Capítulo 14
No dia imediato, logo que descansei de meus quefazeres cotidianos, atinentes à tarefa comum, regressei, ansioso, ao lar de Raquel. Era noite alta, encontrando ali o amigo fiel de Segismundo e os Espíritos Construtores, operando na intimidade afetuosa que caracteriza as reuniões das entidades superiores. Apuleio, o chefe, recebeu-me com amabilidade. A esposa de Adelino, ao contrário da véspera, não passava bem, fisicamente. Embora mantivesse o corpo em posição de repouso, estava superexcitada, inquieta: — Nossa irmã Raquel, — esclareceu-me o diretor, — começa a sentir o esforço de adaptação. Por enquanto, e, durante alguns dias, permanecerá indisposta; todavia, a ocorrência é passageira. — Não conseguirá dormir? — perguntei. — Mais tarde, — respondeu ele; — por agora, terá o sono reduzido, até que se formem os folhetos blastodérmicos. É o serviço inicial do feto e não podemos dispensar-lhe a cooperação ativa. Observei, interessado, a extraordinária movimentação celular, no desenvolvimento da estrutura do novo corpo em formação e anotei o cuidado empregado pelos Espíritos presentes para que o disco embrionário fosse esculturado com a exatidão devida. — A engenharia orgânica, — exclamou o chefe do trabalho, bem humorado, — reclama bases perfeitas. O corpo carnal é também um edifício delicado e complexo. Urge cuidar dos alicerces com serenidade e conhecimento. Reconheci que o serviço de segmentação celular e ajustamento dos corpúsculos divididos ao molde do corpo perispirítico, em redução, era francamente mecânico, obedecendo a disposições naturais do campo orgânico, mas toda a entidade microscópica do desenvolvimento da estrutura celular recebia o toque magnético das generosas entidades em serviço, dando-me a ideia de que toda a célula-filha era convenientemente preparada para sustentar a tarefa da iniciação do aparelho futuro. No intuito talvez de justificar o desvelo empregado, Apuleio explicou-me, atencioso: — Temos grandes responsabilidades na missão construtiva do mecanismo fetal. Há que remover empecilhos e auxiliar os organismos unicelulares do embrião, na intimidade do útero materno, para que a reencarnação, por vezes tão dificilmente projetada e elaborada, não venha a falhar, de início, por falta de colaboração do nosso Plano, onde são tomados os compromissos. Escutava-lhe a palavra experiente e sábia, com muita atenção, a fim de aproveitar-lhe todo o conteúdo educativo. — Em razão disto, — prosseguiu ele, — o aborto muito raramente se verifica obedecendo a causas de nossa Esfera de ação. Em regra geral, origina-se do recuo inesperado dos pais terrestres, diante das sagradas obrigações assumidas ou aos excessos de leviandade e inconsciência criminosa das mães, menos preparadas na responsabilidade e na compreensão para este ministério divino. Entretanto, mesmo aí, encontrando vasos maternais menos dignos, tudo fazemos, por nossa vez, para opor-lhes resistência aos projetos de fuga ao dever, quando essa fuga representa mero capricho da irresponsabilidade, sem qualquer base em programas edificantes. Claro, porém, que a nossa interferência no assunto, em se tratando de luta aberta contra nossos amigos reencarnados, transitoriamente esquecidos da obrigação a cumprir, tem igualmente os seus limites. Se os interessados, retrocedendo nas decisões espirituais, perseveram sistematicamente contra nós, somos compelidos a deixá-los entregues à própria sorte. Daí, a razão de existirem muitos casais humanos, absolutamente sem a coroa dos filhos, visto que anularam as próprias faculdades geradoras. Quando não procederam de semelhante modo no presente, sequiosos de satisfação egoística, agiram assim, no passado, determinando sérias anomalias na organização psíquica que lhes é peculiar. Neste último caso, experimentam dolorosos períodos de solidão e sede afetiva, até que refaçam, dignamente, o patrimônio de veneração que todos nós devemos às leis de Deus. As definições do chefe dos Construtores aclaravam-me o raciocínio, referentemente a graves problemas da luta humana. Interessado em aprender, cooperando, busquei tomar a posição do trabalhador, procurando o serviço que me competia, no campo de auxílio magnético às organizações celulares. Mais tarde, porém, antes de me retirar, aproximei-me do diretor, a fim de recolher algumas informações. Impressionavam-me certas minudências do trabalho que se levara a efeito na noite anterior. Por que processo conseguira localizar-se a ligação inicial de Segismundo ao futuro corpo, nos órgãos geradores de Raquel? E o problema do elemento masculino mais apto? Em todos os casos de fecundação, amigos da condição de um Alexandre deveriam funcionar no serviço de escolha? Apuleio ouviu-me, com a benevolência que caracteriza