Os Dois Espiões
Independentemente de nossos bem conhecidos princípios, claramente formulados em nossas obras, em relação à exploração do Espiritismo sob uma forma qualquer, mais de seis mil ouvintes, que foram admitidos às sessões da Sociedade Espírita de Paris, desde a sua fundação em 1o de abril de 1858, podem dizer se alguma vez um só deles pagou alguma coisa como contribuição obrigatória ou facultativa; mesmo se foi imposto a quem quer que seja, como condição de admissão, a compra de um único livro ou a assinatura da Revista. Quando se explora o público, a escolha não é difícil; visa-se o número. A hesitação, portanto, não seria concebível para admitir esses senhores; em vez de permitir que viessem, teriam sido solicitados a vir. Só por estas palavras eles se traem; mas não pensam em tudo. Já que tinham ouvido falar que eram cobrados supostos cem francos por pessoa, e que consentiriam em pagar apenas dez, como é que não se certificaram disso antes? Era muito natural, necessário mesmo, no-lo perguntar, para não serem pegos de surpresa na chegada. Há aqui uma insinuação pérfida, mas desastrada. No relato que a seguir fazem da sessão a que assistiram, não falam de pagamento. Ora, tendo dito que sacrificariam dez francos, dão a entender que não lhes custou mais. Recuaram ante uma afirmação; mas disseram de si para si: “Lancemos a idéia; sempre restará alguma coisa.” Mas quando não há nada, nada pode restar, a não ser a vergonha para o mentiroso. Aliás, não é a primeira vez que a malevolência e a inveja empregam tal meio com vistas a desacreditar a Sociedade perante a opinião pública. Ultimamente, em Nantes, um indivíduo informava que as entradas aí custavam cinco francos por cabeça. Seria singular que depois de oito anos de existência ainda não se saiba se ela cobra 100 francos ou 5 francos. Na verdade, é preciso estar bem enceguecido pela vontade de prejudicar a ponto de crer que o público possa ser enganado sobre um fato tão material, que diariamente recebe um desmentido, tanto pelas pessoas que a eles assistem, quanto pelos princípios que ela professa e que são formulados sem equívoco em nossos escritos. Entretanto, dessa calúnia ressalta uma instrução. Desde que os nossos adversários pensam poder desacreditar a Sociedade, dizendo que exige uma contribuição dos visitantes, é que eles consideram como mais honroso nada cobrar. Ora, uma vez que ela nada exige; que em vez de visar ao número dos audientes, o restringe tanto quanto possível, é que não especula com eles; assim, corta pela base toda suspeita de charlatanismo. A circunstância do coronel que devia ser evocado nos deu a pista da sessão à qual assistiram aqueles senhores. O fato de não encontrarmos seus verdadeiros nomes na lista do dia prova que se apresentaram com nomes falsos. Isto era muito fácil de verificar, porque aquele era um dia de sessão particular reservada aos membros da Sociedade, à qual só tinham sido admitidos quatro ou cinco estrangeiros, de passagem em Paris. Enviando-nos os seus nomes verdadeiros, nosso correspondente nos informa que são filhos de um alto funcionário eclesiástico russo. Sexta-feira passada, às oito horas da noite, dirigimo-nos à sessão da Sociedade espírita. Chegamos cedo; os membros ainda não eram numerosos, de sorte que pudemos examinar minuciosamente o ambiente. Um enorme salão continha várias fileiras de cadeiras. Ao lado de uma das paredes achava-se uma mesa coberta com uma toalha verde, em redor da qual estavam cadeiras para os principais membros da Sociedade. Sobre a mesa havia um monte de papéis brancos e uma porção de lápis apontados; nada mais. Acima da mesa pendia a imagem do Senhor abençoando. Uma investigação tão minuciosa e levada até ao exame dos papéis é um tanto indiscreta da parte de pessoas que se dizem gentis-homens e admitidas por cortesia numa casa particular e a uma reunião que nada tem de pública. Não há absolutamente nada suspenso acima da mesa. Perto da parede há uma estatueta de São Luís, em costume de rei, presidente espiritual da Sociedade, e que aqueles senhores, ao que parece tomaram pelo Cristo. As paredes eram ocupadas por quadros singulares. Examinei-os detalhadamente. O maior, pintado a óleo, representa um caixão de defunto, com correntes caídas em volta; uma paisagem extravagante, com plantas fantásticas, rodeava o caixão. Uma inscrição explica que o quadro foi pintado por Allan Kardec. Esse quadro alegórico é o de que falamos na Revista de novembro de 1862. Não há correntes nem plantas de nenhuma espécie. Em baixo há uma legenda explicativa, com esta inscrição aposta ao próprio quadro, e em evidência: “Pintura mediúnica. Quadro