Observação – O que leva a perder muitos médiuns é o fato de se julgarem os únicos capazes de receber boas comu-nicações e desprezarem as dos outros. Julgam que são profetas, quando não passam de intérpretes de Espíritos astuciosos que os enlaçam em suas redes, persuadindo-os de que tudo quanto escrevem é sublime e não mais precisam de conselhos. A crença de certos médiuns na infalibilidade e na superioridade de suas comunicações é tal, que nelas tocar é quase uma profanação; delas duvidar é quase uma injúria; mais ainda: é até expor-se a deles fazer inimigos, porquanto mais valeria dizer a um poeta que os seus versos são maus. Esse sentimento, que tem por princípio evidente o orgulho, é alimentado pelos Espíritos que os assistem e que têm muito cuidado em lhes inspirar o afastamento de quem quer que os possa esclarecer. Só isto deveria ser suficiente para lhes abrir os olhos, caso não estivessem fascinados. Há um princípio, que ninguém poderia contestar: os Espíritos bons só aconselham o bem. Portanto, tudo quanto não for o bem, no sentido absoluto, não pode provir de um Espírito bom. Conseqüentemente, todo conselho ditado, ou todo sentimento inspirado, que reflita o menor pensamento mau, é, por isso mesmo, de origem suspeita, sejam quais forem as qualidades ou a redundância do estilo.
Um sinal não menos característico dessa origem é a lisonja, de que os Espíritos maus são pródigos em relação a certos médiuns. A propósito, sabem exaltar os dotes físicos ou as qualidades morais, afagar as secretas inclinações, excitar a cobiça e a cupidez e, mesmo censurar o orgulho e aconselhar a humildade, agrilhoar-lhes a vaidade e o amor-próprio. Um dos meios que empregam consiste, sobretudo, em convencê-los de sua superioridade como médiuns, apresentando-os como apóstolos de missões, pelo menos duvidosas, e para as quais a primeira de todas as qualidades seria a humildade, unida à simplicidade e à caridade.
Fascinados pelo nome de seres venerados, dos quais se julgam intérpretes, não percebem as verdadeiras intenções dos falsos Espíritos, mau grado seu, porquanto seria impossível a Espíritos inferiores simular completamente todas as qualidades que não possuem. Os médiuns não se libertarão verdadeiramente da obsessão de que são alvo senão quando compreenderem esta verdade. Só então os Espíritos maus, por seu lado, compreenderão que perdem tempo com pessoas que não poderiam pegar em falta.
Sociedade, 25 de maio de 1860 30. Ao que parece, vosso marido possui a faculdade da vidência. Ele a tem realmente?
Resp. – Sim, positivamente.
31. Diz ele vos ter visto duas vezes após vossa morte.
Isto é verdade?
Resp. – É bem verdade.
32. Os médiuns videntes estão expostos a ser enganados pelos Espíritos impostores, como os médiuns escreventes?
Resp. – São enganados menos vezes que os médiuns escreventes, mas igualmente podem sê-lo, pelas falsas aparências, quando não são inspirados por Deus. Sob os Faraós, ao tempo de Moisés, os falsos profetas não faziam milagres que enganavam o povo? Só Moisés não se enganava, porque era inspirado por Deus.
33. Poderíeis explicar-nos agora vossas sensações, ao entrardes no mundo dos Espíritos? Além da perturbação mais ou menos longa que sempre acompanha a morte, houve um instante em que vosso Espírito perdeu toda a consciência de si mesmo?
Resp. – Sim, como sempre; impossível ser de outro modo.
34. Essa perda absoluta de consciência começou antes do instante da morte?
Resp. – Começou na agonia.
35. Persistiu após a morte?
Resp. – Por muito pouco tempo.
36. Ao todo, quanto tempo pode ter durado?
Resp. – Cerca de quinze a dezoito de vossas horas.
37. Essa duração é variável, conforme os indivíduos?
Resp. – Certamente. Não é a mesma em todos os homens; depende muito do gênero de morte.
38. Enquanto se consumava o fenômeno da morte, tínheis consciência do que se passava com o corpo?
Resp. – Absolutamente. Deus, que é bom para todas as suas criaturas, quer poupar ao Espírito as angústias desse momento. Eis por que lhe tira toda lembrança e toda sensação.
