CENTRAL DO ESPIRITISMO30 Quando a morte feria tão cruelmente a grande família espírita na pessoa de seu chefe venerado, todos nós perdíamos um guia eminente e devotado, consagrando na prática os princípios tão sábia e solidamente elaborados durante quinze anos de assíduo trabalho. A Sra. Allan Kardec perdia ainda mais, porque era privada inopinadamente do companheiro de toda a sua vida, do amigo dedicado a quem devia toda a sua felicidade. Ferida em suas mais caras afeições, por certo nada podia preencher o imenso vazio cavado ao seu lado pela partida do mestre; mas, se havia alguma coisa capaz de fortalecer sua coragem e suavizar as amarguras de sua saudade, era, com toda certeza, as inúmeras e calorosas marcas de simpatia que lhe foram dadas por todos os espíritas, da França e do estrangeiro, e que a tocaram profundamente.
Na impossibilidade material de responder a todos, mais uma vez ela nos encarrega de lhes transmitir aqui a expressão de seu vivo reconhecimento e de toda a sua gratidão.
Os testemunhos de que foi objeto são, para ela, estímulos poderosos e bem doces compensações, e que lhe ajudam a suportar as dificuldades e as fadigas de toda natureza, inseparáveis da pesada tarefa a que se impôs. Ninguém duvida de que, se ela só tivesse dado ouvidos aos seus interesses pessoais, poderia facilmente garantir a sua tranqüilidade e o seu repouso, deixando as coisas seguir por si mesmas e se mantendo à margem; mas, colocando-se de um ponto de vista mais elevado e, aliás, guiada pela certeza de que podia contar com o Sr. Allan Kardec, para continuar a via traçada, a obra moralizadora que foi o objeto de toda a sua solicitude durante os últimos anos de sua vida, ela não hesitou um só instante. Profundamente convicta da verdade dos ensinos espíritas, não poderia, diz ela, melhor empregar o tempo que ainda deve passar na Terra, antes de reunir-se no espaço com o coordenador por excelência da nossa consoladora filosofia, senão assegurando a vitalidade do Espiritismo no futuro.
Aliás, nas circunstâncias atuais, é evidente que lhe cabe, mais do que a qualquer outro, realizar material e moralmente, na medida do possível, os planos do Sr. Allan Kardec, pois só ela dispõe dos elementos indispensáveis para determinar solidamente as suas bases constitutivas.
Aos que se admirassem da aparente lentidão com que foram elaborados os seus planos, lembraríamos que a Sra. Allan Kardec teve que suportar as numerosas formalidades a que dão lugar as sucessões; que devia, assim como seus conselheiros, estudar com cuidado o espírito desses planos e se prender especialmente à execução das partes atualmente praticáveis, contando com o futuro para a sua realização integral, à medida que surgissem novas necessidades. Deixamos à apreciação de todos que têm o hábito dos negócios, a atividade real que ela precisou desdobrar para, em meio a dificuldades de toda ordem, elaborar um projeto que o Sr. Allan Kardec tencionava executar ao longo do tempo, com recursos intelectuais que nenhum de nós poderia dispor.
Decidida a agir, a Sra. Allan Kardec apressou-se em comunicar suas idéias a vários espíritas de Paris e da província, escolhidos entre os mais conceituados em Espiritismo, por seus atos e por seus dons, ou que tinham sido designados especialmente pelo Sr. Allan Kardec para o auxiliarem em seu trabalho quotidiano, a fim de constituírem a organização primitiva que ele desejara fundar pessoalmente.
É esta decisão, tomada em conjunto com aqueles senhores, que a Sra. Allan Kardec vem hoje tornar pública aos espíritas.
Após madura e séria deliberação, foi decidido que era mais urgente formar uma base de associação comercial, como o único meio legal possível para se conseguir fundar qualquer coisa durável.
Em conseqüência, ela estabeleceu, com o concurso de seis outros espíritas, uma sociedade anônima de capital variável, com duração de 99 anos, em conformidade com as previsões do Sr.
Allan Kardec, que há pouco se exprimia a respeito, nos seguintes termos (Revista de dezembro de 1868): “Para dar a esta instituição uma existência legal, ao abrigo de toda contestação, dar-lhe, além disso, o direito de adquirir, receber e possuir, ela será constituída, se for julgado necessário, por ato autêntico, sob forma de sociedade comercial anônima, por noventa e nove anos, prorrogável indefinidamente, com todas as estipulações necessárias para que jamais possa afastar-se de seu objetivo, e que os fundos não possam ser desviados de sua destinação.”
“Pág. 390. – A administração pode, no começo, organizar-se em menor escala; o número de membros da comissão poderá ser limitado provisoriamente a cinco ou seis, o pessoal e os gastos administrativos reduzidos ao mínimo possível, salvo para proporcionar o desenvolvimento pelo acréscimo dos recursos e das necessidades da causa.”
