inventara, comunicado ao abade Grimaud, venerável eclesiástico,
que era o único dos assistentes que podia conhecê-lo. Pouco
tempo há que publicamos a ata dessa notável sessão com as
assinaturas de doze testemunhas e o atestado do abade
Grimaud.(101)
O Sr. Maxwell, advogado geral no Tribunal de Apelação de Bordéus e doutor em Medicina, na sua obra Phénomènes Psychiques (102) estuda o fenômeno das incorporações, que observou em casa da Sra. Agullana, esposa de um estucador, e assim se exprime.
“A personalidade mais curiosa é a de um médico falecido há cem anos. A sua linguagem médica é arcaica. Dá às plantas os nomes medicinais antigos. O seu diagnóstico é geralmente exato; mas, a descrição dos sintomas internos que ele vê é bem própria a causar admiração a um médico do século XX... Há dez anos que observo o meu colega de além-túmulo. Não tem variado e apresenta uma continuidade lógica surpreendente.”
Eu mesmo observei freqüentes vezes esse fenômeno. Pude, como em outra parte expus,(103) conversar por intermédio de diversos médiuns, com muitos parentes e amigos falecidos, obter indicações que esses médiuns não conheciam e que, para mim, constituíam outras tantas provas de identidade. Se levarmos em conta as dificuldades que comporta a comunicação de um Espírito a ouvintes humanos, por meio de um organismo e, particularmente, de um cérebro que ele não apropriou, a que não deu flexibilidade mediante uma longa experiência; se considerarmos que, em razão da diferença dos planos de existência, não se pode exigir de um desencarnado todas as provas que a um homem material se pediria, é preciso reconhecer que o fenômeno das incorporações é um dos que mais concorrem para demonstrar a espiritualidade e o princípio da sobrevivência.
Não se trata, nesses fatos, de uma simples influência a distância. Há um impulso a que o sujet não pode resistir e que na maior parte das vezes se transforma em tomada de posse do organismo inteiro. Esse fenômeno é análogo ao que verificamos nos casos de segunda personalidade. Neste, o “eu” profundo substitui o “eu” normal e toma a direção do corpo físico, com um fim de fiscalização e regeneração. Mas, aqui é um Espírito estranho que desempenha esse papel e substitui a personalidade do médium adormecido.
As palavras possessão ou posse, de que acabamos de nos servir, foram muitas vezes tomadas em sentido lamentável.
Atribuía-se no passado aos fatos que elas designam um caráter diabólico e terrificante, como muito bem disse Myers:(104) “O diabo não é criatura desconhecida pela Ciência. Nesses fenômenos achamo-nos somente na presença de Espíritos que foram outrora homens semelhantes a nós e que estão sempre animados dos mesmos motivos que nos inspiram.”
A esse propósito Myers faz uma pergunta: “É a possessão algumas vezes absoluta?”... e responde nestes termos: “A teoria que diz que nenhuma das correntes conhecidas da personalidade humana esgota toda a sua consciência e que nenhuma das suas manifestações conhecidas exprime toda a potencialidade do seu ser, pode igualmente se aplicar aos homens desencarnados.” (105)
Com isso abordaríamos o ponto central do problema da vida humana, a mola secreta, a ação íntima e misteriosa do Espírito sobre um cérebro, quer sobre o seu, quer, nos casos de que nos ocupamos, sobre um cérebro estranho.
Considerada sob esse aspecto, a questão toma importância capital em Psicologia. Myers acrescenta:(106)
“Com o auxilio desses estudos, as comunicações cada vez se tornarão mais fáceis, completas, coerentes, e atingirão nível mais elevado de consciência unitária. Grandes e numerosas devem ter sido as dificuldades; mas nem de outro modo pode ser quando se trata de reconciliar o espírito com a matéria e de abrir ao homem, do planeta onde está encarcerado, uma fresta para o mundo espiritual...
Assim como, pela clarividência migratória (Myers chama assim à clarividência dos sonâmbulos), o Espírito muda de centro de percepção, no meio das cenas do mundo material, assim também há transmissões espontâneas do centro de percepção para as regiões do mundo espiritual. A concepção do êxtase, no seu sentido mais literal e sublime, resulta assim, sem esforço, quase insensivelmente, de uma série de provas modernas.
Em todas as épocas tem-se concebido o Espírito como suscetível de deixar o corpo ou, se não o deixa, de estender consideravelmente o seu campo de percepção, fazendo nascer um estado que se parece com o êxtase. Todas as formas conhecidas de êxtase concordam neste ponto e se baseiam num fato real.” Vê-se que, graças a experiências, a observações, a
testemunhos mil vezes repetidos, a existência e a sobrevivência
da alma saem doravante do domínio da hipótese ou da simples
concepção metafísica, para se converterem em realidade viva,
em fato rigorosamente averiguado. O sobrenatural tocou o termo
de seus dias; o milagre já não passa de uma palavra. Todos os
terrores, todas as superstições que a idéia da morte sugeria aos
homens se desfazem em fumo. Dilata-se a nossa concepção da
vida universal e da obra divina e, ao mesmo tempo, a nossa
confiança no futuro se fortifica. Vemos nas formas alternadas da
existência carnal e fluídica o progresso do ser, o
desenvolvimento da personalidade prosseguindo e uma Lei
Suprema presidindo à evolução das almas através do tempo e do
espaço.