Observação – Este fato, que nos tem sido sempre con-firmado, é análogo ao que se passa na volta do Espírito ao mundo corporal. Sabe-se que, desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar o corpo que deve nascer é tomado por uma perturbação, que vai crescendo à medida que os laços fluídicos, que o unem à matéria, se apertam, até as proximidades do nascimento.
Neste momento, perde igualmente toda a consciência de si mesmo e só começa a recobrar as idéias no momento em que a criança respira. Somente então a união entre o Espírito e o corpo é completa e definitiva.
39. Como se operou o instante do despertamento? Vós vos reconhecestes subitamente ou houve um momento de semiconsciência, isto é, um vazio nas idéias?
Resp. – Permaneci nesse estado durante alguns instantes; depois, pouco a pouco, eu me reconheci.
40. Quanto tempo durou esse estado?
Resp. – Não sei exatamente; mas, pouco tempo. Creio que cerca de duas horas.
41. Durante essa espécie de meio sono, experimentastes uma sensação agradável ou penosa?
Resp. – Não sei; quase não tinha consciência de mim mesma.
42. À medida que vossas idéias clareavam, tínheis a certeza da morte do corpo, ou julgastes por um instante ainda estar neste mundo?
Resp. – Realmente o julguei, durante alguns instantes.
43. Quando tivestes a certeza da morte, sentistes pesar?
Resp. – Não, absolutamente. A vida não é para se lamentar.
44. Quando vos reconhecestes, onde vos encontráveis, e o que vos feriu primeiramente a vista?
Resp. – Encontrei-me com Espíritos que me rodeavam e me auxiliavam a sair da perturbação. Foi essa mudança que me impressionou.
45. Vós vos encontrastes junto ao vosso marido?
Resp. – Eu pouco o deixo. Ele me vê, evoca-me, e isto substitui meu pobre corpo.
46. Fostes rever imediatamente as pessoas que tínheis conhecido: o Sr. Dumas e os outros espíritas de Sétif ?
Resp. – R. Não; não imediatamente. Pensei que me evocariam; não havia muito que os havia deixado, mas encontrei alguns que conhecera e que não via há séculos. Eu era médium e espírita. Todos os Espíritos que eu havia evocado vieram receber-me. Isto me sensibilizou. Se soubésseis como é agradável reencontrar os amigos neste mundo!
47. O mundo dos Espíritos vos pareceu uma coisa estranha e nova?
Resp. – Oh! sim.
48. Esta resposta nos surpreende, porque não é a primeira vez que vos achais no mundo dos Espíritos.
Resp. – R. Isto nada tem que deva surpreender. Eu não era tão adiantada quanto hoje; e, depois, a diferença entre o mundo corporal e o mundo dos Espíritos é tão grande que haverá de surpreender sempre.
49. Vossa explicação poderia ser mais clara. Isto não resultaria dos progressos realizados pelo Espírito, cada que vez que retorna ao mundo espiritual, ensejando-lhe percepções novas que o levam a encarar esse mundo sob outro aspecto?
Resp. – É bem isto. Eu vos disse que não era tão adiantada quanto hoje.
Observação – A seguinte comparação permite compreen-der o que se passa em tal circunstância. Suponhamos que um pobre camponês venha a Paris pela primeira vez; freqüentará uma sociedade, residirá num bairro compatível com a sua situação.
Depois de uma ausência de vários anos, durante os quais tivesse ficado rico e adquirido certa educação, retorna a Paris e se encontra num meio completamente diverso do da primeira vez, e que lhe parecerá novo. Compreenderá e apreciará uma porção de coisas que apenas havia despertado sua atenção da primeira vez. Numa palavra, terá dificuldade em reconhecer sua antiga Paris e, no entanto, será sempre Paris, embora se lhe apresente sob um aspecto novo.
50. Como julgais agora as comunicações que são recebidas em Sétif ? São, em geral, melhores ou piores?
Resp. – São como em toda parte: há boas e más, verdadeiras e falsas. Muitas vezes se ocupam de coisas que não são bastante sérias nem consideradas com acerto. Mas não julgam fazer mal. Tentarei corrigi-los.
51. Agradecemos a vossa presença e as explicações que houvestes por bem nos dar.
Resp. – Também vos agradeço por terdes pensado em mim.