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Espíritos
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O Céu e o Inferno - Pelo espírito  Anna Bitter  através da codificação de Allan Kardec Capítulo 8
A perda de um filho adorado é motivo de cruciante pesar; ver, porém, o filho único, alvo de todas as esperanças, depositário de todas as afeições, definhar a olhos vistos e sem sofrimentos, por causas desconhecidas, por um desses caprichos da natureza que zombam da Ciência e, depois de esgotar todos os recursos, não haver por compensação uma esperança sequer; suportar essa angústia de todos os momentos, por longos anos, sem lhe prever o termo, é um suplício cruel que a fortuna agrava em vez de suavizar, dada a impossibilidade de vê-la fruída pelo ente adorado. Esta era a situação do pai de Anna Bitter, que por isso se entregou a um íntimo desespero. Seu caráter se exasperava cada vez mais diante de tal espetáculo, cujo desfecho só poderia ser fatal, ainda que indeterminado. Um amigo da família, adepto do Espiritismo, julgou dever interrogar a respeito o seu protetor espiritual, obtendo a seguinte resposta: “Muito desejo explicar-te o estranho fenômeno que ora te preocupa, porque sei que a mim não recorres por curiosidade indiscreta, mas pelo interesse que te merece aquela pobre criança, e ainda porque, crente na Justiça divina, só terás a ganhar com isso. Aqueles que são alcançados pela justiça do Senhor devem curvar a fronte sem maldições nem revoltas, porque não há castigo sem causa. A pobre criança, cuja sentença de morte fora suspensa por Deus, em breve deverá regressar ao nosso meio, visto como mereceu a divina compaixão; quanto ao seu pai, esse homem ­infeliz, tem de ser punido na sua única afeição mundana, visto haver zombado da confiança e dos sentimentos de quantos o rodeiam. Por momentos o seu sofrimento tocou o Todo-Poderoso e a morte sustou o golpe sobre o ente que lhe é tão caro; mas para logo veio a revolta, e o castigo sempre acompanha a revolta. Felizes os que são punidos nesse mundo! Orai, meus amigos, por essa pobre criança, cuja juventude vai dificultar-lhe os últimos momentos. A seiva é tão abundante nesse pobre ser que, apesar do seu enfraquecimento orgânico, sua alma terá dificuldade em se desprender. Oh! Orai... Mais tarde ela também vos auxiliará e consolará, visto que o seu Espírito é mais adiantado do que o das pessoas que a rodeiam. Para que o seu desprendimento seja auxiliado, coube-me, como graça especial do Senhor, o poder de orientar-vos a respeito.” Depois de haver expiado o vácuo do insulamento, provocado pela perda da filha, morreu também o pai de Anna Bitter. A seguir, damos de cada um deles as primeiras comunicações imediatas às respectivas desencarnações: A filha – “Obrigado, meu amigo, por vos interessardes por esta pobre criança, bem como por terdes seguido os conselhos do vosso bom guia. Sim, graças às vossas preces pude deixar mais facilmente o meu envoltório terreno, porque meu pai... Ah! esse não orava, maldizia! Entretanto, não lhe quero mal por isso, pois tudo resultava da grande ternura que nutria por mim. Rogo a Deus que lhe conceda luzes antes de morrer; e quanto a mim, o incito e animo; minha missão é suavizar os seus últimos momentos. Por vezes um raio de luz divina parece baixar até ele e o comove, não passando, contudo, de fugaz clarão, que para logo o deixa entregue às primeiras ideias. Ele tem consigo um germe de fé, mas tão abafado pelos interesses mundanos, que só poderá vingar por meio de novas e mais cruéis provações. Pelo que me dizia respeito, apenas devia suportar um resto de prova, de expiação, e assim é que ela não foi nem muito dolorosa, nem muito difícil. A minha singular enfermidade não acarretava sofrimentos; eu era antes um instrumento da provação de meu pai, o qual, por me ver em tal estado, sofria mais do que eu mesma. Além disso, eu tinha resignação, e ele não. Hoje sou recompensada. Deus concedeu-me a graça de abreviar minha estada na Terra, pelo que muito lhe agradeço. Feliz entre os Espíritos bons que me cercam, cumprimos satisfeitos as nossas obrigações, mesmo porque a inatividade seria um suplício bastante cruel.” O pai [um mês depois da morte] – P. Evocando-vos, temos por fim nos informarmos da vossa situação no mundo dos Espíritos e vos ser úteis na medida das nossas forças. – R. O mundo dos Espíritos? Não o vejo... O que vejo são homens conhecidos, que comigo não se preocupam e tampouco me deploram a sorte, antes me parecendo contentes de se verem livres de mim. P. Tendes consciência da situação em que vos encontrais? – R. Perfeitamente. Por algum tempo julguei-me ainda no vosso mundo, mas hoje sei muito bem que já não lhe pertenço. P. Por que, então, não podeis divisar outros Espíritos que vos rodeiam? – R. Ignoro-o, embora tudo esteja bem claro em torno de mim. P. Ainda não vistes a vossa filha? – R. Não, ela está morta; ­procuro-a, chamo por ela inutilmente. Que vácuo horrível a sua morte me deixou na Terra! Morrendo, julgava encontrá-la, mas nada! Sempre isolado! ­Ninguém me dirige uma palavra de consolação e de esperança. Adeus; vou procurar minha filha. O guia do médium – Este homem não era ateu nem materialista, mas daqueles que creem vagamente, sem se preocuparem com Deus e com o futuro, visto que se deixam absorver pelos interesses terrenos. Profundamente egoísta, sacrificaria tudo para salvar a filha, mas também sem o mínimo escrúpulo sacrificaria os interesses de terceiros em seu proveito pessoal. Não se interessava por ninguém, além da filha. Deus o puniu da forma como o vistes, arrebatando-lhe da Terra a única consolação; e como ele não se arrependesse, o sequestro subsiste no mundo espiritual. Não se interessando por ninguém no planeta, também aqui ninguém se interessa por ele. Permanece só, abandonado, e nisso consiste a sua punição. Sua filha, entretanto, está junto dele, embora não a veja; se a visse não seria punido. Mas que faz ele em tais conjunturas? Dirige-se a Deus? Arrepende-se? Não; murmura sempre, blasfema até, fazendo, em síntese, o que fazia na Terra. Ajudai-o, pois, pela prece e por meio de bons conselhos, a fim de que se liberte da sua cegueira.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Expiações terrestres
Tema Anna Bitter