Em certos pontos de nossas regiões costeiras, o mar e a montanha se juntam, se fazem frente. Eles se opõem um ao outro; esta, a variedade de suas formas, na imobilidade silenciosa; aquele, o ruído, o movimento incessante, na uniformidade. De um lado, a agitação sem tréguas; do outro, a majestosa calma.
Compraz-se a Natureza nesses contrastes. Os montes, ora ásperos e nus, ora adornados de verdura, erigem-se acima dos vales profundos e dos vastos horizontes do mar; sítios graciosos ou austeros orlam a esteira azul dos lagos. Acima de todas as coisas, o Espaço se desenvolve e, no imo dos céus, os astros prosseguem em seu rumo eterno.
A obra é variada em seus menores detalhes; mas, dos elementos diversos que a compõem, destaca-se uma harmonia poderosa, em que se revela a arte do divino Autor. O mesmo sucede no domínio moral. Inúmeras Almas existem, de aptidões infinitamente variadas: almas obscuras e brilhantes, nobres ou vulgares, tristes ou alegres, Almas de fé, Almas de dúvida, Almas de gelo, Almas de fogo! Todas parecem misturar-se, confundir-se na imensa arena da vida. Dessas discordâncias aparentes, dessas atrações, desses contrastes, provêm as lutas, os conflitos, os ódios, os amores loucos, as felicidades inebriantes, as dores agudas. Mas, desse bracejar contínuo, certa mistura se produz; perpétuas trocas se efetuam; uma ordem crescente se origina. Os fragmentos das rocas e as pedras arrastadas pela torrente transformam-se, pouco a pouco, em calhaus redondos e polidos. O mesmo acontece com as Almas: chocadas, roladas pelo rio das existências, de grau em grau, de vida em vida encaminham-se na senda das perfeições.
A França é admiravelmente dotada no que respeita a montanhas. Estas cobrem um terço de sua superfície e, segundo as latitudes, segundo a intensidade da luz que banha seus cimos, elas oferecem aspectos e colorações de uma diversidade maravilhosa.
O nordeste, os Vosges, em suas rochas grés-vermelho sobressaindo do solo, os velhos robles suspensos, qual se fossem ninhos de águia na altura das nuvens, e os sombrios pinhais que alcatifam suas encostas.
No centro, o grande maciço vulcânico do Auvergne, com suas crateras invadidas pelas águas e suas longas “cheires” ou correntes de lavas espalhadas na base dos “puys”. Ao sul, está a sombria e fantástica região dos Causses, com suas gargantas estreitas, seus avermelhados rochedos, seus precipícios, seus rios subterrâneos.
Qual moldura a esse vasto quadro, uma série de montes se escalona de Franco-Condado ao Béard. São as cadeias do Jura, dos Alpes saboianos, delfineses e provençais, as costas batidas pelo Sol, de mar azul, o Esterel e as Cevenas. Enfim, a alta muralha dos Pireneus, com seus picos dentilhados, seus circos sublimes, suas românticas solidões.
Todas essas montanhas de França são para mim familiares. Tenho-as percorrido várias vezes. Posso dizer que constitui uma das raras felicidades de minha vida saborear-lhes as inebriantes belezas. A montanha é meu templo! Ali nos sentimos mais longe das vulgaridades deste mundo, mais próximo do céu, mais perto de Deus!
Com o imprevisto dessas mutações à vista e a expansão desses fantásticos espetáculos: cimos nervosos, geleiras ofuscantes, desfiladeiros formidáveis, grotas, quebradas sombrias, prados, lagos, torrentes, cascatas, a montanha é fonte inesgotável de impressões fortes, de sensações elevadas, de ensinamentos fecundos.
Como é bom, pela fresca da madrugada, inteiramente impregnada dos aromas penetrantes da noite, escalar os declives, com o cajado pontudo na mão, o saco de provisões ao ombro! Em volta, tudo é calma; a terra exala essa paz serena que retempera os corações e os penetra de uma alegria íntima. O atalho é tão gracioso em seus contornos, a floresta tão cheia de sombras e de misteriosa doçura!
À medida que subimos, a perspectiva se alarga, soberbas escarpas se abrem ao longe, nas planícies. Os povoados mostram suas manchas brancas na verdura, entre as messes, as charnecas, os bosques. A água das lagoas e dos rios brilha qual o aço polido. Em breve, a vegetação se faz rara, o atalho se torna mais abrupto e se atravanca de troncos de árvores e de blocos esparsos. Por toda parte aparecem os jardins das altitudes: a arnica de flores amarelas, os rododentros, as saxífragas, as ísis azuis e brancas. Aromas balsâmicos flutuam no ar. Por toda parte, águas que jorram em límpidas fontes. Seu murmúrio enche a montanha de agradável sinfonia.
Estendido sobre a relva, quantas horas tenho passado a ouvir o cristalino marulhar das fontes entre as rochas, a voz da torrente que se eleva no grande silêncio! Tudo se idealiza nessas alturas. Os falares longínquos e os cânticos melancólicos dos pastores, o tinir das campainhas dos rebanhos, o ronco das águas subterrâneas, a queixa dos ventos nas frondes, tudo se torna melodia. Mas eis a tempestade; à sua voz possante tudo se cala!...
