Não se deve atribuir a essa inércia a causa dos vossos pesares e temores? – R. Talvez tenhais razão.
6-a. Não basta, porém, concordar. Quereis reparar a inutilidade dessa existência e auxiliar os Espíritos sofredores que vos cercam? – R. Como?
6-b. Ajudando-os a se melhorarem pelos vossos conselhos e pelas vossas preces. – R. Eu não sei orar.
6-c. Oraremos juntos e aprendereis. Sim? – R. Não.
6-d. Mas por quê? – R. Cansa muito.
Instruções do guia do médium – Damos-te instrução, facultando-te o conhecimento prático dos diversos estados de sofrimento, bem como da situação dos Espíritos condenados à expiação em consequência das suas faltas.
Angèle era uma dessas criaturas sem iniciativa, cuja existência é tão inútil aos outros quanto a si mesma. Amando apenas o prazer, incapaz de procurar no estudo, no cumprimento dos deveres domésticos e sociais essas satisfações do coração, que fazem o encanto da vida, porque são de todas as épocas, empregou a juventude tão só em frívolas distrações; e quando deveres mais sérios se lhe impuseram, o mundo já se lhe havia feito um vácuo, porque vazio também estava o seu coração. Sem defeitos sérios, mas também sem qualidades, ela fez a infelicidade do marido, comprometendo pela incúria e desleixo o futuro dos próprios filhos. Deturpou-lhes o coração e os sentimentos, quer pelo seu exemplo, quer pelo abandono em que os deixou, entregues a criados que ela nem sequer se dava ao trabalho de escolher. A sua existência foi improdutiva e, por isso mesmo, culposa, visto que o mal procede da negligência do bem. Ficai, pois, bem certos de que não basta abster-vos de faltas: é preciso praticar as virtudes que lhes são opostas.
Estudai os ensinamentos do Senhor; meditai-os e compenetrai-vos de que eles, se vos fazem estacar na senda do mal, também vos impõem voltar atrás, a fim de tomardes o caminho oposto que conduz ao bem. O mal é a antítese do bem; logo, quem quiser evitar o primeiro deve seguir o segundo, sem o qual a vida se torna nula, mortas as suas obras, e Deus, nosso Pai, não é o Deus dos mortos, mas dos vivos.
P. Posso saber qual teria sido a penúltima existência de Angèle? A última deveria ter sido consequência dela. – R. Ela viveu na indolência beatífica, na inutilidade da vida monástica. Preguiçosa e egoísta por vocação, quis experimentar a vida doméstica, mas seu Espírito pouco progrediu. Sempre repeliu a voz íntima que lhe apontava o perigo; e, como a propensão era suave, preferiu abandonar-se a ela, a fazer um esforço para sustá-la no começo. Hoje, ainda compreende o perigo dessa neutralidade, mas não se sente com forças para tentar o menor esforço para superá-la. Orai por ela, procurai despertá-la e fazer que seus olhos se abram à luz. É um dever, e dever algum se despreza.
O homem foi criado para a atividade; a atividade do Espírito é da sua própria essência; já a atividade do corpo é uma necessidade. Cumpri, portanto, as prescrições da existência, como Espírito votado à paz eterna. O vosso corpo, destinado ao serviço do Espírito, não passa de uma máquina submissa à inteligência; trabalhai, cultivai, pois, a inteligência, para que dê salutar impulso ao instrumento que deve auxiliá-lo no cumprimento de sua missão. Não lhe concedais tréguas nem repouso, e lembrai-vos de que essa paz a que aspirais só vos será concedida pelo trabalho. Assim, quanto mais protelardes o trabalho, tanto mais durará para vós a ansiedade de espera.
Trabalhai, trabalhai incessantemente; cumpri todos os deveres sem exceção, com zelo, coragem e perseverança. A fé vos sustentará. Todo aquele que desempenha conscientemente o papel mais ingrato e vil da nossa sociedade é cem vezes mais elevado aos olhos do Altíssimo do que aquele que, impondo esse papel aos outros, despreza o seu. Tudo é degrau que dá acesso ao céu: não quebreis a lápide sob os pés e contai com o auxílio de amigos que vos estendem a mão, verdadeiros sustentáculos de quantos vão haurir suas forças na crença do Senhor.
Monod