Capítulo 2
liga-se o dogma da metempsicose ou renascimento das almas culpadas em corpos de animais, insetos ou plantas, espantalho destinado a atemorizar os fracos, sistema hábil imitado pelo Catolicismo quando concebeu os mitos de Satanás, do inferno e dos suplícios eternos; • A outra é o ensino secreto, a grande tradição esotérica que fornece sobre a alma e seus destinos, e sobre a causa universal, as mais puras e elevadas reflexões. Para conseguir isso, é necessário penetrar-se nos mistérios dos pagodes, folhear os manuscritos que estes encerram e interrogar os brâmanes sábios. Cerca de seiscentos anos antes da era Cristã, um filho de rei, Çãkyamuni ou o Buddha, foi acometido de profunda tristeza e imensa piedade pelos sofrimentos dos homens. A corrupção invadira a Índia, logo depois de alteradas as tradições religiosas, e, em seguida, vieram os abusos da teocracia ávida do poder. Renunciando às grandezas, à vida faustosa, o Buddha deixa o seu palácio e embrenha-se na floresta silenciosa. Após longos anos de meditação, reaparece para levar ao mundo asiático senão uma crença nova, ao menos uma outra expressão da Lei. Segundo o Budismo,(viii) está no desejo a causa do mal, da dor, da morte e do renascimento. É o desejo, é a paixão que nos prende às formas materiais e que desperta em nós mil necessidades sem cessar, reverdecentes e nunca saciadas, tornando-se assim, outros tantos tiranos. O fim elevado da vida é arrancar a alma aos turbilhões do desejo. Consegue-se isso pela reflexão, austeridade, pelo desprendimento de todas as coisas terrenas, pelo sacrifício do eu, pela isenção do cativeiro egoísta da personalidade. A ignorância é o mal soberano de que decorrem o sofrimento e a miséria; o principal meio para se melhorar a vida no presente e no futuro é adquirir-se o conhecimento. O conhecimento compreende a ciência da natureza visível e invisível, o estudo do homem e dos princípios das coisas. Estes são absolutos e eternos. O mundo, saído por sua própria atividade de um estado uniforme, está numa evolução contínua. Os seres, descidos do Grande-Todo a fim de operarem o problema da Perfeição, inseparável do estado de liberdade e, por conseguinte, do movimento e do progresso, tendem sempre a voltar ao Bem perfeito. Não penetram no mundo da forma senão para trabalharem no complemento da sua obra de aperfeiçoamento e elevação. Podem realizar isso pela Ciência, ou Upanishaci, e completá-lo pelo Amor, ou Purana. A Ciência e o Amor são dois fatores essenciais do Universo. Enquanto não adquire o amor, o ser está condenado a prosseguir na série das reencarnações terrestres. Sob a influência de tal doutrina, o instinto egoísta vê estreitar-se pouco a pouco o seu circulo de ação. O ser aprende a abraçar num mesmo amor tudo o que vive e respira; e isto nada mais é que um dos degraus da sua evolução, pois esta deve conduzi-lo a só amar o eterno princípio de que emana todo o amor, e para onde todo ele deve necessariamente voltar. Esse estado é o do Nirvana. Essa expressão, diversamente comentada, tem causado muitos equívocos. Em conformidade com a doutrina secreta do Budismo,(ix) o Nirvana não é, como ensina a Igreja do Sul e o Grã-Sacerdote do Ceilão, a perda da individualidade e o esvaecimento do ser no nada, mas sim a conquista, pela alma, da perfeição, e a libertação definitiva das transmigrações e dos renascimentos no seio das humanidades. Cada qual executa o seu próprio destino. A vida presente, com suas alegrias e dores, não é senão a conseqüência das boas ou más ações operadas livremente pelo ser nas existências anteriores. O presente explica-se pelo passado, não só para o mundo tomado em seu conjunto, como também para cada um dos seres que o compõem. Designa-se por Carma toda a soma de méritos ou de deméritos adquiridos pelo ser. O Carma é para este, em todos os instantes da sua evolução, o ponto de partida do futuro, o motor de toda a justiça distributiva: “Em Buddha(x) uno-me à dor de todos os meus irmãos e, entretanto, sorrio e sinto-me contente porque vejo que a liberdade existe. Sabei, ó vós que sofreis; mostro-vos a verdade; tudo o que somos é resultante do que fomos no passado. Tudo é fundado sobre nossos pensamentos; tudo é obra dos próprios pensamentos. Se as palavras e ações de um homem obedecem a um pensamento puro, a liberdade segue-o como uma sombra. O ódio jamais foi apaziguado pelo ódio, pois não é vencido senão pelo amor. Assim como a chuva passa através de uma casa mal coberta, assim a paixão atravessa um espírito pouco refletido. Pela reflexão, moderação e domínio de si próprio, o homem transforma-se numa rocha que nenhuma tempestade pode abater. O homem colhe aquilo que semeou. Eis a doutrina do Carma.” A maior parte das religiões recomenda-nos fazer o bem em vista de uma recompensa de além-túmulo. Está aí um móbil egoísta e mercenário que não se encontra do mesmo modo no Budismo. É necessário praticar o