Sra. viúva Foulon
Espírito de Verdade - Sra. Viúva Foulon
(8 de fevereiro de 1865) Espontânea – Eis-me aqui entre vós, bem mais cedo do que pensava e felicíssima por vos rever, sobretudo agora que estais melhor e que em breve, assim espero, estareis completamente restabelecido. Mas quero que me dirijais as perguntas que vos interessam; responderei melhor. Sem isto, arrisco-me a falar convosco sem uma seqüência lógica, e é necessário que falemos de coisas puramente sérias. Não é, meu bom mestre espírita? P. – Cara Sra. Foulon, estou muito contente com a comunicação que destes outro dia, e com a promessa de continuar nossas conversas. Eu vos reconheci perfeitamente na comunicação; ali faláveis de coisas ignoradas do médium, e que não podiam vir senão de vós; depois, vossa linguagem afetuosa a nosso respeito é bem a de vossa alma amorosa. Mas há em vossa linguagem uma segurança, um aprumo, uma firmeza que não conhecia em vossa vida. Sabeis que a este respeito eu me permiti mais de uma admoestação em certas circunstâncias. Resp. – É verdade. Mas desde que me vi gravemente doente, recobrei a firmeza de espírito, perdida pelos desgostos e vicissitudes que, por vezes me tinham tornado medrosa quando encarnada. Disse de mim para mim: Tu és espírita; esquece a Terra; prepara-te para a transformação de teu ser e antevê, pelo pensamento a senda luminosa que tua alma deve seguir, ao deixar o corpo, e que a conduzirá, feliz e liberta, às esferas celestes onde viverás doravante. Dir-me-eis que era um tanto presunçoso de minha parte contar com a felicidade perfeita ao deixar a Terra; mas eu tinha sofrido tanto que devia ter expiado minhas faltas desta existência e das precedentes. Esta intuição não me havia enganado; foi ela que me deu coragem, calma e firmeza nos últimos instantes. Essa firmeza naturalmente aumentou quando vi, depois de morta, a realização das minhas esperanças. P. – Tende a bondade de descrever agora vossa passagem, o despertar e as primeiras impressões sentidas. Resp. – Sofri, mas meu Espírito foi mais forte do que o sofrimento material, que o desprendimento o fazia experimentar. Encontrei-me, após o supremo suspiro, em estado de síncope, sem a menor consciência de minha situação, não pensando em nada, e numa vaga sonolência, que não era o sono do corpo nem o despertar da alma. Fiquei assim bastante tempo; depois, como se saísse de um longo desfalecimento, despertei pouco a pouco entre irmãos que não conhecia. Eles me prodigalizaram cuidados e carícias; mostraram-me um ponto no espaço que parecia uma estrela brilhante e me disseram: “É para lá que virás conosco; não pertences mais à Terra.” Então recobrei a memória; apoiei-me neles e, como um grupo gracioso que se lança para esferas desconhecidas, mas com a certeza de lá encontrar a felicidade... subimos, subimos, e a estrela crescia. Era um mundo feliz, um mundo superior, onde vossa boa amiga vai, enfim, encontrar o repouso. Quero dizer o repouso em relação às fadigas corporais que suportei e às vicissitudes da vida terrena, mas não a indolência do Espírito, porque a atividade do Espírito é um prazer. P. – Deixastes definitivamente a Terra? Resp. – Deixo aqui muitos seres que me são caros para abandoná-la definitivamente. A ela voltarei, portanto, mas como Espírito, pois tenho uma missão a cumprir junto aos meus netos. Aliás, sabeis perfeitamente que nenhum obstáculo se opõe a que os Espíritos que estacionam nos mundos superiores à Terra venham visitá-la. P. – Parece que a posição em que estais pode enfra-quecer vossas relações com os que deixastes aqui. Resp. – Não, meu amigo; o amor aproxima as almas. Crede-me, pode-se estar na Terra mais próximo dos que atingiram a perfeição do que daqueles que a inferioridade e o egoísmo fazem rodopiar em torno da esfera terrestre. A caridade e o amor são dois motores de poderosa atração. São o laço que cimenta a união das almas ligadas uma a outra, laços persistentes, apesar da distância e dos lugares. Só há distâncias para os corpos materiais; ela não existe para os Espíritos. P. – Conforme o que dissestes na comunicação anterior, sobre os vossos instintos de artista e o desenvolvimento da arte espírita, eu pensava que, numa nova existência, seríeis um dos primeiros intérpretes. Resp. – Não. É como guia e Espírito protetor que devo