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Espíritos
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Revista Espírita - Pelo espírito  Alfred de Musset  através da codificação de Allan Kardec A Influência do Médium Sobre o Espírito
Médium – Sra. Schmidt Somente os Espíritos superiores podem comunicar-se indistintamente por todos os médiuns e manter em toda parte a mesma linguagem. Mas eu não sou um Espírito superior, razão por que, às vezes, sou um pouco material. Contudo, sou mais adiantado do que imaginais. Quando nos comunicamos por um médium, a emanação de sua natureza se reflete mais ou menos sobre nós. Por exemplo, se o médium é dessas naturezas em que predomina o coração, desses seres elevados, capazes de sofrer por seus irmãos; enfim, dessas almas devotadas, nobres, que a infelicidade tornou fortes e que ficaram puras em meio à tormenta, então o reflexo faz bem, no sentido de nos corrigirmos espontaneamente e nossa linguagem se ressentir. Mas no caso contrário, se nos comunicamos por um médium de natureza menos elevada, servimo-nos pura e simplesmente de sua faculdade como nos utilizamos de um instrumento. É então que nos tornamos o que chamas de um pouco material. Dizemos coisas espirituosas, se quiseres, mas deixamos de lado o coração. Pergunta – Os médiuns instruídos, de espírito culto, são mais aptos a receber comunicações elevadas do que os que não têm instrução? Resposta – Não, repito. Somente a essência da alma se reflete sobre os Espíritos, mas os Espíritos superiores são os únicos invulneráveis. Alfred de Musset
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Mês Junho
Ano 1860
Revista Espírita - Pelo espírito  Alfred de Musset  através da codificação de Allan Kardec Devaneio
Vou contar-te uma história do outro mundo, onde me encontro. Imagina um céu azul, um mar calmo e verde, rochedos bizarramente talhados; nenhuma vegetação, a não ser os pálidos liquens agarrados às fendas das pedras. Eis a paisagem. Como simples romancista, não posso comprazer-me em te dar mais detalhes. Para povoar este mar, estes rochedos, só se achava um poeta, sentado, sonhando, refletindo em sua alma, como num espelho, a suave beleza da Natureza, que não falava menos ao coração do que aos olhos. Este poeta, este sonhador, era eu. Onde? Quando se passa a minha história? Que importa! Assim eu escutava, olhava, comovido e trespassado pelo encanto impenetrável da grande solidão. De repente vi surgir uma mulher, de pé, no penacho do rochedo. Era alta, morena e pálida. Os longos cabelos negros flutuavam sobre o vestido branco. Olhava direto em frente, com estranha firmeza. Eu me havia levantado, extasiado de admiração, porque aquela mulher, florescendo de repente no rochedo, parecia o próprio devaneio, o divino devaneio, que tantas vezes eu havia evocado com singular enlevo. Aproximei-me. Sem se mover, estendeu o braço nu e soberbo para o mar e, como que inspirada, cantou com voz suave e lamentosa. Eu a ouvia, assaltado por uma tristeza mortal, e repetia mentalmente as estrofes que deslizavam de seus lábios, como de uma fonte viva. Então ela se voltou para mim e fui como que envolvido pela sombra de suas alvas vestes. – Amigo, disse ela, escuta-me. Menos profundo é o mar de ondas inconstantes, menos implacáveis são os rochedos do que o amor, o cruel amor que dilacera um coração de poeta. Não escutes a sua voz, que se apodera de todas as seduções da onda, do ar, do sol, para estreitar, penetrar e queimar sua alma, que treme e deseja sofrer o mal do amor. Assim falava. Eu a ouvia e sentia o coração fundir-se numa divina ebriedade. Desejaria aniquilar-me no hálito puro que emanava de sua boca. – Não, continuou ela; amigo, não lutes contra o gênio que te domina. Deixa-te levar em suas ardentes asas pelas esferas radiosas. Esquece, esquece a paixão que te fará rastejar, a ti, águia destinada aos píncaros elevados. Escuta as vozes que te chamam aos celestes concertos. Alça o teu vôo, ave sublime; o gênio é solitário. Marcado pelo selo divino, não podes tornar-te escravo de uma mulher. Ela falava, a sombra avançava e o mar, de verde que era, tornara-se negro; o céu se vestia de trevas e os rochedos se perfilavam, sinistros. Mais radiosa ainda, parecia coroar-se de estrelas, que acendiam suas luzes cintilantes, enquanto sua túnica, alva como