Semelhantes momentos do tálamo conjugal são sublimes e invioláveis nos lares em bases retas. Você sabe que a fecundação do óvulo materno somente se verifica algumas horas depois da união genesíaca. O elemento masculino deve fazer extensa viagem, antes de atingir o seu objetivo. E, sorrindo, acrescentou:
— Temos tempo. Compreendi a delicadeza dos esclarecimentos e, sequioso de informações referentes ao assunto, interroguei:
— Com relação às uniões sexuais, de acordo com o seu parecer, todas elas são invioláveis?
— Isto não, — aduziu o instrutor, atencioso, — você não deve esquecer que aludi aos “lares em bases retas”. Todos os encarnados que edificam o ninho conjugal, sobre a retidão, conquistam a presença de testemunhas respeitosas, que lhes garantem a privatividade dos atos mais íntimos, consolidando-lhes as fronteiras vibratórias e defendendo-as contra as forças menos dignas, tomando, por base de seus trabalhos, os pensamentos elevados que encontram no ambiente doméstico dos amigos; não ocorre o mesmo, entretanto, nas moradias cujos proprietários escolhem baixas testemunhas espirituais, buscando-as em zonas inferiores. A esposa infiel aos princípios nobres da vida em comum e o esposo que põe sua casa em ligação com o meretrício, não devem esperar que seus atos afetivos permaneçam coroados de veneração e santidade. Suas relações mais íntimas são objeto de participação das desvairadas testemunhas que escolheram. Tornam-se vítimas inconscientes de grupos perversos, que lhes partilham as emoções de natureza fisiológica, induzindo-as à mais dolorosa viciação. Ainda que esses cônjuges infelizes estejam temporariamente catalogados no pináculo das posições sociais humanas, não poderão trair a miserável condição interior, sequiosos que vivem de prazeres criminosos, dominados de estranha e incoercível volúpia. A resposta impressionante de Alexandre surpreendeu-me. Compreendi com mais intensidade que cada um de nós permanece com a própria escolha de situação, em todos os lugares. Todavia, nova questão surgia-me no cérebro e procurei movimentá-la, para melhor aclarar o raciocínio.
— Entendo a magnitude de suas elucidações, — afirmei, respeitoso.
— Entretanto, considerando o perigo de certas atitudes inferiores dos que assumem o compromisso da fundação de um lar, que condição, por exemplo, é a da esposa fiel e devotada, ante um marido desleal e aventureiro, no campo sexual? Permanecerá a mulher nobre e santa à mercê das criminosas testemunhas que o homem escolheu?
— Não! — Disse ele, veemente, — o mau não pode perturbar o que é genuinamente bom. Em casos dessa espécie, a esposa garantirá o ambiente doméstico, embora isto lhe custe as mais difíceis abnegações e pesados sacrifícios. Os atos que lhe exijam a presença enobrecedora são sagrados, ainda que o companheiro, na vida comum, se tenha colocado em nível inferior aos brutos. Em situações como essa, no entanto, o marido imprevidente torna-se paulatinamente cego à virtude e converte-se por vezes no escravo integral das entidades perversas que tomou por testemunhas habituais, presentes em todos os seus caminhos e atividades fora do santuário da família. Chegado a esse ponto, é muito difícil impedir-lhe a queda nos desfiladeiros fatais do crime e das trevas.
— Oh! Meu Deus! — Exclamei, — quanto trabalho esperando o concurso das almas corajosas! Quanta ignorância a ser vencida!… — Você diz bem, — acrescentou o orientador, gravemente, — porque, de fato, a maioria das tragédias conjugais se transferem para além-túmulo, criando pavorosos infernos para aqueles que as viveram na Crosta do Mundo. É muito doloroso observar a extensão dos crimes perpetrados na existência carnal e ai dos desprevenidos que não se esforçam, a tempo, no sentido de combater as paixões baixas! Angustioso lhes é aqui o despertar!… Calei-me e Alexandre, pensativo, entrou também em silêncio profundo, dando-me a entender suas admiráveis faculdades de concentração. Eram aproximadamente vinte e duas horas, quando nos pusemos a caminho da residência de Raquel. A pequena família acabava de recolher-se. Herculano e os demais receberam-nos com inequívocas demonstrações de carinho. O chefe dos Construtores dirigiu-se ao meu instrutor, nestes termos:
— Esperávamos pela sua colaboração para iniciarmos o serviço magnético no paciente. Passamos, em seguida, à pequena câmara, onde Segismundo repousava. Permanecia ele aflito, de olhar triste e vagueante. Não pude sopitar uma interrogação:
— Por que motivo Segismundo sofre tanto? — Indaguei de Alexandre, em tom discreto.