alegórico do advento e do triunfo do Espiritismo; pintado pelo Sr. V..., jovem aluno de farmácia, sem qualquer conhecimento de pintura nem de desenho. Lyon.” Não sabemos como esses senhores puderam ver nessas palavras que o quadro foi pintado por Allan Kardec. Isto dá a medida da exatidão de seu relatório e da confiança que o resto merece. Mais longe, toda uma série de quadros ou desenhos, não sei bem como os chamar, feitos por diversas pessoas, sob a influência dos Espíritos. Impossível dizer a impressão que esses quadros produziram em mim. Examinei-me, examinei-me severamente e achei que a disposição de meu espírito naquele momento era perfeitamente tranqüila, cheia de sangue-frio, de sorte que a impressão que experimentei ao ver aqueles quadros era independente de minha imaginação. Os quadros ou desenhos representam uma insólita reunião de linhas, pontos, círculos, uma reunião original que não tem qualquer semelhança com o que quer que seja. Todos têm um certo gênero particular, que lhes pertence em comum, mas completamente indefinível. Dir-se-ia que nada há de particular nesses pontos e linhas e, contudo, a impressão que deixam é das mais desagradáveis, semelhante a um fatigante pesadelo. Numa palavra, aqueles desenhos em nada se parecem com os que já tenhais visto e para mim são repugnantes. Nessa coleção de desenhos mediúnicos acham-se: a casa de Mozart, publicada na Revista de agosto de 1858, e que todos conhecem; uma cabeça do Cristo, feita no México, de um tipo admirado por todos os peritos; um outro Cristo, coroado de espinhos, modelado em argila na Sociedade Espírita de Madrid, de notável execução; duas soberbas cabeças de mulher em perfil grego, desenhadas na Sociedade Espírita de Constantinopla; uma paisagem a bico-de-pena, pelo Sr. Jaubert, vice-presidente do Tribunal de Carcassonne e que qualquer artista consumado assinaria, etc. Eis as linhas e os pontos que perturbaram os olhos daqueles senhores de maneira tão desagradável e repugnante. Seríamos realmente tentados a crer que um Espírito maligno os fascinou, de modo a fazê-los ver tudo pelo avesso, a fim de tornar seu relato mais pitoresco. Enfim, os membros da Sociedade se reúnem em número de cerca de setenta. Como nas sociedades verdadeiras, também havia secretários. Inicialmente leram um capítulo do Evangelho; depois o protocolo da sessão precedente. Confesso que não havia meio de escutar sem rir as diversas informações. Em Lyon, por exemplo, um Espírito dizia tolices, razão pela qual determinaram a sua exclusão do número dos Espíritos de boa conduta. Em seguida leram o necrológio do coronel espírita que devia ser evocado durante essa sessão. Antes ele era são-simonista. Allan Kardec disse à Sociedade que lhe faria perguntas sobre as relações do Espiritismo e do são-simonismo. Um dos assistentes quis fazer algumas perguntas, mas o mestre declarou que os outros não deviam intrometer-se naquilo que não fossem solicitados. Eu esperava sempre que trouxessem o aparelho que devia escrever, mas me enganava. Allan Kardec tocou a campainha e, na antecâmara, apareceu um rapaz com cara de larápio, numa palavra, pronto a dizer de cor, por um quarto de rublo e até mesmo por meia libra, toda sorte de absurdos. Disseram-nos que era um médium. Aqui já não se trata de simples inexatidões: é o cinismo da injúria e do ultraje. Basta citar tais palavras para os desacreditar. Na França seus autores teriam sido levados aos tribunais. No que respeita a inexatidões, diremos apenas que, desde que a Sociedade existe, jamais houve campainha em seu escritório; por conseguinte, não podíamos tocá-la. Os ouvidos desses senhores tiniram, como seus olhos faiscaram, ao olharem os desenhos e a estatueta de São Luís. O público, na maioria composto de velhos, era característico; quase metade era de semiloucos. Os jovens, extasiados e desgrenhados, seguiam atentamente os movimentos do médium. Ali havia crentes tão obstinados, que era até um pecado rir deles; não se podia senão lamentá-los. Parece que mentir é um pecado menor. É verdade que certas pessoas pensam que toda mentira, feita com boas intenções, é desculpável. Ora, para alguns, denegrir o Espiritismo é excelente motivo. Que respondeu o Espírito? Respondeu pela tagarelice de Allan Kardec, que se pode admirar em suas obras. O Espírito de que se trata é o do Sr. Bruneau, membro da Sociedade Espírita, antigo aluno da Escola Politécnica e coronel de artilharia, falecido recentemente. Pode-se ver a ata de sua evocação na Revista de dezembro de 1864. Allan Kardec propôs evocar uma criança são-simonista.
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Mês Junho
Ano 1865