Mas, quando a grande doutrina se tiver tornado a base da educação humana e a partilha de todos, quando a prova das vidas sucessivas aparecer a todas as vistas, então os mais instruídos, os mais refletidos, desenvolvendo em si as intuições do passado, compreenderão que têm vivido em todos os meios sociais e terão mais tolerância e benevolência para com os pequenos, sentirão que há menos maldade e acrimônia do que sofrimento revoltado na alma dos deserdados. Que partido admirável não podem então tirar de sua própria experiência, difundindo em torno de si a luz, a esperança, a consolação!
Então o interesse, o bem pessoal, tornar-se-á o bem de todos. Cada um se sentirá inclinado a cooperar mais ativamente para o melhoramento dessa sociedade em cujo seio terá de renascer para progredir com ela e avançar para o futuro.
A hora presente é ainda uma hora de lutas; luta das nações para a conquista do globo, luta das classes para a conquista do bem-estar e do poder. Em torno de nós agitam-se forças cegas e profundas, que ontem não se conheciam e hoje se organizam e entram em ação. Uma sociedade agoniza; outra nasce. O ideal do passado vem à Terra. Qual será o de amanhã?
Abriu-se um período de transição. Uma fase diferente de evolução humana, obscura, cheia, ao mesmo tempo, de promessas e ameaças, começou. Na alma das gerações que sobem jazem os germens de novas florescências. Flores do mal ou flores do bem?
Muitos se alarmam, muitos se espantam. Não duvidamos do futuro da humanidade, de sua ascensão para a luz, e derramamos em volta de nós, com coragem e perseverança incansáveis, as verdades que asseguram o dia de amanhã e fazem as sociedades fortes e felizes.
Os defeitos de nossa organização social provêm principalmente de nossos legisladores que, em suas acanhadas concepções, abrangem somente o horizonte de uma vida material. Não compreendendo o fim evolutivo da existência e o encadeamento de nossas vidas terrenas, estabeleceram um estado de coisas incompatível com os fins reais do homem e da sociedade.
A conquista do poder pelo maior número não é própria para ampliar esse ponto de vista. O povo segue o instinto surdo que o impele. Incapaz de aquilatar o mérito e o valor de seus representantes, leva muitas vezes ao poder os que desposam suas paixões e participam de sua cegueira. A educação popular precisa ser completamente reformada, porque só o homem ilustrado pode colaborar com inteligência, coragem e consciência na renovação social.
Nas reivindicações atuais, a noção de direito é objeto de excessivas especulações, sobreexcitam-se os apetites, exaltam-se os espíritos. Esquece-se de que o direito é inseparável do dever e, na verdade, é simplesmente sua resultante. Daí, uma ruptura de equilíbrio, uma inversão das relações de causa para efeito, isto é, do dever para o direito na repartição das vantagens sociais, o que constitui uma causa permanente de divisão e ódio entre os homens. O indivíduo que encara somente seu interesse próprio e seu direito pessoal ocupa lugar inferior, ainda, na escala da evolução.
O direito – como disse Godin, fundador do familistério de Guise – é feito do dever cumprido. Sendo os serviços prestados à humanidade a causa, o direito vem a ser o efeito. Numa sociedade bem organizada, cada cidadão classificar-se-á de acordo com o seu valor pessoal e o grau de sua evolução, em proporção com sua cota social.
O indivíduo só deve ocupar a situação merecida; seu direito está em proporção equivalente à sua capacidade para o bem. Tal é a regra, tal é a base da ordem universal, e a ordem social, enquanto não for sua contraprova, sua imagem fiel, será precária e instável.
Cada membro de uma coletividade deve, por força dessa regra, em vez de reivindicar direitos fictícios, tornar-se digno deles, aumentando o próprio valor e sua participação na obra comum. O ideal social transforma-se, o sentido da harmonia desenvolve-se, o campo do altruísmo dilata-se; mas, no estado atual das coisas, no seio de uma sociedade onde fermentam tantas paixões, onde se agitam tantas forças brutais, no meio de uma civilização feita de egoísmo e cobiça, de incoerência e má-vontade, de sensualidade e sofrimentos, são de temer muitas convulsões.
As vezes ouve-se o bramido da onda que sobe. O queixume dos que sofrem transforma-se em brados de cólera. As multidões contam-se; interesses seculares são ameaçados. Levanta-se, porém, uma nova fé, iluminada por um raio do Alto e assente em fatos, em provas sensíveis. Diz a todos: “Sede unidos, porque sois irmãos, irmãos neste mundo, irmãos na imortalidade. Trabalhai em comum para tornardes mais suaves as condições da vida social, mais fácil o desempenho de vossas tarefas futuras. Trabalhai para aumentar os tesouros de saber, de sabedoria, de poder, que são a herança da humanidade. A felicidade não está na luta, na vingança; está na união dos corações e das vontades!”