Já nos referimos diversas vezes à teoria das aparições.
Em nosso último número a recordamos, a propósito dos estranhos fenômenos que relatamos. Para melhor compreensão do que se segue, rogamos aos nossos leitores que a eles se reportem.
Todos sabem que, no número das manifestações mais extraordinárias produzidas pelo Sr. Home estava a aparição de mãos, perfeitamente tangíveis, que cada um podia ver e apalpar, que pressionavam e apertavam mas que, de repente, não ofereciam senão o vazio quando queriam pegá-las de surpresa. Eis aí um fato positivo, que se produziu em diversas circunstâncias, atestado por numerosas testemunhas oculares. Por mais estranho e anormal que pareça, cessa o maravilhoso desde o momento em que é possível lhe darmos uma explicação lógica. Entra, então, na categoria dos fenômenos naturais, embora de ordem completamente diversa da dos que se produzem aos nossos olhos, e com os quais é preciso pôr-se em guarda para não os confundir. Nos fenômenos comuns podemos achar pontos de comparação, como o do cego, que percebia o brilho da luz e das cores pelo som da trombeta, mas não similitudes. É precisamente a mania de querer tudo assimilar àquilo que conhecemos a verdadeira causa de tanta desilusão em certas pessoas: pensam que podem manipular esses elementos novos como se fossem hidrogênio e oxigênio. Ora, aí está o erro. Esses fenômenos estão submetidos a condições que escapam ao círculo habitual de nossas observações; é preciso, antes de tudo, conhecê-los e com eles nos conformarmos, se quisermos obter resultados.
É necessário, sobretudo, não perder de vista que esse princípio essencial, verdadeira chave da ciência espírita e agente dos fenômenos vulgares, é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas esse agente é constantemente uma inteligência que tem vontade própria e que não podemos submeter aos nossos caprichos.
Nessas mãos havia carne, pele, ossos, unhas reais? Não, evidentemente; era apenas uma aparência, mas de tal ordem que produzia o efeito de uma realidade. Se um Espírito tem o poder de tornar visível e palpável uma parte qualquer de seu corpo etéreo, não há razão para que não o possa fazer com os outros órgãos.
Suponhamos que um Espírito estenda essa aparência a todas as partes do corpo: teremos, então, a impressão de ver um ser seme-lhante a nós, agindo como nós, quando não passa de um vapor momentaneamente solidificado. Tal é o caso do louquinho de Bayonne. A duração dessa aparência está submetida a condições que nos são desconhecidas; depende, sem dúvida, da vontade do Espírito, que a pode produzir ou fazê-la cessar à vontade, embora dentro de certos limites, que nem sempre tem liberdade de transpor. Interrogados a respeito, bem como sobre todas as intermitências de quaisquer manifestações, os Espíritos sempre disseram que agiam em virtude de uma permissão superior.
Se, para certos Espíritos, é limitada a duração da aparência corporal, podemos dizer que, em princípio, ela é variável, podendo persistir mais ou menos tempo; pode produzir-se a qualquer tempo e a toda hora. Um Espírito cujo corpo fosse assim visível e palpável teria, para nós, toda a aparência de um ser humano; poderia conversar conosco e sentar-se em nosso lar qual se fora uma pessoa qualquer, pois o tomaríamos como um de nossos semelhantes.
Partimos de um fato patente – a aparição de mãos tangíveis – para chegar a uma suposição que é a sua conseqüência lógica. Entretanto, não a teríamos trazido à baila se a história do menino de Bayonne não nos tivesse posto no caminho, ao nos mostrar a sua possibilidade. Questionado sobre esse ponto, um Espírito superior respondeu que realmente podemos encontrar seres dessa natureza, sem que o suspeitemos; acrescentou que isso é raro, mas possível. Como, para nos entendermos, precisamos dar um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas os chama agêneres, assim indicando que sua origem não é o resultado de uma geração. O fato a seguir, que se passou ultimamente em Paris, parece pertencer a esta categoria: Uma pobre mulher estava na igreja de São Roque e rogava a Deus que a auxiliasse em sua aflição. À saída, na rua Saint- Honoré, encontra um senhor que a aborda e lhe diz: “Boa mulher, ficaríeis contente se arranjasses trabalho?” – “Ah! meu bom se-nhor” – responde ela – “peço a Deus que me conceda esse favor, porque estou muito necessitada.” – “Pois bem! Ide a tal rua, número tanto. Procurai a senhora T...: ela vos dará trabalho.” Então continuou seu caminho. A pobre mulher dirigiu-se sem demora ao endereço indicado. – “Com efeito, tenho um trabalho para mandar fazer” – diz a senhora em questão – “mas como não o dissera a ninguém, como pôde a senhora vir me procurar?” Então a pobre indigente, avistando um retrato suspenso à parede, respondeu: – “Senhora, foi esse cavalheiro que me enviou aqui.” – “Esse cava-lheiro!” – replicou espantada a senhora – “Mas isso não é possível; este é o retrato de meu filho, morto há três anos.” – “Não sei como pode ser isto, mas vos asseguro que foi esse senhor que acabei de encontrar ao sair da igreja, onde tinha ido pedir a Deus que me assistisse. Ele me abordou e foi ele mesmo que me mandou aqui.”