Se a Sra. Allan Kardec não propôs a um maior número de espíritas a fundação desta Sociedade, foi porque, salvo as razões enunciadas acima, a lei exige formalidades que implicam em deslocamentos e negociações sem número que, certamente, teriam retardado por longo tempo a sua constituição definitiva. Ela está certa de que, mais tarde, inúmeras adesões virão concorrer para a obra. Antes de tudo, era preciso estabelecer um centro de ligação, onde se pudessem reunir os recursos intelectuais e materiais espalhados no mundo inteiro. Estabelecido este centro, cabe aos que lhe compreenderem a urgência, e cujo ativo devotamento aos nossos princípios não pode ser posto em dúvida, assegurar o seu concurso em bases sólidas e indestrutíveis.
Estamos felizes por constatar que, longe dos milhões que teria adquirido com o Espiritismo, como tantas vezes o acusaram, foi com os seus próprios recursos, com o fruto dos seus labores e das suas vigílias, que o Sr. Allan Kardec proveu à maior parte das necessidades materiais de implantação do Espiritismo. A isso consagrou inteiramente o produto de suas obras, que, certamente, poderia dispor como justa remuneração por seus trabalhos, embora não desviasse nenhuma parcela em seu proveito pessoal. Os que o ajudaram a propagar as suas obras também contribuíram, indiretamente, para o desenvolvimento da Doutrina, já que o seu produto interessa ao Espiritismo, e não a um indivíduo.
Animada dos mesmos sentimentos e querendo concorrer pessoalmente para a obra, a Sra. Allan Kardec virá, por suas últimas disposições, aumentar ainda mais os recursos do fundo comum. Assim, ela terá dado nobremente o exemplo, cumprindo seu dever de espírita devotada e feliz por satisfazer aos desejos daquele cujos trabalhos e dificuldades ela compartilhou.
Com o fito de satisfazer ao legítimo desejo dos nossos leitores, julgamos um dever publicar na Revista diversos extratos do ato da Sociedade, visando, sobretudo, a tornar explícitas as cláusulas de interesse geral, de modo a não lhes deixar nenhuma dúvida quanto ao objetivo e à estabilidade da Sociedade.
Objetivo – Denominação – Duração – Sede da Sociedade A Sociedade Anônima tem por objetivo tornar conhecido o Espiritismo por todos os meios autorizados pelas leis.
Tem por base a continuação da Revista Espírita, fundada pelo Sr.
Allan Kardec, a publicação das obras deste último, aí inclusas as suas obras póstumas e todas as obras que tratam do Espiritismo.
Ela toma a denominação de: Sociedade Anônima sem fins lucrativos e de capital variável da Caixa Geral e Central do Espiritismo.
A duração da Sociedade é fixada em noventa e nove anos, a contar de sua constituição definitiva, que deve ocorrer no corrente mês de agosto.
Atualmente a sede da Sociedade é: 7, rue de Lille.
O fundo social, capital de fundação, é fixado em 40.000 francos. É susceptível de aumento, notadamente pela admissão de novos societários.
Esse capital, inteiramente subscrito a partir de hoje, está dividido em quarenta partes de 1000 francos cada uma.
A lei autoriza o aumento de capital na proporção de 200.000 francos por ano.
Em nenhum caso o fundo social poderá ser diminuído pela retomada total ou parcial das contribuições efetuadas.
Cada parte é indivisível, não reconhecendo a Sociedade senão um proprietário para cada uma delas.
Administração da Sociedade A Sociedade é administrada por uma comissão de três membros, no mínimo, nomeados pela assembléia-geral dos associados e escolhidos entre estes.
Os administradores devem ser proprietários, durante toda a duração de seu mandato, de pelo menos duas cotas partes, oferecidas como garantia de sua gestão e inalienáveis até a apuração final de suas contas.
A comissão é nomeada por seis anos, revogável pela assembléia-geral e reelegível indefinidamente.
Os administradores terão um honorário fixo de 2.400 francos por ano, e uma parte nos benefícios.
Esta parte de benefícios, mais o honorário fixo, jamais devem exceder a 4.000 francos.
Dos comissários-fiscais Anualmente é nomeada uma comissão de fiscais de no mínimo dois membros, entre os associados ou fora destes.
Eles comparecerão à sede social sempre que julgarem conveniente, tomando notas dos livros e dedicando-se ao exame das operações da Sociedade.
Eles convocam a assembléia-geral em caso de urgência.
Os recrutados fora da Sociedade têm voz deliberativa, exercendo, numa palavra, a fiscalização e fazendo os contatos determinados por lei com a assembléia-geral.
Das assembléias-gerais A assembléia-geral regularmente constituída representa todos os associados.