bem, diz Léon de Rosny,(xi) porque o bem é o fim supremo da Natureza. É conformando-se às exigências dessa lei que se adquire a única satisfação verdadeira, a mais bela que pode apreciar o ser desprendido dos entraves da forma e das atrações do desejo, causas contínuas de decepção e de sofrimento. A compaixão do Budismo, sua caridade, estende-se a todos os seres. Segundo ele, todos são destinados ao Nirvana. E, por seres, devem entender-se os animais, os vegetais e mesmo os corpos inorgânicos. Todas as formas da vida se encadeiam, de acordo com a lei grandiosa da evolução e do transformismo. Em parte alguma do universo deixa de existir vida. A morte não é senão uma ilusão, um dos agentes da vida que exige um renovamento contínuo e transformações incessantes. O inferno, para os iniciados na doutrina, não é outra coisa senão o remorso e a ausência do amor. O purgatório está em toda parte onde se encontra a forma e onde evoluciona a matéria. Está em nosso globo, ao mesmo tempo em que nas profundezas do firmamento estrelado. O Buddha e seus discípulos praticavam o Diana, ou a contemplação, o êxtase. Durante esse estado, o Espírito destaca-se e comunica-se com as almas que deixaram a Terra.(xii) O Budismo esotérico ou vulgar, repelido de todos os lados da Índia no século 6º, após lutas sangrentas provocadas pelos brâmanes, sofreu vicissitudes diversas e numerosas transformações. Um dos seus ramos ou Igreja, a do Sul, em algumas das suas interpretações, parece inclinar-se para o ateísmo e materialismo. A do Tibet conservou-se deísta e espiritualista. O Budismo também se tornou a religião do império mais vasto do mundo: a China. Seus fiéis adeptos compõem, hoje, a terça parte da população do globo; mas, em todos os meios onde ele se espalhou, do Ural ao Japão, foram veladas e alteradas as tradições primitivas. Nele, como em qualquer outra doutrina, as formas materiais do culto abafaram as altas aspirações do pensamento. Os ritos, as cerimônias supersticiosas, as fórmulas vãs, as oferendas, as preces sonoras, substituíram o ensino moral e a prática das virtudes.(xiii) Entretanto, os principais ensinamentos do Buddha foram conservados nos Sutras.(xiv) Sábios, herdeiros da ciência e dos poderes dos antigos ascetas, possuem também, dizem,(xv) a doutrina secreta na sua integridade. Esses estabeleceram suas moradas longe das multidões humanas, sobre os planaltos das montanhas, de onde os campos da Índia apenas se divisam vagos e longínquos como num sonho. É na atmosfera pura e calma das solidões que habitam os Mãhãtmas. Possuindo segredos que lhes permitem desafiar a dor e a morte, passam os dias na meditação, esperando a hora problemática em que o estado moral da Humanidade torne possível a divulgação dos seus poderes extraordinários. Como, porém, nenhum fato bastante autêntico tem vindo até hoje confirmar essas citações, ainda fica por provar a existência dos Mãhãtmas. Há vinte anos que grandes esforços foram empregados para espalhar a doutrina búdica no Ocidente. A raça latina, porém, ávida de movimento, de luz e liberdade, parece pouco disposta a assimilar-se a essa religião de renunciamento, de que os povos orientais fizeram uma doutrina de aniquilamento voluntário e de prostração intelectual. O Budismo, na Europa, apenas tem permanecido no domínio de alguns homens de letras, que honram o esoterismo tibetano. Este, em certos pontos, abre ao Espírito humano perspectivas estranhas. A teoria dos dias e das noites de Brahma – Manvantara e Pralaya –, que é uma renovação das antigas religiões da Índia, parece que está em muita contradição com a idéia do Nirvana. De qualquer modo, esses períodos imensos de difusão e concentração, durante os quais a grande causa primordial absorve todos os seres, permanece só, imóvel, adormecida sobre os mundos dissolvidos, atraem o pensamento numa espécie de vertigem. A teoria dos sete princípios constitutivos do homem e dos sete planetas,(xvi) sobre os quais corre a roda da vida num movimento ascensional, também constitui pontos originais e sujeitos a exame. Uma coisa domina este ensino: é a lei de caridade proclamada pelo Buddha – um dos mais poderosos apelos ao bem que tem ecoado neste mundo –; mas, segundo a expressão de Léon de Rosny,(xvii) “essa lei calma e pura, porque nada traz em seu apoio, ficou ininteligível para a maioria dos homens, visto lhes revoltar os apetites e não prometer a espécie de salário que querem ganhar”. O Budismo, apesar das suas manchas e sombras, nem por isso deixa de ser uma das maiores concepções religiosas das que têm aparecido neste mundo, uma doutrina toda de amor e igualdade, uma reação poderosa contra a distinção de castas que foi estabelecida pelos brâmanes, doutrina que, em certos pontos, oferece analogias importantes com o Evangelho de Jesus de Nazaré.
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Título A Índia
Parte Primeira
Título da Parte Crenças e Negações