, empregado em dose fraca. Aliás, basta ferver algumas folhas de alface em água de arroz. A confiança em si e em Deus é, em tais circunstâncias, o primeiro elemento da saúde. Agora, que a vossa saúde material está em segurança, permiti-me pensar em vosso temperamento espiritual, ao qual uma epidemia de outro gênero parece querer atacar. Nada temais desse lado; o mal só poderia atingir os seres a quem falta a verdadeira vida espiritual, porquanto, embora vivos, na verdade já estão mortos. Ao contrário, todos os que se devotarem à doutrina, para sempre e sem segundas intenções, nela colherão novas forças, para fazer frutificar os ensinos cuja transmissão consideramos um dever. Seja qual for, a perseguição é sempre útil; torna conhecidos os corações sólidos e, se alguns galhos mal presos se destacarem do tronco, os jovens rebentos, amadurecidos pelas lutas nas quais triunfarão, haverão de tornar-se homens sérios e prudentes. Assim, pois, muita coragem; marchai intimoratos na via que vos é traçada, e contai com aquele que, na medida de suas forças, jamais vos faltará. Doutor Demeure
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Mês Novembro
Ano 1865
O Céu e o Inferno - Pelo espírito  Doutor Demeure  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 2
(Falecido em Albi [Tarn], em 25 de janeiro de 1865.) O Dr. Demeure era um médico homeopata muito distinto. Seu caráter, assim como o saber, haviam-lhe conquistado a estima e a veneração dos seus concidadãos. Sua bondade e caridade eram inesgotáveis e, a despeito da idade avançada, não se afadigava quando se tratava de socorrer doentes pobres. O preço das visitas era o que menos o preocupava e de preferência sacrificava as suas comodidades ao pobre, dizendo que os ricos, em sua falta, bem podiam recorrer a outro médico. Aos primeiros, não só dava os remédios gratuitamente, como muitas vezes provia às suas necessidades materiais, no caso de serem mais úteis que o próprio medicamento. Dele se pode dizer que foi o Cura d’Ars da Medicina. Demeure abraçou com ardor a Doutrina Espírita, na qual encontrou a chave dos mais graves problemas, cuja solução pedira inutilmente à Ciência e a todas as filosofias. Seu espírito profundo e investigador fez-lhe compreender subitamente todo o alcance do Espiritismo, de modo que ele se tornou um de seus mais dedicados propagadores. Relações de mútua e viva simpatia se haviam estabelecido entre nós por meio da correspondência. Soubemos da sua morte no dia 30 de janeiro, e o nosso primeiro pensamento foi evocá-lo. Eis a comunicação que ele nos deu naquele mesmo dia: “Aqui estou. Ainda vivo, assumi o compromisso de manifestar-me desde que me fosse possível, a fim de apertar a mão do meu caro mestre e amigo Allan Kardec. “A morte dera à minha alma esse pesado sono que se chama letargia; mas o pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto, que prolonga a perturbação que se segue à morte, despertei e, de um salto, fiz a viagem. “Como estou feliz! Já não sou velho nem enfermo; meu corpo era apenas um disfarce imposto; sou jovem e belo, belo dessa eterna juventude dos Espíritos, cujas rugas não mais sulcam o rosto, cujos cabelos não embranquecem sob a ação do tempo. Sou leve como o pássaro que em voo rápido atravessa o horizonte do vosso céu nebuloso; admiro, contemplo, bendigo, amo e me inclino, átomo que sou, ante a grandeza, a sabedoria, a ciência de nosso Criador, ante a grandeza das maravilhas que me cercam. “Sou feliz; estou na glória! Oh! quem poderia jamais descrever as esplêndidas belezas da terra dos eleitos: os céus, os mundos, os sóis, seu papel no grande concerto da harmonia universal? Pois bem! eu tentarei meu mestre! Vou fazer o seu estudo e virei depor junto a vós a homenagem de meus trabalhos de Espírito, que antecipadamente vos dedico. Até logo.” Demeure As duas comunicações seguintes, dadas em 1º e 2 de fevereiro, são relativas à doença de que fomos acometidos na ocasião. Embora sejam pessoais, nós as publicamos porque provam que