Teoria da Beleza (Obras Póstumas)
“Não sei o que a respeito pensarão as elegantes dos nossos dias, cujas espáduas cintilam de diamantes; quanto a mim, confesso-o, não me posso forrar a uma emoção profunda, ao pensar nesse primeiro esforço que o homem, mal diferenciado do bruto, fez para agradar à sua companheira, pobre e nua como ele, no seio de uma natureza inóspita, sobre a qual a sua raça há de reinar um dia. Oh! distanciados avós! se já sabíeis amar, com as vossas faces rudimentares, como poderíamos nós duvidar da vossa paternidade, ante esse sinal divino da nossa espécie? “É, pois, manifesto que aqueles humanos informes são nossos pais, uma vez que nos deixaram traços da sua inteligência e do seu amor, atributos essenciais que nos separam da besta. Podemos, então, examinando-os atentamente, despojados das aluviões que os cobrem, medir, como a compasso, o progresso físico que a nossa espécie realizou, desde o seu aparecimento na Terra. Ora, esse progresso, que, faz pouco, podia ser contestado pelo espírito de sistema e pelos prejuízos de educação, assume tal evidência que não há mais como deixar de o reconhecer e proclamar. “Alguns milhares de anos podiam permitir dúvidas, algumas centenas de séculos as dissipam irrevogavelmente... “...Quão jovens e recentes somos em todas as coisas! Ainda ignoramos o nosso lugar e o nosso caminho na imensidade do Universo e ousamos negar progressos que, por falta de tempo, ainda não puderam ser reconhecidos. Crianças que somos, tenhamos um pouco de paciência e os séculos, aproximando-nos da meta, nos revelarão esplendores que, no seu afastamento, escapam aos nossos olhos apenas entreabertos. “Mas, desde já, proclamemos em altas vozes, pois que a Ciência no-lo permite, o fato capital e consolador do progresso lento, mas seguro, do nosso tipo físico, rumo a esse ideal que os grandes artistas entreviram, graças às inspirações que o céu lhes envia, revelando-lhes seus segredos. O ideal não é produto ilusório da imaginação, um sonho fugitivo destinado a dar, de tempos a tempos, compensação às nossas misérias. É um fim assinado por Deus aos nossos aperfeiçoamentos, fim infinito, porque só o infinito, em todos os casos, pode satisfazer ao nosso espírito e oferecer-lhe uma carreira digna dele.” Destas judiciosas observações, resulta que a forma dos corpos se modificou em sentido determinado e segundo uma lei, à medida que o ser moral se desenvolveu; que a forma exterior está em relação constante com o instinto e os apetites do ser moral; que, quanto mais seus instintos se aproximam da animalidade, tanto mais a forma igualmente dela se aproxima; enfim, que, à medida que os instintos materiais se depuram e dão lugar a sentimentos morais, o envoltório material, que já não se destina à satisfação de necessidades grosseiras, toma formas cada vez menos pesadas, mais delicadas, de harmonia com a elevação e a delicadeza das idéias. A perfeição da forma é, assim, conseqüência da perfeição do Espírito: donde se pode concluir que o ideal da forma há de ser a que revestem os Espíritos em estado de pureza, a com que sonham os poetas e os verdadeiros artistas, porque penetram, pelo pensamento, nos mundos superiores. Diz-se, de há muito, que o semblante é o espelho da alma. Esta verdade, que se tornou axioma, explica o fato vulgar de desaparecerem certas fealdades sob o reflexo das qualidades morais do Espírito e o de, muito amiúde, se preferir uma pessoa feia, dotada de eminentes qualidades, a outra que apenas possui a beleza plástica. É que semelhante fealdade consiste unicamente em irregularidades de forma, mas sem excluir a finura dos traços, necessária à expressão dos sentimentos delicados. Do que precede se pode concluir que a beleza real consiste na forma que mais afastada se apresenta da animalidade e que melhor reflete a superioridade intelectual e moral do Espírito, que é o ser principal. Influindo o moral, como influi, sobre o físico, que ele apropria às suas necessidades físicas e morais, segue-se: 1o que o tipo da beleza consiste na forma mais própria à expressão das mais altas qualidades morais e intelectuais; 2o que, à medida que o homem se elevar moralmente, seu envoltório se irá avizinhando do ideal da beleza, que é a beleza angélica. O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um gato; mas, não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino.29 Daí o podermos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que os negros e os hotentotes. Mas, também pode ser que, para as gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas não os tomarão pelos de alguma espécie de animais. Lido que foi na Sociedade