Criações Fantásticas da Imaginação – As visões da Sra. Cantianille B...
Em nosso mundo, tudo é matéria tangível. No mundo invisível tudo é, se assim nos podemos exprimir, matéria intangível, isto é, intangível para nós que apenas percebemos por órgãos materiais, mas tangível para os seres desse mundo, que percebem por sentidos espirituais. Tudo é fluídico nesse mundo, homens e coisas, e as coisas fluídicas aí são tão reais, relativamente, quanto o são para nós as coisas materiais. Eis um primeiro princípio. O segundo princípio está nas modificações que o pensamento faz sofrer o elemento fluídico. Pode-se dizer que o modela à vontade, como modelamos uma porção de terra para dela fazer uma estátua; apenas sendo a terra uma matéria compacta e resistente, para a manipular é preciso um instrumento resistente, enquanto a matéria etérea sofre sem esforço a ação do pensamento. Sob essa ação, ela é susceptível de revestir todas as formas e todas as aparências. É assim que se vêem os Espíritos ainda pouco desmaterializados apresentar-se como tendo na mão os objetos que tinham em vida, revestir-se com as mesmas roupas, usando os mesmos ornamentos e tomando, à vontade, as mesmas aparências. A rainha de Oude, cuja entrevista publicamos na Revista de março de 1858, sempre se via com suas jóias e dizia que estas jamais a haviam deixado. Para isto basta-lhes um ato do pensamento, sem que, o mais das vezes, se dêem conta da maneira pela qual a coisa se opera, como entre os vivos muita gente anda, vê e ouve sem poder dizer como e por quê. Tal estava ainda o Espírito do zuavo de Magenta (Revista de julho de 1859), que dizia ter seu mesmo traje e que, quando lhe perguntavam onde o tinha obtido, pois o seu havia ficado no campo de batalha, respondia: Isto é com meu alfaiate. Citamos vários fatos deste gênero, entre outros o do homem da tabaqueira (agosto de 1859) e o de Pierre Legay (novembro de 1864), que pagava seu lugar no ônibus. Essas criações fluídicas por vezes podem revestir, para os vivos, aparências momentaneamente visíveis e tangíveis, porque se devem, na realidade, a uma transformação da matéria etérea. O princípio das criações fluídicas parece ser uma das leis mais importantes do mundo incorpóreo. A alma encarnada, gozando parcialmente em seus momentos de emancipação das faculdades do Espírito livre, pode produzir efeitos análogos. Aí pode estar a causa das visões ditas fantásticas. Quando o Espírito está fortemente imbuído de uma idéia, seu pensamento pode criar-lhe uma imagem fluídica que, para ele, tem todas as aparências da realidade, tão bem quanto o dinheiro de Pierre Legay, embora a coisa não exista por si mesma. Tal é, sem dúvida, o caso em que se encontrou a Sra. Cantianille. Preocupada com o relato que lhe fizeram do inferno, dos demônios e de suas tentações, dos pactos pelos quais eles se apoderam das almas, das torturas dos danados, seu pensamento lhe criou um quadro fluídico, que só tinha realidade para ela. Pode-se classificar na mesma categoria as visões da Irmã Elmerich, que afirmava ter visto todas as cenas da Paixão e encontrado o cálice no qual Jesus havia bebido, bem como outros objetos análogos aos em uso no culto atual, que certamente não existiam naquela época e dos quais, no entanto, fazia uma descrição minuciosa. Dizendo que tinha visto tudo isto, agia com boa-fé, porque realmente tinha visto pelos olhos da alma, mas uma imagem fluídica, criada pelo seu pensamento. Todas as visões têm seu princípio nas percepções da alma, como a vista corporal tem a sua na sensibilidade do nervo óptico; mas elas variam em sua causa e em seu objeto. Quanto menos desenvolvida é a alma, tanto mais é susceptível de criar ilusão sobre o que vê; suas imperfeições a tornam sujeita ao erro. As mais desmaterializadas são aquelas cujas percepções são mais extensas e mais justas; todavia, por mais imperfeitas que sejam, suas faculdades não são menos úteis para estudar. Se esta explicação não oferece uma certeza absoluta, ao menos tem um caráter evidente de probabilidade. Prova, sobretudo, uma coisa: que os espíritas não são tão crédulos quanto o pretendem seus detratores e não baixam a cabeça a tudo quanto parece maravilhoso. Para eles, portanto, nem todas as visões são artigos de fé; mas, sejam o que forem, ilusões ou verdades, são efeitos que não poderiam ser negados. Eles os estudam e deles procuram dar-se conta, sem a pretensão de tudo saber e de tudo explicar. Não afirmam uma coisa senão quando está demonstrada pela evidência. Desse modo, aceitar tudo seria tão inconseqüente quanto tudo negar. Questões e Problemas
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Mês Agosto
Ano 1866