a espuma que açoitava a praia, desdobrava-se em pregas imensas. – Não me deixes, disse-lhe eu finalmente. Leva-me em teus braços; deixa que teus negros cabelos sirvam de laço para me reterem cativo; deixa-me viver em tua luz ou morrer à tua sombra. – Vem, então, retomou ela com voz clara, embora parecesse distante. Vem, já que preferes o devaneio, que entorpece o gênio, ao gênio, que esclarece os homens. Vem; não te deixarei mais; e feridos pelo golpe mortal, seguiremos enlaçados, como o grupo de Dante. Não temas que te abandone, ó meu poeta! O devaneio te consagra para a desgraça e para o desdém dos homens, que só bendirão teus cantos quando não mais se sentirem irritados ante o esplendor de teu gênio. Então senti que poderoso abraço me levantava do solo. Nada mais vi, a não ser as níveas vestes a me envolverem como uma auréola. E fui arrebatado pelo poder do devaneio, que me separava para sempre dos homens. Alfred de Musset
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Mês Setembro
Ano 1860
Revista Espírita - Pelo espírito  Alfred de Musset  através da codificação de Allan Kardec Alfred de Musset
Médium – Srta. Eugénie Na sessão da Sociedade do dia 23 de novembro, um Espírito comunicou-se espontaneamente, escrevendo o seguinte: Como desejo, antes de tudo, vos ser agradável, pergunto de que tema quereis que eu trate. Se tiverdes um assunto, perguntai. Enfim, Senhores, sou sempre o vosso dedicado. Alfred de Musset – Sendo vossa visita imprevista, não temos um assunto preparado. Pedimos, pois, que vos digneis de tratar um à vossa escolha. Seja qual for, ficaremos muito reconhecidos. – Tendes razão. Sim, porque meu Espírito, em particular, e nós todos, em geral, conhecemos melhor as vossas necessidades e melhor podemos escolher as comunicações, do que faríeis vós mesmos. “De que vou tratar? Sinto-me assaz embaraçado em meio a tantos assuntos interessantes. Comecemos por falar daqueles que desejam ardentemente ser espíritas, mas que parecem recuar diante do que julgam uma apostasia. Falemos, pois, para os que recuariam ante a idéia de se acharem em contradição com o catolicismo. Ouvi bem, digo catolicismo e não Cristianismo. Temeis renegar a fé de vossos pais? Erro! Vossos pais, os primeiros, os que fundaram essa religião sublime em sua origem, eram mais espíritas do que vós; pregavam a mesma doutrina que hoje vos ensinam. E quem diz: Espiritismo, como vossa religião, diz: caridade, bondade, esquecimento e perdão das injúrias. Como o catolicismo, ele vos ensina a abnegação de si mesmo. Podeis, pois, consciências timoratas, reuni-los e vir, sem escrúpulo, sentar-vos a esta mesa e conversar com os seres de quem sentis saudade. Como vossos pais, sede caridosos, bons, compassivos, e no fim da estrada tereis todos o mesmo lugar; no fim do caminho, a balança que pesará vossas ações terá os mesmos pesos e a obra o mesmo valor. Vinde sem temor, eu vos peço; vinde, mulheres graciosas, com o coração cheio de ilusões; vinde aqui, e estas serão substituídas por realidades mais belas e mais radiosas; vinde, esposa de coração duro, que sofreis a vossa aridez, aqui está a água que amolece a rocha e estanca a sede; vinde, mulheres amantes, que em toda a vossa vida aspirais à felicidade, que medis a profundidade de vosso coração e desesperais de preenchê-la; vinde, mulher de inteligência ávida, vinde: aqui a ciência corre clara e pura; vinde beber nesta fonte que rejuvenesce. E vós, velhos, que vos curvais, vinde e rireis na face de toda essa juventude que vos desdenha, porque, para vós, se abrem as portas do santuário, para vós o nascimento vai recomeçar e trazer a felicidade de vossos primeiros anos; vinde, e nós vos faremos ver os irmãos que vos estendem os braços e vos esperam; vinde, pois, todos, porque para todos há consolações. Vede que me presto de boa vontade; disponde de mim e me dareis prazer.” Aproveitando a boa vontade do Espírito Alfred de Musset, foram-lhe dirigidas as seguintes perguntas: 1o Qual será a influência da poesia no Espiritismo? Resp. – A poesia é o bálsamo que se aplica sobre as chagas. A poesia foi dada aos homens como o maná celeste, e todos os poetas são médiuns que Deus enviou à Terra para regenerar um pouco o seu povo e não deixar que se embruteçam completamente. Pois o que haverá de mais belo, que mais fale à alma que a poesia? 