de Paris, este artigo se tornou objeto de grande número de comunicações, apresentando todas as mesmas conclusões. Transcreveremos apenas as duas seguintes, por serem as mais desenvolvidas: (Paris, 4 de fevereiro de 1869 – Médium: Sra. Malet) Ponderastes com acerto que a fonte primária de toda bondade e de toda inteligência é também a fonte de toda beleza. – possivelmente, mais ampla revisão, e que não tinham sido publicados pelo Codificador. O artigo “Teoria da Beleza”, que compõe esse acer-vo, esboçado por Kardec, fazia parte, por certo, desse material privado, reservado, ainda sob análise e observação, material que o Codificador julgou conveniente não publicar, seguramente, entre outras razões, por não estar convencido de que retratasse uma verdade. Todavia, esse acervo foi entregue aos seus continuadores, que houveram por bem reproduzi-lo parcialmente na Revista Espírita, a contar do mês de maio de 1869, antes de o publicarem integralmente em volume à parte, sob o título de Obras Póstumas, em 1890. Feitas essas considerações, pode-se concluir que, além de se tratar de simples ensaio, de mero esboço, esse material não chegou a ser submetido ao critério da universalidade e da concordância. (O Evangelho se-gundo o Espiritismo, “Introdução”, item II: Controle universal do ensino dos Espíritos.) É razoável, portanto, admitir-se que o Codificador te-nha optado por não os publicar, aguardando o indispensável amadure-cimento do assunto e o eventual aprimoramento e correção do texto. Não obstante, é possível que os seus continuadores, na busca de textos para alimentarem as sucessivas edições da Revista Espírita, não se tenham apercebido da profundidade dos critérios adotados por Allan Kardec na publicação de seus trabalhos, a despeito dos nobres propósitos que os norteavam, quais sejam os de dar continuidade ao trabalho encetado pelo Codificador. Finalmente, ao não lhes dar publicidade, quando encarnado, mais uma vez se patenteia o bom senso, a lógica, o zelo, a prudência e a humildade de Allan Kardec. Assim, é com senso crítico, madureza e serenidade que nos cabe analisar o assunto que acabamos de abordar. O amor gera a beleza de todas as coisas, sendo, ele próprio, a perfeição. – O Espírito tem por dever adquirir essa perfeição, que é a sua essência e o seu destino. Ele tem que se aproximar, por seu trabalho, da inteligência soberana e da bondade infinita; tem, pois, também que revestir a forma cada vez mais perfeita, que caracteriza os seres perfeitos. Se, nas vossas sociedades infelizes, no vosso globo ainda mal equilibrado, a espécie humana está tão longe dessa beleza física, é porque a beleza moral ainda está em começo de desenvolvimento. A conexão entre essas duas belezas é fato certo, lógico e do qual já neste mundo a alma tem a intuição. Com efeito, sabeis todos quão penoso é o aspecto de uma encantadora fisionomia, cujo encanto, porém, o caráter desmente. Se ouvis falar de uma pessoa de mérito comprovado, logo lhe atribuís os mais simpáticos traços e ficais dolorosamente impressionados, quando verificais que a realidade desmente as vossas previsões. Que concluir daí, senão que, como todas as coisas que o futuro guarda de reserva, a alma tem a presciência da beleza, à medida que a Humanidade progride e se aproxima do seu tipo divino. Não busqueis tirar, da aparente decadência em que se acha a raça mais adiantada deste globo, argumentos contrários a essa afirmação. Sim, é verdade que a espécie parece degenerar, abastardar-se; sobre vós se abatem as enfermidades antes da velhice; mesmo a infância sofre as moléstias que habitualmente só se manifestam noutra idade da vida. É isso, no entanto, simples transição. A vossa época é má; ela acaba e gera: acaba um período doloroso e gera uma época de regeneração física, de adiantamento moral, de progresso intelectual. A nova raça, de que já falei, terá mais faculdades, mais recursos para os serviços do espírito; será maior, mais forte, mais bela. Desde o princípio, por-se-á de harmonia com as riquezas da Criação que a vossa raça, descuidosa e fatigada, desdenha ou ignora. Ter-lhes-eis feito grandes coisas, das quais ela aproveitará, avançando pela estrada das descobertas e dos aperfeiçoamentos, com um ardor febril cujo poder desconheceis. Mais adiantados também em bondade, os vossos descendentes farão desta infeliz terra o que não haveis sabido fazer: um mundo ditoso, onde o pobre não será repelido, nem desprezado, mas socorrido por vastas e liberais instituições. Já desponta a aurora dessas idéias; chega-nos, por momentos, a claridade delas.
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Mês Agosto
Ano 1869