“Quando o conde de Foix soube a verdade ficou muito contente e lhe disse: Senhor de Corasse, procurai ser-lhe agradável; eu bem que gostaria de ter um tal mensageiro. Isso não vos custa nada e por esse meio ficareis sabendo realmente o que acontece no mundo. O cavaleiro respondeu: Senhor, eu o farei. – Assim, o Senhor de Corasse foi servido por Orthon durante muito tempo.
Não sei se esse Orthon tinha mais de um senhor, mas todas as semanas, duas ou três vezes, vinha visitar o Senhor de Corasse, dando-lhe notícias do que acontecia nos países onde tinha conversado, e este as escrevia ao conde de Foix, o qual tinha grande alegria.
“Uma vez estava o Senhor de Corasse com o conde de Foix e conversavam sobre isto, de modo que o conde lhe perguntou: Senhor de Corasse, nunca vistes o vosso mensageiro? – Palavra de honra, nunca, nem uma só vez. – É maravilhoso, disse o conde; se ele me fosse tão ligado quanto a vós, eu lhe teria pedido que o demonstrasse a mim; e peço que vos deis ao trabalho de dizer-me qual a sua forma e a sua maneira. Dissestes que ele fala tão bem o gascão como eu e vós. – Juro, disse o Senhor de Corasse, é verdade; ele fala tão bem e tão bonito como vós e eu; e juro que procurarei vê-lo, já que mo aconselhais. Sucedeu que o Senhor de Corasse, como em outras noites, estava em seu leito, ao lado de sua mulher, a qual já se acostumara a ouvir Orthon e não mais tinha medo. Então veio Orthon e puxou o travesseiro do Sr. de Corasse, que dormia profundamente. Despertando, o Senhor de Corasse perguntou: Quem está aí? – Sou eu, respondeu Orthon. E lhe perguntou: De onde vens? – Venho de Praga, na Boêmia. – Quanto, disse ele, tudo bem? – Sessenta dias, respondeu Orthon. – E vieste tão cedo? – Sim, por Deus; vou tão rápido quanto o vento, ou mais. – Então tens asas? – Nenhuma, disse. Como, então, podes voar tão rápido? Respondeu Orthon: Não tendes senão que ouvir as notícias que vos trago. – Por Deus, disse o Senhor de Corasse, eu preferia te ver. Respondeu Orthon: Já que desejais ver-me, a primeira coisa que vereis e encontrareis amanhã de manhã, quando sairdes do leito, será eu. – Basta, disse o Senhor de Corasse. Agora vai; eu te dispenso por esta noite. Na manhã seguinte o Sr. de Corasse levantou-se. A senhora tinha tanto medo que ficou doente e disse que não se levantaria naquele dia, mas o senhor ordenou que ela se levantasse. – Senhor, disse ela, eu veria Orthon; e não quero vê-lo de forma alguma, se Deus mo permitir. Então, disse o Senhor de Corasse: Eu quero vê-lo. Saiu de mansinho do leito, mas nada viu que pudesse dizer: Eu vi Orthon aqui. O dia se passou e veio a noite. Quando o Senhor de Corasse estava deitado em sua cama, veio Orthon e começou a falar, como de costume. Vai, disse o Senhor de Corasse a Orthon, és um mentiroso; devias ter-te mostrado muito bem a mim e não o fizeste. – Sim, fiz. – Não o fizeste. – E quando saíste do leito, disse Orthon, nada vistes? O Senhor de Corasse pensou um pouco e lembrou-se. Sim, respondeu ele, ao sair da cama e pensando em ti, vi dois fetos de palha no assoalho, que giravam juntos. – Era eu, disse Orthon, na forma que tinha tomado. – Disse o Senhor de Corasse: Isto não me basta; peço-te que tomes outra forma, de tal modo que te possa ver e reconhecer. – Orthon respondeu: Pedis tanto que me perdereis e vos deixarei, porque exigis muito. – Disse o Senhor de Corasse: Tu não te irás de mim. Se eu te tivesse visto uma vez, não te pediria mais para te ver novamente.
“Ora, disse Orthon, ver-me-eis amanhã; e tomai cuidado com a primeira coisa que virdes ao sair do vosso quarto.
No dia seguinte, à hora terça, o Senhor de Corasse levantou-se, aprontou-se e, tão logo saiu do quarto veio a um local que dá para o pátio do castelo; lançou os olhos e a primeira coisa que viu foi uma porca, a maior que já tinha visto; mas era tão magra que parecia ter apenas pele e ossos; tinha as orelhas grandes, caídas e manchadas e o focinho longo e agudo. O Senhor de Corasse ficou muito admirado da porca. Como não a via com prazer, ordenou à sua gente: Soltem os cães; quero ver esta porca morta e devorada.
Os criados saíram, abriram o lugar onde estavam os cães e os fizeram assaltar a porca, que soltou um grande grito e olhou firmemente para o Senhor de Corasse, que se apoiava no terraço em frente ao quarto e não mais a viu, porquanto ela desvaneceu-se, não se sabendo em que se tornou. O Senhor de Corasse entrou em seu quarto muito pensativo e lembrou-se de Orthon. Creio que vi Orthon, meu mensageiro. Arrependo-me de haver lançado meus cães sobre ele. Será um azar se não mais o vir, pois me disse várias vezes que assim que o reconhecesse eu o perderia. – Ele disse a verdade. Desde então não voltou mais ao castelo de Corasse, e o cavaleiro ali morreu no ano seguinte.
“É verdade, perguntei ao escudeiro, que o conde de Foix tenha se servido de tal mensageiro? Para dizer a verdade: sim, é a opinião de vários homens de Béarn, pois nada se faz na região e alhures sem que ele o queira ou se empenhe, a menos que não o saiba ou não tenha tomado cuidado. Assim, foi com bons cavaleiros e escudeiros deste país que estavam em Portugal. A graça e o renome que ele tem por isto lhe foi de grande proveito, porque não perdia em casa o valor de uma colher de ouro ou de prata, nem coisa alguma sem que logo desse falta.”