o Dr. Demeure é tão bom como Espírito quanto o fora como homem. “Meu bom amigo, tende confiança em nós e muita coragem. Esta crise, não obstante fatigante e dolorosa, não será longa e, com os cuidados prescritos, podereis, conforme os vossos desejos, completar a obra, de que a vossa existência foi o principal objetivo. No entanto, sou aquele que está sempre junto de vós, com o Espírito de Verdade que me permite tomar a palavra, como o último de vossos amigos vindos entre os Espíritos! Eles me dão as honras das boas-vindas. Caro mestre, como estou feliz por ter morrido a tempo para estar com eles neste momento! Se tivesse morrido mais cedo, talvez vos pudesse ter evitado esta crise que eu não previa; havia pouquíssimo tempo que estava desencarnado para me ocupar de outra coisa que não fosse o espiritual. Mas agora velarei por vós, caro mestre. Aqui estou para, feliz como Espírito, ao vosso lado, prestar serviços. Conheceis o provérbio: ‘Ajuda-te, e o céu te ajudará’. Ajudai, pois, os Espíritos bons nos cuidados que vos dispensam, submetendo-vos estritamente às suas prescrições. Faz muito calor aqui; este carvão é fatigante. Enquanto estiveres doente, não o queimeis; ele continua a aumentar a vossa opressão; os gases que dele se desprendem são deletérios.” Vosso amigo, Demeure “Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho dizer-lhe que estava ao seu lado quando lhe ocorreu o acidente, que poderia ter sido funesto sem uma intervenção eficaz, para a qual tive a felicidade de contribuir. Segundo minhas próprias observações e informações que colhi em boa fonte, para mim é evidente que, quanto mais cedo se der a sua desencarnação, tanto mais cedo se dará a sua reencarnação, a fim de poder completar a sua obra. Contudo, é preciso que ele dê, antes de partir, uma última demão nas obras que devem completar a teoria doutrinária, da qual é o iniciador; e ele se tornará culpado de homicídio voluntário se, por excesso de trabalho, contribuir para a falência de seu organismo, que o ameaça de uma súbita partida para os nossos mundos. Não se deve temer dizer-lhe toda a verdade, para que se previna e siga rigorosamente as nossas prescrições.” Demeure A comunicação seguinte foi obtida em Montauban, no dia 26 de janeiro, no círculo dos amigos espíritas que ele tinha naquela cidade: “Antoine Demeure. Não estou morto para vós, meus bons amigos, mas para aqueles que não conhecem a santa doutrina que reúne os que se amaram e tiveram na Terra os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e caridade. Sou feliz; mais feliz do que podia esperar, porquanto gozo de rara lucidez entre os Espíritos desprendidos da matéria há tão pouco tempo. Tende coragem, meus bons amigos; doravante estarei junto a vós e não deixarei de vos instruir sobre muitas coisas que ignoramos quando ligados à nossa pobre matéria, que nos oculta tantas magnificências e tantos prazeres. Orai pelos que estão privados dessa felicidade, pois não sabem o mal que fazem a si mesmos. “Hoje não me demorarei muito, mas vos direi que não me acho completamente estranho neste mundo dos invisíveis. A mim parece que sempre o habitei. Aqui estou feliz porque vejo os meus amigos e posso comunicar-me com eles sempre que o deseje. Não choreis, meus amigos; faríeis que lamentasse vos haver conhecido. Deixai correr o tempo e Deus vos conduzirá a esta morada, onde todos devemos nos reunir. Boa noite, meus amigos: que Deus vos console; aqui estou junto de vós.” Demeure Outra carta de Montauban contém o relato seguinte: “Tínhamos ocultado à Sra. G..., médium vidente e sonâmbula muito lúcida, a morte do Dr. Demeure, a fim de poupar a sua extrema sensibilidade, e o bom doutor, por certo nos penetrando o pensamento, evitara manifestar-se a ela. No dia 10 de fevereiro último estávamos reunidos a convite dos nossos guias que, diziam, queriam aliviar a Sra. G... de uma entorse da qual muito sofria desde a véspera. Não sabíamos mais que isto e estávamos longe de aguardar a surpresa que nos reservavam. Tão