— Desde muito, e, particularmente, desde a semana passada, está em processo de ligação fluídica direta com os futuros pais. Herculano está encarregado de ajudá-lo nesse trabalho. À medida que se intensifica semelhante aproximação, ele vai perdendo os pontos de contato com os veículos que consolidou em nossa Esfera, através da assimilação dos elementos de nosso Plano. Semelhante operação é necessária para que o organismo perispiritual possa retomar a plasticidade que lhe é característica e, no estágio em que ele se encontra, o serviço impõe-lhe sofrimentos. A observação era muito nova para mim e continuei indagando:
— Mas o organismo perispiritual de Segismundo não é o mesmo que ele trouxe da Crosta, ao desencarnar pela última vez?
— Sim, — concordou o orientador, — tem a mesma identidade essencial; todavia, com o curso do tempo, em vista de nova alimentação e novos hábitos em meio muito diverso, incorporou determinados elementos de nossos Círculos de vida, dos quais é necessário se desfaça a fim de poder penetrar, com êxito, a corrente da vida carnal. Para isto, as lutas das ligações fluídicas primordiais com as emoções que lhes são consequentes desgastam-lhe as resistências dessa natureza, salientando-se que, nesta noite, faremos a parte restante do serviço, mobilizando, em seu auxílio, nossos recursos magnéticos.
— Oh! — Disse eu, — não teremos aqui um fato semelhante à morte física na Crosta? Alexandre sorriu e aquiesceu:
— Sem dúvida, desde que consideremos a morte do corpo carnal como simples abandono de envoltórios atômicos terrestres. Reconheci, porém, que a hora não comportava longas dissertações, e, vendo que o meu bondoso instrutor fixava a atenção nos Construtores, abstive-me de novas interrogações. Seguido pelos amigos, Alexandre aproximou-se de Segismundo e falou-lhe, bem-humorado:
— Então? Mais forte? E, acariciando-lhe a face, acrescentou:
— Você deve estar satisfeito: é chegado o momento decisivo. Todas as nossas expressões de reconhecimento a Deus são insignificantes, diante da nova oportunidade recebida.
— Sim… — Falou Segismundo, arquejante, — estou grato… não se esqueçam de mim… com o auxílio necessário. E olhando angustiosamente para o meu orientador, observou, inquieto:
— Tenho receio… muito receio… Alexandre sentou-se paternalmente ao lado dele e disse-lhe, conselheiralmente:
— Não asile o monstro do medo no coração. A hora é de confiança e coragem. Ouça, Segismundo! Se você guarda alguma preocupação, divida conosco os seus pesares, fale de tudo o que constitua dificuldade em seu íntimo! Abra sua alma, querido amigo! Lembre-se de que o instante da passagem definitiva de Plano se aproxima. Torna-se indispensável manter o pensamento puro, lavado de todos os detritos! O interlocutor deixou cair algumas lágrimas e conversou com esforço:
— Sabe que empreendi pequenina obra de socorro, nas cercanias de nossa colônia espiritual… A obra foi autorizada pelos nossos Maiores e… apesar do bom funcionamento… sinto que não está terminada e que tenho em sua estrutura grandes responsabilidades… não sei se fiz bem… pedindo agora o retorno à Crosta do Mundo, antes de consolidar meu trabalho… entretanto… reconheci que para seguir além… precisava reconciliar-me com a própria consciência, buscando os adversários de outro tempo… a fim de resgatar minhas faltas… E enquanto o instrutor e os demais amigos o acompanhavam, em silêncio, Segismundo prosseguia:
— Foi por isto… que insisti tanto pela obtenção de minha volta… como poderia induzir os outros à plena conversão espiritual… diante dos ensinamentos do Cristo… sem haver pago minhas próprias dívidas? como ensinar aos irmãos sofredores… sofrendo eu mesmo… dolorosas chagas em virtude do passado cruel? Agora, porém… que se aproxima o recomeço difícil… tortura-me o receio de errar novamente… Quando Raquel e Adelino voltaram… prometeram-me amparo fraternal e estou certo… de que serão dois benfeitores para mim… no entanto… afligem-me receios e ansiedades ante o futuro desconhecido… Valendo-se da pausa que se fizera naturalmente, Alexandre tomou a palavra, com franqueza e otimismo:
— Não adianta inquietar-se tanto, meu amigo! Desprenda-se de suas criações aqui. Todas as nossas obras, efetuadas de acordo com as leis divinas, sustentam-se por si mesmas e esperam-nos em qualquer tempo para a colheita de saborosos frutos de alegria eterna. Somente o mal está condenado à destruição e apenas o erro necessita laboriosos processos de retificação. Esteja, portanto, calmo e feliz. Sua insistência pelo regresso atual aos Círculos terrenos foi muito bem lembrada. O resgate do desvio de outra época concederá ao seu Espírito uma luz nova e mais brilhante. Persevere no seu propósito. Valer-se da escola, receber-lhe a orientação sublime, assenhorear-se-lhe dos benefícios, representa a maior felicidade do aluno fiel. Assim, pois, Segismundo, a sua felicidade de voltar agora à Esfera carnal é muito grande.