Amo tudo da montanha: seus dias de sol, cheios de eflúvios e de raios, e suas noites serenas, sob milhões de estrelas que cintilam em maior força e parecem mais perto. Amo até suas tempestades e os clarões dos raios sobre os alcantis.
A tormenta passou. A Natureza retomou seu ar de festa. Por toda parte se escuta o rangido dos gafanhotos e o matraquear dos grilos. Insetos de todas as formas e de todas as cores manifestam, a seu modo, a alegria de viver, inebriando-se de ar e de luz.
Mais abaixo, na floresta profunda, na floresta encantada, o concerto dos seres e das coisas, que domina o ciciar do vento nas ramagens; cânticos de pássaros, zumbidos de insetos, melopéias dos regatos, das fontes e das cascatinhas, tudo isso nos arrebata, nos envolve em um encanto indefinível, irresistível.
Retomemos nossa marcha: ainda alguns esforços, cansados, e atingimos o cimo. Mas que compensação ao nosso trabalho! Um panorama esplêndido se manifesta, uma decoração incomparável se revela subitamente, espetáculo que ofusca o olhar e enche a alma de religiosa emoção.
Cimos, sempre cimos, eretos na glória da alva. No fundo do horizonte, picos solenes se alinham, brancos de neve, com suas geleiras que o Sol faz brilhar, feito toalhas de prata. Entre seus enormes cabeços cavam-se desfiladeiros selvagens, nos quais se abrem vales agradáveis. Para o lado do norte, a cadeia se abaixa em ondulações suaves, dando lugar à planície sem-fim. Os últimos contrafortes estão cobertos de bonitos bosques, de frescos prados, de aldeias pitorescas. Além, desenrolam-se, sem limites, os tapetes verde-e-ouro dos campos, dos prados, das campinas, um xadrez de culturas, uma variedade de tons e de cores que se fundem em um longínquo vaporoso. Mais longe ainda, o mar imenso resplandece sob o infinito azul.
O tempo escoa rápido nessas alturas. Em breve, é preciso pensar na volta. Lentamente, o Sol declina; os vales enchem-se de sombra. Já as silhuetas negras dos grandes picos erigem no céu, onde se acendem os fogos estelares. A voz da torrente se eleva, mais alta e mais grave, na paz da tarde. Os rebanhos voltam, reunidos pelos pastores, sob o olhar vigilante dos cães. Os sinos tangem, argentinos, convidando ao repouso, ao sono. As luzes extinguem-se, uma a uma, no vale. E minha alma, embalada pelas harmonias da montanha, dirige uma ardente homenagem ao Deus potente, ao Deus criador!
Moços que me ledes, meu pensamento vai até vós, num transporte fraternal, dizer-vos: – Aprendei a amar a montanha. É o livro por excelência, diante do qual todo livro humano é pequeno. Folheando suas páginas grandiosas, mil vezes recônditas, vos aparecerão mil revelações que não suspeitais. Colhereis alegrias preciosas, que enriquecerão vossa Alma, purificando-a. Aprendei a ver, a ler, a ouvir. Enchei vossos olhos e vossos corações dessas paisagens agrestes e encantadoras. Penetrai-lhes a graça e a força, a severidade e a doçura. Alternativamente, a árvore antiga e venerável, a torrente ruidosa e o cimo altaneiro dar-vos-ão lições sublimes, que ficarão gravadas para sempre em vossa memória e acalentarão mais tarde, com doces recordações, as tardes tristes e escuras de vosso declínio. Sabei compreender-lhes a linguagem. Suas vozes unidas compõem o hino de adoração que os seres e as coisas cantam ao Eterno.
A montanha é uma bíblia, dizíamos, cujas páginas apresentam um sentido oculto, um sentido profundo. Em suas camadas rochosas, enrugadas, revolvidas pelos abalos plutônicos, podeis ler a gênese do globo, as grandes epopéias da história do mundo, antes da aparição do homem. Os movimentos da crosta terrestre, escritos ao redor de vós, em caracteres formidáveis, vos mostrarão a ação das forças combinadas, criando vossa morada comum. Depois, será o lento trabalho das águas, gota a gota, cavando os círculos e as gargantas, esculpindo os colossos de granito. Finalmente, virá o estudo da flora e da fauna em sua diversidade sem limites.
Os empuxos eruptivos, as correntes resfriadas e os pórfiros gigantescos dir-vos-ão dos esforços da massa esbraseada levantando as cadeias em jorros agudos ou em zimbórios arredondados. Os vulcões são os orifícios respiratórios da Terra. Acima, sentem-se muito bem a circulação violenta, o empuxo da seiva e da vida que, sem esses exutórios, abalariam o solo, quebrariam a crosta planetária. As fontes quentes nos demonstram que as entranhas do globo encerram ainda a vida ardente, crepitante, prestes a jorrar, e que a ação do enorme e tenebroso ciclope é sempre possível.
Do foco central, do fundo do abismo, sobem à superfície as forças expansivas que transformam os elementos, liquefazendo-os e carregando-os de eletricidades desconhecidas em seu transporte para o Sol, cujas irradiações os solicitam e os atraem através do espaço.
É o laboratório onde se trabalha a grande obra, a preparação do teatro em que se representarão os dramas da vida.
Para todos aqueles que a sabem amar e compreender, a montanha é uma longa e profunda iniciação.