dar provas ao mundo da possibilidade de fazer obras-primas na arte espírita. As crianças serão médiuns pintores e, na idade em que não se fazem senão esboços informes, elas pintarão, não as coisas da Terra, mas coisas dos mundos onde a arte atingiu toda a sua perfeição. P. – Que idéia fazeis agora de meus trabalhos relativos ao Espiritismo? Resp. – Acho que tendes encargo de almas e que o fardo é difícil de carregar; mas vejo o objetivo e sei que o atingireis. Ajudar-vos-ei, se possível, com meus conselhos de Espírito, a fim de que possais superar as dificuldades que vos serão suscitadas, induzindo-vos a tomar certas medidas adequadas a ativar, enquanto viverdes, o movimento renovador ao qual o Espiritismo conduz. Vosso amigo Demeure, unido ao Espírito de Verdade, vos prestará um concurso mais útil ainda; ele é mais sábio e mais sério do que eu; mas, como sei que a assistência dos Espíritos bons vos fortalece e sustenta em vosso labor, crede que o meu vos será assegurado sempre e em toda parte. P. – Poder-se-ia deduzir de algumas de vossas palavras que não me dareis uma cooperação muito ativa à obra do Espiritismo. Resp. – Enganai-vos. Mas eu vejo tantos outros Espí-ritos mais capazes do que eu para tratar desta importante questão, que um invencível sentimento de timidez me impede, agora, de vos responder conforme o vosso desejo. Talvez isto aconteça; terei mais coragem e ousadia, mas antes é preciso que os conheça melhor. Morri há somente quatro dias; ainda estou sob o encanto do deslumbramento que me rodeia. Não compreendeis, meu amigo? Não consigo expressar as novas sensações que experimento. Tive de violentar-me para subtrair-me da fascinação que sobre o meu ser exercem as maravilhas que admiro. Não posso senão bendizer e adorar a Deus em suas obras. Mas isto passará: os Espíritos me asseguram que logo estarei acostumada com todas essas magnificências, e que então poderei, com minha lucidez de Espírito, tratar todas as questões relativas à renovação terrestre. Depois pensai, sobretudo neste momento, que tenho uma família para consolar. O entusiasmo invadiu-me a alma, e espero que tenha passado um pouco para vos entreter com o Espiritismo sério, e não com o Espiritismo poético, que não é bom para os homens: não o compreenderiam. Adeus; até breve. De vossa boa amiga, que vos ama e sempre vos amará, pois é a vós, mestre, que ela deve a única consolação durável e verdadeira que experimentou na Terra. Viúva Foulon Observação – Todo espírita sério e esclarecido facil-mente tirará destas comunicações os ensinamentos que delas ressaltam. Só chamaremos a atenção para dois pontos. O primeiro é que este exemplo mostra a possibilidade de não mais se encarnar na Terra e passar daqui a um mundo superior, sem ser por isto separado dos seres afeiçoados que aqui deixamos. Aqueles, pois, que temem a reencarnação, por causa das misérias da vida podem destas se libertar, fazendo o que é preciso, isto é, trabalhando pelo seu melhoramento. Quem não quiser vegetar nas classes inferiores, deve instruir-se e trabalhar para subir de grau. O segundo ponto é a confirmação desta verdade: depois da morte estamos menos separados dos seres que nos são caros do que durante a vida. Há alguns dias apenas a Sra. Foulon, retida pela idade e pela enfermidade numa pequena cidade do sul, não tinha a seu lado senão uma parte da família. Como a maioria dos filhos e dos amigos estava longe, obstáculos materiais se opunham a que os pudesse ver tão freqüentemente quanto uns e outros o teriam desejado. O grande afastamento tornava mesmo a correspondência rara e difícil para alguns. Tão-logo desem-baraçada de seu pesado envoltório vai ao encontro de cada um e, sem afadigar-se, transpõe distâncias com a rapidez da eletricidade, os vê, assiste às suas reuniões íntimas, envolve-os com a sua proteção e pode, através da mediunidade, entreter-se com eles a cada instante, como quando viva. E dizer que a este pensamento consolador há gente que prefira uma separação indefinida! Nota – Recebemos muito tarde para poder reproduzir o interessante e minucioso artigo necrológico, publicado no Journal du Havre de 10 de fevereiro. Infelizmente, nosso número já estava composto e completo, pronto para ser impresso.
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Mês Março
Ano 1865