2o A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia foram, sucessivamente, influenciadas pelas idéias pagãs e cristãs. Podeis dizer se, depois das artes pagã e cristã, haverá um dia a arte espírita? Resp. – Fazeis uma pergunta que se responde por si mesma: o verme é verme, torna-se bicho da seda, depois borboleta. Que há de mais etéreo, de mais gracioso que uma borboleta? Pois bem! A arte pagã é o verme; a arte cristã o casulo; a arte espírita será a borboleta. [A respeito vide o artigo anterior sobre a arte pagã, a arte cristã e a arte espírita]. 3o Qual a influência da mulher no século dezenove? Nota – Esta pergunta foi feita por um jovem, estranho à Sociedade. Resp. – Ah! é o progresso. E é um jovem quem faz a pergunta; magnífico; eu mesmo seria muito amador para não deixar de responder, e estou certo de que todos o desejam também. A influência da mulher no século dezenove! Acreditais que ela tenha esperado esta época para que continueis a dominá-la, pobres e fracos homens que sois? Se tentastes aviltá-la, foi porque a temíeis; se tentastes abafar a sua inteligência, foi porque receastes a sua influência. Somente em seu coração não pudestes opor barreiras. E como o coração é o presente que Deus lhe deu em particular, continuou senhor e soberano. Mas eis que a mulher também se faz borboleta: ela quer sair de seu casulo; quer reconquistar seus direitos divinos; como aquela, lança-se na atmosfera e dir-se-ia que respira o ar em seu justo valor. Não julgueis que eu as queira transformar em eruditas, letradas, poetisas. Não; mas eu quero, querem aqui, no mundo em que habito, que aquela que deve elevar a Humanidade seja digna de seu papel; que aquela que deve formar os homens comece a se conhecer a si mesma e, para lhes infiltrar desde tenra idade o amor do belo, do grande, do justo, é necessário que ela possua esse amor num grau superior, é preciso que o compreenda. Se o agente educador por excelência for reduzido ao estado de nulidade, a sociedade vacilará. É o que deveis compreender no século dezenove.
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Mês Dezembro
Ano 1860
Revista Espírita - Pelo espírito  Alfred de Musset  através da codificação de Allan Kardec Poesias Espíritas – Alfred de Musset
O Sr. Timothée Trimm publicou, no Petit Journal de 23 de outubro de 1865, estrofes que um de seus amigos lhe havia ofertado, como tendo sido ditadas mediunicamente por Alfred de Musset a uma senhora de seu conhecimento, porque a loucura do Espiritismo ganha até os amigos desses senhores, que não ousam publicamente mandá-los para o hospício, sobretudo quando esses amigos são, como no caso, homens de notória inteligência, postos à testa da alta indústria artística. Sem dúvida em atenção a esse amigo, ele não denegriu tanto a procedência desses versos; contentou-se em os enquadrar numa fantasiosa encenação semiburlesca. Entre outras coisas dizia: “Nada invento; constato. Num castelo dos arredores de Paris, mandaram vir o autor de Kolla e de A taça e os lábios... a uma mesa. Pediram versos!!!... inéditos. Um secretário espírita sentou-se à carteira encantada; diz ter escrito sob o ditado de um imortal... e eis o que mostrou à assistência.” Na verdade, esses versos não foram obtidos num castelo dos arredores de Paris, nem por uma mesa, mas pela escrita ordinária; também não haviam chamado Alfred de Musset. Aos olhos do escritor, a idéia de trazer o poeta a uma mesa tinha, sem dúvida, algo de mais trivial em relação ao Espiritismo. Eis como as coisas se passaram. A Sra. X... é uma mulher do mundo, instruída como todas as que receberam educação, mas absolutamente não é poetisa. É dotada de poderosa faculdade mediúnica, psicográfica e vidente e, em muitas ocasiões, deu provas irrecusáveis da identidade dos Espíritos que se comunicam por seu intermédio. Tendo ido passar a bela estação com o marido, também fervoroso espírita, num chalezinho em meio às dunas do Departamento do Nord, uma noite se achava em seu balcão, sob magnífico luar, contemplando a abóbada celeste e a vasta extensão das dunas, num solene silêncio, que só era interrompido pelos ladridos do cão da casa, circunstância a notar, porque dão aos versos um cunho de atualidade. De repente ela se sentiu agitada, como que envolvida por um fluido e, sem desígnio premeditado, foi