Perseguições
“Todas essas evocações chegaram aos ouvidos do vigário, pelas pessoas de língua solta que, em grande parte, as desnaturaram. Em 18 de maio último, ao dar lições de catecismo aos seus alunos da primeira comunhão, o vigário despejou milhares de injúrias contra a casa C... (um dos principais adeptos) e contra mim. Depois, disse ao filho de C...: ‘Não te quero; mas em dois anos serás bastante forte para ganhar a vida. Aconselho-te que deixes teus pais, pois não são capazes de te dar bons exemplos.’ Eis um belo catecismo! No sermão da tarde subiu ao púlpito de propósito, para repetir o discurso que fizera aos alunos pouco antes, dizendo com muita volubilidade que não reconhecíamos o inferno; que não hesitaríamos em nos dedicar ao roubo e à rapinagem para nos enriquecermos à custa alheia; que nos dávamos a sortilégios e superstições da Idade Média, e mil outras invectivas. “A propósito, escrevi uma carta ao procurador imperial de M...; mas antes de enviá-la quis consultar o Espírito São Vicente de Paulo na primeira reunião. Esse Espírito bom fez o médium escrever o seguinte: ‘Lembrai-vos destas palavras do Cristo: Perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.’ Depois disto, queimei a carta. “O ruído desta doutrina espalha-se por todos os vilarejos circunvizinhos. Muitos me pediram e encomendaram livros, mas não os tenho; todos os que compreendem um pouco a leitura querem ler, passando-os de mão em mão.” “Depois de haver lido O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, meu primeiro cuidado foi fazer experiências para ver se eu podia ser médium. Nada tendo obtido durante oito dias, escrevi a meu filho e comuniquei-lhe o fracasso. Como residisse com ele um magnetizador, este propôs que eu escrevesse uma carta, que ele magnetizaria, e com ela eu poderia fazer a evocação de minha morta. O pobre magnetizador não imaginava que me fornecia o chicote para o açoitar. Com isto tornei-me médium audiente; pus-me novamente em posição de escrever e imediatamente disseram-me ao ouvido: ‘Procuram enganar teu filho.’ Durante três dias consecutivos, com uma força progressiva, este aviso me vinha ao ouvido e desviava a atenção que eu devia prestar ao que fazia. Escrevi a meu filho sobre o caso, advertindo-o para que desconfiasse daquele homem. Na volta do correio ele me respondeu, censurando-me as dúvidas que eu levantara contra aquele homem, o qual gozava de toda a sua confiança. Poucos dias depois recebi dele uma nova carta, vazada em linguagem diferente, dizendo que havia expulsado o infeliz malandro que, aparentando honestidade, servia-se de sua suposta qualidade para melhor conquistar suas vítimas. Expulsando-o, mostrou-lhe a minha carta que, de uma distância de cem léguas, o havia pintado tão bem.” Esta carta dispensa comentários. Vê-se que o sermão do vigário produziu efeito no meio dos aldeões, como alhures. Se, em tal circunstância, foi o diabo que tomou o nome de São Vicente de Paulo, o vigário lhe deve ser grato. Não temos razão para dizer que os próprios adversários fazem a propaganda e, sem o quererem, servem à nossa causa? Digamos, todavia, que fatos desta natureza constituem exceções, e não a regra; pelo menos preferimos pensar assim. Conhecemos muitos eclesiásticos distintos, que deploram essas coisas, como impolíticas e imprudentes. Se nos apontam alguns atos lamentáveis, também nos mostram um bom número de um caráter verdadeiramente evangélico. Um sacerdote dizia a um de seus penitentes, que o consultava sobre o Espiritismo: “Nada acontece sem a permissão de Deus; assim, tais coisas só acontecem por sua vontade.” Um moribundo mandou chamar um padre e lhe disse: “Meu pai, há cinqüenta anos não mais freqüentava as igrejas e havia esquecido a Deus. Foi o Espiritismo que me reconduziu a Ele, razão por que vos mandei chamar antes de morrer. Dar-me-eis a absolvição? – Meu filho, responde o padre, os desígnios de Deus são impenetráveis; dai-lhe graças por vos haver enviado essa tábua de salvação; morrei em paz.” Poderíamos citar inúmeros casos semelhantes.
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Mês Setembro
Ano 1862