Conforme o que acabamos de ver, nada haveria de surpreendente em que o Espírito do filho daquela senhora, a fim de prestar um serviço à pobre mulher, da qual sem dúvida ouvira a prece, lhe tivesse aparecido sob a forma corpórea para indicar-lhe o endereço da própria mãe. Em que se transformou depois? Sem dúvida no que era antes: um Espírito, a menos que, continuando seu passeio, tenha julgado conveniente mostrar-se a outras pessoas sob a mesma aparência. Essa mulher teria, assim, encontrado um agênere, com o qual havia conversado. Mas, então – dirão – por que não se teria apresentado à sua mãe? Nessas circunstâncias os mo-tivos determinantes dos Espíritos nos são completamente desconhecidos. Agem como bem lhes pareça, ou melhor, como disseram, em virtude de uma permissão sem a qual não podem revelar sua existência de modo material. Compreende-se, ademais, que sua visão poderia causar à mãe perigosa emoção. E quem sabe se não se apresentou a ela durante o sono ou de qualquer outro modo? E, aliás, não terá sido um meio de lhe revelar sua existência?
É muito provável que tenha testemunhado aquela conversa entre as duas senhoras.
Não nos parece que o louquinho de Bayonne deva ser considerado como um agênere, pelo menos nas circunstâncias em que se manifestou, visto ter tido sempre, para a família, o caráter de um Espírito, caráter que jamais procurou dissimular: era seu estado permanente, e as aparências corporais que assumiu eram apenas acidentais, ao passo que o agênere propriamente dito não revela a sua natureza e, aos nossos olhos, mais não é do que um homem comum. Sua aparição corporal pode ter longa duração, conforme a necessidade, para estabelecer relações sociais com um ou diversos indivíduos.
Pedimos ao Espírito São Luís que nos esclarecesse sobre esses diferentes pontos, dignando-se responder às nossas perguntas: 1. O Espírito do louquinho de Bayonne poderia mostrar-se corporalmente em outros locais e a outras pessoas além da sua família?
Resp. – Sim, sem dúvida.
2. Isto depende de sua vontade?
Resp. – Não exatamente. O poder dos Espíritos é limitado; só fazem o que lhes é permitido fazer.
3. O que aconteceria se ele se apresentasse a uma pessoa desconhecida?
Resp. – Teria sido tomado por uma criança comum.
Dir-vos-ei, porém, uma coisa: por vezes existem na Terra Espíritos que revestiram essa aparência, e que são tomados por homens.
4. Esses seres pertencem à classe dos Espíritos inferiores ou superiores?
Resp. – Podem pertencer às duas; são fatos raros. Deles tendes exemplos na Bíblia.
5. Raros ou não, basta a sua possibilidade para merecer a nossa atenção. O que aconteceria se, tomando semelhante ser por um homem comum, lhe fizessem um ferimento mortal? Seria morto?
Resp. – Desapareceria subitamente, como o jovem de Londres. [Ver o número de dezembro de 1858 – Fenômenos de bicorporeidade.]
6. Eles têm paixões?
Resp. – Sim; como Espíritos têm as paixões dos Espíritos, conforme sua inferioridade. Se algumas vezes tomam um corpo aparente é para fruir as paixões humanas; se são elevados, é com um fim útil que o fazem.
7. Podem procriar?
Resp. – Deus não o permitiria. Seria contrário às leis que estabeleceu na Terra e elas não podem ser derrogadas.
8. Se um ser semelhante se nos apresentasse, haveria um meio de o reconhecer?
Resp. – Não, a não ser que o seu desaparecimento se fizesse de modo inesperado. Seria o mesmo que o transporte de móveis de um para outro andar, fatos que lestes anteriormente.
Observação – Alusão a um fato dessa natureza relatado no início da sessão.
9. Qual o objetivo que pode levar certos Espíritos a tomar esse estado corporal? É antes o mal do que o bem?
Resp. – Freqüentemente o mal; os Espíritos bons têm a seu favor a inspiração; agem pela alma e pelo coração. Como o sabeis, as manifestações físicas são produzidas por Espíritos inferiores, e aquelas são desse número. Entretanto, como disse, os Espíritos bons podem igualmente tomar essa aparência corporal com um fim útil. Falei de maneira geral.
10. Nesse estado podem eles tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade?
Resp. – Sim, pois que podem desaparecer quando bem entenderem.
11. Têm eles um poder oculto superior ao dos demais homens?