levada a tomar de uma pena; escreveu de um jacto, sem rasura nem hesitação, em alguns minutos, os versos em questão, com a assinatura de Alfred de Musset, no qual absolutamente não pensava. Nós os reproduzimos na íntegra. Era 1o de setembro de 1865. Pobre Espírito, eis-te aí, assim, Contemplando o dia e a noite, enfim, A triste duna, Não tendo pra te desenfadar, Senão esse cão que vem uivar À luz da luna. Quando te vejo só e agitada, Erguer para a abóbada estrelada Úmido olhar, Os tristes dias vêm-me à lembrança Que eu maldizia sem esperança De algo encontrar. Tal quanto em ti, sofrendo estou certo, Em chama neste imenso deserto Meu coração; Como pérola do mar no fundo, Um grito d’alma por todo o mundo Busquei em vão. Para a minha cabeça esfriar, Sob o céu da Itália a viajar Vivo em seguida; Têm-me visto Florença e Veneza, Entre moças de colo em nueza, Encher a vida. Por vezes o fraco pescador Em me vendo, qual criança, de dor, Chorar na praia, E parando, cheio de piedade, Esquecer as redes que à metade O mar espraia. Pobre menino, vem até nós; Pondo-o em seus joelhos com terna voz Lhe estanca o choro, Te levaremos a teu passeio Nas terras plenas de bom recreio Lá onde eu moro. Se nestes versos pra ti assim, Ainda preso e apesar de mim Esta feitura, É para sábios que zombam fundo, Trazer de minh’alma do outro mundo, A assinatura. Alfred de Musset Publicando esses versos, o Petit Journal fez várias alterações que lhes desnaturam o sentido e se prestam ao ridículo. Na primeira estrofe, 6o verso, em vez de: Au clair de lune, ele pôs: Au clair de la lune, o que estropia o verso e o torna grotesco. A segunda estrofe foi suprimida, o que rompe o encadeamento da idéia. Na terceira, 2o verso, em vez de: Ce grand désert, que pinta a localidade, pôs: Le grand désert. Na sexta, 5o verso, em vez de: Dans les terres pleines d’amour, que tem sentido, pôs: Dans les serres pleines d’amour, que não o tem. Tendo sido pedidas essas retificações, é lamentável que o Petit Journal se tenha recusado a inseri-las. Entretanto, o autor do artigo disse: “Nada invento; constato.” A propósito do romance do Sr. Théophile Gautier, intitulado Espírita, o mesmo Espírito ditou ao médium as estrofes seguintes, no dia 2 de dezembro de 1865: Eis-me aqui outra vez. Embora ter, Senhora, Jurado aos deuses que não rimaria mais. É muito triste ofício o que imprimir faz As obras de um autor que vem do além agora. Fui para longe de vós, mas, Espírito afável Arrisca-se a falar de nós com almo sorriso. Eu penso que ele sabe além do que é preciso, E que tenha encontrado a sua alma agradável. Uma alma do outro mundo! É estranho realmente; Eu mesmo já me ri quando aí me encontrava; Porém ao informar que não acreditava, Teria a me salvar um anjo clemente. Que amado eu o teria, à noite, na janela, Apoiada na mão a fronte em palidez, Quando a sondar, em pranto, esse grande talvez, Do espaço a percorrer a fúlgida aquarela! Amigos, que esperais de um século sem crença? Quando espremerdes pois vosso mais belo fruto, O homem sempre achará seu tumular reduto Se, para o sustentar, a esperança é indefensa. Mas meus versos, dirão, para eles não são. Que me importa, aliás, a censura é vulgar! Disso quando era vivo, eu não quis me ocupar; Hoje, eu riria, enfim, com mais forte razão. Alfred de Musset Eis a opinião sobre estes versos de um dos redatores do Monde illustré, Sr. Júnior, que não é espírita. (Vide o Monde illustré de 16 de dezembro de 1865). “O Sr. T. Gautier recebeu de uma senhora uma poesia assinada por Alfred de Musset, e que se poderia intitular: A uma dama espírita, que me havia pedido versos para o seu álbum. Evidentemente aquela dama pretendia, já que se trata de Espiritismo, de ter sido a intermediária, o médium obediente, cuja mão traçou os versos, ditados por Alfred de Musset, morto já há alguns anos. “Até aí tudo muito simples, porque, desde que se perscruta o infinito, todos os que acreditam no Espiritismo se voltam para vós e vos inundam de comunicações mais ou menos interessantes. Mas os versos assinados por Musset são tais que, aquele ou aquela que os traçou é um poeta de primeira ordem. É o jeito de Musset, sua linguagem encantadora, sua desenvoltura de cavalheiro, seu charme e seu estilo gracioso. Não é excessivo como o pastiche, não é intencional nem forçado; e se pensais que um mestre como T. Gautier se engana, é preciso que o quadro seja admiravelmente imitado. O lado curioso é que o honrado Sr. Charpentier, editor das obras completas de Musset, ao qual mandaram ler esses versos encantadores, que espero em breve vos comunicar, pôs-se a gritar: ‘Pega o ladrão!’ “Por certo presumis que não creio numa só palavra de tudo quanto narram os Allan Kardec e os Delaage, mas isto me perturba e me irrita; vejo-me constrangido a supor que esses versos são inéditos, são do poeta das Noites – o que é muito admissível, porque, enfim, sob que pretexto a dama em questão teria estes versos em sua gaveta? – ou então um poeta legítimo teria inventado esta mistificação, e os poetas não perdem assim as suas cópias. Qual, então, a solução possível? – Ouço daqui um homem prático dizer-me: ‘Meu caro senhor, quereis uma solução? Ela está em vossa imaginação, que exagera o alcance e a excelência desses versos; eles são bonitos e nada mais; e o primeiro médium um pouco pedante que conhece bem o seu Musset, fará outro tanto.” Senhor homem prático, tendes razão; isto ocorre em noventa e nove por cento dos casos. Mas se soubésseis a que ponto tenho o sangue-frio! Li esses versos, mas ainda não lhos posso mostrar; li, reli ainda, e garanto que o próprio Gautier, o grande lingüista, o grande escultor do Poema da mulher, não faria melhor Musset que este.” Observação – Há uma circunstância que o autor não leva em conta, e que tira toda possibilidade de que tais versos tenham sido feitos por Musset em vida: são as atualidades e as alusões às coisas presentes. Quanto ao médium, nem é poetisa, nem mulher pedante e, além disso, sua posição no mundo afasta qualquer suspeita de fraude.
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Mês Janeiro
Ano 1866
Revista Espírita - Pelo espírito  Alfred de Musset  através da codificação de Allan Kardec Para teu livro
(Sociedade de Paris, 11 de maio de 1866 – Médium: Sr. V...) Breve, criança, irás deixar O teto que te viu nascer, P’ra correr mundo e enfrentar Seus riscos, e talvez morrer Sem ter chegado ao teu destino. Ante o fugir à nossa instância, Tal como outrora, escuto o trino Da voz que te guiou na infância. Ai, ai! meu filho, em teu caminho Logo talvez dificuldade Te ferirá a mão com espinho, Que venenoso de verdade Fará coxear teu pé ferido, Mais de uma vez em tua sina. Que importa, então! Mais longe erguido, Seguirás luz que te ilumina, A marchar sempre, sempre avante; Sem tua pátria achar perdida, Teu lugarejo, o lar distante, E morrer sem chorar a vida, Se tinhas que perdê-la um dia, Pregando a todos por doutrina A caridade, a fé mais pia, Deveres só da lei divina; Em toda parte erradicando Falso saber, orgulho, egoísmo, Que amortalhar estão tentando O berço-luz do Espiritismo; Em repetindo isso que a voz De todos invisíveis mundos Parece revelar-te a sós Em seus murmúrios tão profundos; Sofrendo um século grosseiro, Que junta o insulto à injúria forte Quando te chama feiticeiro, Simples ledor da boa sorte; Em perdoando-lhe o desdém, Vai procurando, pela prece, Os seus amigos pô-los bem Em sua santa e humilde messe. E eu disse: Parte, filho, adeus; Tua tarefa é dificílima, Mas crê e espera em teu bom Deus, Ele a fará talvez facílima. Um Espírito poeta Na sessão seguinte, de 18 de maio, o mesmo médium escreveu espontaneamente o seguinte: Resposta a uma crítica a meus versos: Para o teu livro, feita um tanto levianamente, sexta-feira última, por um desconhecido que aqui não vejo esta noite. Numa misteriosa mata, Oculta na folhagem nata De lilás, todos os anos Na primavera ufanos Trinos se escutam de graciosa Toutinegra em canção chorosa. Do bosque vizinho Cada manhã vêm suaves Se colocar bem perto dela P’ra ouvir melhor o que revela Voz tão terna e acentuada, Com perfeição modulada, Com graça pura e indefinida. A multidão quase incontida Aplaudia a nobre diva Quando surge outro conviva, Um melro de plumagem negra De raiva a assobiar se alegra A monótona canção Que admirava sem razão. A toutinegra silencia, E diz-lhe, rindo, com ironia: Assobiais tão bem, tão bem deveis cantar. Não será um prazer então vos escutar? E o melro sem resposta, alou-se, foi-se embora. Por que? Adivinhai... Adeus! Vos deixo agora. Alfred de Musset
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Mês Junho
Ano 1866