Uma comparação vulgar tornará ainda mais compreensível a situação. Um navio carregado de emigrantes parte para destino longínquo. Leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam. Vem-se a saber que esse navio naufragou. Nenhum vestígio resta dele, nenhuma notícia chega sobre a sua sorte. Acredita-se que todos os passageiros tenham perecido e o luto penetra em todas as suas famílias. Entretanto, a tripulação inteira e os passageiros, sem faltar um único homem, foi ter a uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde todos passam a viver felizes, sob um céu clemente. Ninguém, todavia, sabe disso. Ora, um belo dia, outro navio aporta a essa terra e lá encontra os náufragos, sãos e salvos. A auspiciosa notícia se espalha com a rapidez do relâmpago. Exclamam todos: “Os nossos amigos não estão perdidos!” E rendem graças a Deus. Não podem ver-se uns aos outros, mas correspondem-se; permutam demonstrações de afeto e assim a alegria substitui a tristeza.
Tal a imagem da vida terrena e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna. A última, semelhante ao segundo navio, nos traz a boa-nova da sobrevivência dos que nos são caros e a certeza de que um dia nos reuniremos a eles. Deixa de existir a dúvida sobre a sorte deles e a nossa. O desânimo se desfaz diante da esperança.
Outros resultados fecundam essa revelação. Achando madura a humanidade para penetrar o mistério do seu destino e contemplar a sangue-frio novas maravilhas, Deus permitiu que fosse erguido o véu que ocultava o mundo invisível ao mundo visível. As manifestações nada têm de extra-humanas; é a humanidade espiritual que vem conversar com a humanidade corpórea e dizer-lhe:
“Nós existimos, logo, o nada não existe; eis o que somos e o que sereis; o futuro vos pertence, como a nós. Caminhais nas trevas, vimos clarear-vos o caminho e traçar-vos o roteiro; andais ao acaso, vimos apontar-vos a meta. A vida terrena era tudo para vós, porque nada víeis além dela; vimos dizer-vos, mostrando a vida espiritual: a vida terrestre nada é. A vossa visão se detinha no túmulo, nós vos desvendamos, para além deste, um esplêndido horizonte. Não sabíeis por que sofreis na Terra; agora, no sofrimento, vedes a Justiça de Deus. O bem não produzia nenhum fruto aparente para o futuro; doravante, ele terá uma finalidade e constituirá uma necessidade; a fraternidade, que não passava de bela teoria, assenta agora numa Lei da natureza. Sob o domínio da crença de que tudo se acaba com a vida, a imensidade é o vácuo, o egoísmo reina soberano entre vós e a vossa palavra de ordem é: ‘Cada um por si.’ Com a certeza do futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, em parte alguma há o vazio e a solidão; a solidariedade liga todos os seres, aquém e além da tumba. É o reino da caridade, sob a divisa: ‘Um por todos e todos por um.’ Enfim, ao termo da vida dizíeis eterno adeus aos que vos são caros; agora simplesmente direis: ‘Até breve!’”
Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova, que veio encher o vácuo que a incredulidade havia cavado, levantar os ânimos abatidos pela dúvida ou pela perspectiva do nada e dar a todas as coisas uma razão de ser. Esse resultado carecerá de importância apenas porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da Ciência, dar saber aos ignorantes e meios aos preguiçosos para se enriquecerem sem trabalho? Entretanto, os frutos que o homem deve colher da nova revelação não dizem respeito tão só à vida futura. Ele os saboreará na Terra, pela transformação que estas novas crenças hão de necessariamente operar no seu caráter, nos seus gostos, nas suas tendências e, por conseguinte, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus, anunciado pelo Cristo.²³