logo caiu em sonambulismo, a dama soltou gritos lancinantes, mostrando o pé. Eis o que se passava: “A Sra. G... via um Espírito curvado sobre sua perna, mas cuja fisionomia ficava oculta; realizava fricções e massagens, exercendo de vez em quanto uma tração longitudinal sobre a parte doente, absolutamente como teria feito um médico. A manobra era tão dolorosa que a paciente por vezes vociferava, fazendo movimentos desordenados. Mas a crise não durou muito; ao cabo de dez minutos toda a marca de entorse havia desaparecido, assim como o edema, retomando o pé a sua aparência normal. A Sra. G... estava curada. “Entretanto, o Espírito continuava incógnito para a médium, persistindo em não mostrar as suas feições; dava mesmo a impressão de querer fugir, quando, de um salto só, nossa doente, que não podia dar um passo, se lança no meio do quarto para pegar e apertar a mão de seu médico espiritual. Dessa vez o Espírito virou-se para ela, deixando sua mão na dela. Neste momento a Sra. G... solta um grito e cai desfalecida no assoalho: acabava de reconhecer o Dr. Demeure no Espírito curador. Durante a síncope recebeu os cuidados diligentes de vários Espíritos simpáticos. Enfim, readquirida a lucidez sonambúlica, conversou com os Espíritos, trocando com eles calorosos apertos de mão, notadamente com o Espírito do doutor, que respondia a seus testemunhos de afeição penetrando-a de um fluido reparador. “Não é uma cena impressionante e dramática? Dir-se-ia que todas as personagens representavam seu papel na vida humana. Não é uma prova entre mil de que os Espíritos são seres perfeitamente reais, tendo um corpo e agindo como faziam na Terra? Estávamos felizes por encontrar nosso amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua delicada solicitude. Durante a vida ele tinha sido médico da médium; conhecia sua extrema sensibilidade e a tinha conduzido como se fora a própria filha. Esta prova de identidade, dada àqueles a quem o Espírito amava, não é admirável e capaz de fazer encarar a vida futura sob seu aspecto mais consolador?”
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Espíritos felizes
Tema Dr. Demeure
O Céu e o Inferno - Pelo espírito  Doutor Demeure  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 2
Observação – A situação do Dr. Demeure, como Espírito, é bem a que podia deixar pressentir sua vida tão dignamente e utilmente empregada. Mas um outro fato não menos instrutivo ressalta de suas comunicações: é a atividade que ele demonstra, quase imediatamente depois da morte, para ser útil. Por sua alta inteligência e por suas qualidades morais, pertence à ordem dos Espíritos muito adiantados; ele é muito feliz, mas sua felicidade não está na inação. Há poucos dias, cuidava dos doentes como médico e, tão logo desencarnado, desvela-se em vir cuidá-los como Espírito. Algumas pessoas perguntarão: Que se ganha em estar no outro mundo, se ali não se goza de repouso? A isto lhes perguntaremos, para começar, se nada significa não mais ter preocupações, nem necessidades, nem as enfermidades da vida, ser livre e poder, sem afadigar-se, percorrer o Espaço com a rapidez do pensamento, ter com os amigos a qualquer hora, seja qual for a distância em que se encontrem? Depois acrescentamos: Quando estiverdes no outro mundo, nada vos forçará a fazer seja o que for; sereis perfeitamente livres para ficar numa ociosidade beata, tanto tempo quanto quiserdes; mas logo vos cansareis dessa felicidade egoísta e pedireis uma ocupação. Então vos será respondido: se vos aborreceis por nada fazerdes, buscai vós mesmos algo fazer; as ocasiões de ser útil não faltam no mundo dos Espíritos, como não faltam entre os homens. É assim que a atividade espiritual não é um constrangimento; é uma necessidade, uma satisfação para os Espíritos que procuram as ocupações segundo seus gostos e aptidões, e escolhem de preferência as que possam contribuir para o seu adiantamento.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Espíritos felizes
Tema Dr. Demeure