Quando a crítica se dirige a tais abusos, nada temos a refutar, mas apenas respondemos: “Se vos désseis ao trabalho de estudar o Espiritismo, saberíeis o que ele diz e não o acusaríeis daquilo que ele condena.” Assim, cabe aos espíritas sinceros evitar cuidadosamente tudo quanto possa dar lugar a uma crítica fundada; e certamente o conseguirão, se se aterem aos preceitos da doutrina.
Não é porque uma reunião se intitula grupo, círculo ou sociedade espírita que, necessariamente deve ter a nossa simpatia; a etiqueta jamais foi garantia absoluta da qualidade da mercadoria. Mas, segundo a máxima: “Conhece-se a árvore pelo seu fruto”, nós a apreciamos em razão dos sentimentos que a animam, do móvel que a dirige, e a julgamos por suas obras.
A Sociedade de Paris se congratula quando pode inscrever, na lista de seus aderentes, reuniões que oferecem todas as garantias desejáveis de ordem, boas maneiras, sinceridade, devotamento e abnegação pessoal e os pode oferecer como modelos aos seus irmãos em crença.
A posição da Sociedade de Paris é, pois, exclusivamente moral e ela jamais ambicionou outra. Aqueles nossos antagonistas que pretendem que todos os espíritas são tributários; que ela se enriquece à sua custa, extorquindo-lhes dinheiro em seu proveito; que calculam seu lucro pelo número de adeptos, ou dão provas de má-fé ou da mais absoluta ignorância daquilo de que falam. Sem dúvida ela tem por si a consciência, mas tem a mais, para confundir a impostura, os seus arquivos, que testemunharão sempre a verdade, assim no presente como no futuro.
Sem desígnio premeditado e pela força das coisas, a Sociedade tornou-se um centro para onde convergem ensinamentos de toda natureza concernentes ao Espiritismo. Sob esse aspecto, ela se acha numa posição que poderíamos dizer excepcional, pelos elementos que possui para assentar a sua opinião. Melhor que ninguém, pode ela, pois, conhecer o estado real do progresso da doutrina em cada país e apreciar as causas locais que possam favorecê-la ou retardar o seu desenvolvimento.
Essa estatística não será um dos elementos menos preciosos da história do Espiritismo, permitindo, ao mesmo tempo, que se estudem as manobras de seus adversários e se calculem a extensão dos golpes desferidos para o derrubar. Bastaria esta observação para permitir prever o resultado definitivo e inevitável da luta, como se julga o desfecho de uma batalha pelo movimento dos dois exércitos.
A propósito, pode dizer-se com inteira verdade que estamos na primeira linha para observar, não só a tática dos homens, mas, também, a dos Espíritos. Com efeito, vemos da parte destes uma unidade de vistas e de plano sábia e providencialmente combinada, diante da qual devem quebrar-se, forçosamente, todos os esforços humanos, porque os Espíritos podem atingir os homens e os ferir, ao passo que escapam destes últimos. Como se vê, a partida é desigual.
A história do Espiritismo moderno será uma coisa realmente curiosa, porque será a da luta entre o mundo visível e o mundo invisível. Os Antigos teriam dito: A guerra dos homens contra os deuses. Será também a luta dos fatos, mas, sobretudo e forçosamente, a dos homens que neles tiverem representado um papel ativo, num como noutro sentido, de verdadeiros sustentáculos, como adversários da causa. É preciso que as gerações futuras saibam a quem deverão um justo tributo de reconhecimento; é preciso que consagrem a memória dos verdadeiros pioneiros da obra regeneradora e que não haja glórias usurpadas.
O que dará a essa história um caráter particular é que, em vez de ser feita, como muitas outras, dos anos ou dos séculos fora do tempo, com fé na tradição e na lenda, ela se faz à medida que os eventos acontecem, baseando-se em dados autênticos, o mais vasto e completo arquivo existente no mundo, que possuímos, proveniente de correspondência incessante, vinda de todos os países onde se implanta a doutrina.
Sem dúvida o Espiritismo, em si mesmo, não pode ser atingido pelas alegações mentirosas de seus adversários, com o auxílio das quais procuram deturpá-lo; contudo, poderiam dar falsa idéia de seus primórdios e de seus meios de ação, desnaturando os atos e o caráter dos homens que nele tiverem cooperado, se não se desse a contrapartida oficial. Esses arquivos serão, para o futuro, a luz que dissipará todas as dúvidas, a mina onde os comentadores futuros poderão colher com certeza. Como vedes, senhores, esse trabalho é de grande importância no interesse da verdade histórica; a nossa própria Sociedade nele está interessada, em razão da parte que ocupa no movimento.
Há um provérbio que diz: “A nobreza obriga.” A posição da Sociedade lhe impõe obrigações para conservar seu crédito e seu ascendente moral. A primeira é não se afastar, quanto à teoria, da linha seguida até hoje, pois já recolhe seus frutos; a segunda está no bom exemplo que deve dar, justificando, pela prática, a excelência da doutrina que professa. Sabe-se que este exemplo, provando a influência moralizadora do Espiritismo, é um poderoso elemento de propaganda e, ao mesmo tempo, o melhor meio de fechar a boca dos detratores. Um incrédulo, que da doutrina só conhece a filosofia, dizia que com tais princípios o espírita necessariamente deveria ser um homem de bem. Estas palavras são profundamente verdadeiras; mas, para serem completas, é preciso acrescentar que o verdadeiro espírita deve ser, necessariamente, bom e benevolente para com os seus semelhantes, isto é, praticar a caridade evangélica em sua mais vasta acepção.
É a graça que todos devemos pedir que Deus nos conceda, tornando-nos dóceis aos conselhos dos Espíritos bons que nos assistem. Peçamos igualmente a estes que continuem a nos proteger durante o ano que se inicia e que nos dêem a força de nos tornarmos dignos deles. É o meio mais seguro de justificar e conservar a posição que a Sociedade conquistou.
A. K.