as entidades superiores, e informou: — Passividade não significa ausência de cooperação. Quando Raquel aceitou a tarefa maternal, fê-lo com decisão e obediência construtiva: Ela recebeu Segismundo em seu organismo perispiritual, e, mobilizando os poderes naturais de sua mente, situou-lhe o molde vivo na esfera uterina, com a mesma espontaneidade de outros processos orgânicos, superintendidos pela atividade mecânica subconsciente, cujo automatismo traduz a conquista de experiências multimilenárias da alma reencarnada. Para os círculos da mulher é tão fácil a ambientação das forças criativas, como é natural para o homem a manutenção da atitude patriarcal e protetora, enquanto perdura a existência dos laços paternais. Percebendo-me a intenção de aproveitar-lhe os informes para pequenino esforço meu, no sentido de escrever para leitores encarnados, Apuleio acentuou: — Teríamos grandes dificuldades em explicar aos homens terrestres o fenômeno da adaptação das energias criativas, no útero materno, nos processos da reencarnação. Por enquanto, a tendência da maioria dos nossos irmãos encarnados encaminha-se para a materialização de todos os nossos esclarecimentos. É preciso esperar mais tempo para ministrar-lhes certas informações que, por agora, seriam para eles incompreensíveis. E, sorrindo, prosseguia: — Eles se alimentam, diariamente, de formas mentais, sem utilizarem a boca física, valendo-se da capacidade de absorção do organismo perispirítico, mas ainda não sentem a extensão desses fenômenos em suas experiências diárias. No lar, na via pública, no trabalho, nas diversões, cada criatura recebe o alimento mental que lhe é trazido por aqueles com quem convive, temperado com o magnetismo pessoal de cada um. Dessa alimentação dependem, na maioria das vezes, mormente para a imensa percentagem de encarnados que ainda não alcançaram o domínio das próprias emoções, os estados íntimos de felicidade ou desgosto, de prazer ou sofrimento. Segundo observa, também o homem absorve matéria mental, em todas as horas do dia, ambientando-a dentro de si mesmo, nos círculos mais íntimos da própria estrutura fisiológica. O chefe dos Construtores fixou-me, bem humorado, a expressão de surpresa, ao lhe receber elucidações tão simples, em assunto tão complexo, e acrescentou: — Em sua experiência última na Crosta, quando envergava os fluidos carnais, nunca sentiu a perturbação do fígado, depois de um atrito verbal? Jamais experimentou o desequilíbrio momentâneo do coração, recebendo uma notícia angustiosa? Por que a desarmonia orgânica, se a hora em curso era, muitas vezes, de satisfação e felicidade? É que, em tais momentos, o homem recebe “certa quantidade de força mental” em seu campo de pensamento, como o fio recebe a “carga de eletricidade positiva”. O ponto de recepção está efetivamente no cérebro, mas se a criatura não está identificada com a lei de domínio emotivo, que manda selecionar as emissões que chegam até nós, ambientará a força perturbadora dentro de si mesma, na intimidade das células orgânicas, com grande prejuízo para as zonas vulneráveis. Apuleio, com muita serenidade, fez ligeiro intervalo e considerou: — Se é muito difícil explicar aos homens encarnados fatos rotineiros como esses a que nos referimos, repetidos com eles dezenas de vezes, durante cada dia de luta carnal, como informá-los, com exatidão e minúcias, quanto à ambientação do molde vivo para a edificação fetal na intimidade uterina? Precisamos esperar pelo concurso do tempo para conjugar as nossas experiências. Animado com as elucidações recebidas, observei: — Tem razão. Ainda hoje, embora a minha condição de desencarnado, não me sinto à altura de receber determinadas notícias, sem alterações do meu campo emocional. — Muito bem! — Falou o diretor, satisfeito, — é que você está fazendo o longo curso de autodomínio. Somente depois dele, saberá selecionar as forças que o procuram, ambientando nas zonas íntimas de sua alma somente aquelas de teor reconfortante ou construtivo. Em seguida, fornecendo-me a impressão de desejar manter-se dentro do assunto em exame, Apuleio prosseguiu: — Quanto às suas observações alusivas à colaboração de Alexandre na escolha do elemento masculino de fecundação, cumpre-me acentuar que não podemos contar em todos os casos com esse concurso, que depende do setor de merecimento. Entretanto, quando o fator magnético não procede de cooperação elevada dessa ordem, devemos considerar que ele prevalece do mesmo modo, compreendendo-se que a esfera passiva está igualmente impregnada de energias da atração. Se o elemento masculino da fecundação está repleto de força positiva, o óvulo feminino está cheio de força receptiva.
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