Capítulo 8
[A São Luís] – As preces por um Espírito reencarnado podem ter a mesma eficácia que a dirigida a um errante? – R. As preces são sempre boas e agradáveis a Deus. Na posição deste pobre Espírito, elas em nada lhe poderão servir; servirão mais tarde, pois Deus as deixa de reserva. Esta evocação confirma o que sempre se disse dos deficientes mentais. A nulidade moral não implica nulidade do Espírito, que, abstração feita dos órgãos, goza de todas as suas faculdades. A imperfeição dos órgãos é apenas um obstáculo à livre manifestação dos pensamentos: não os aniquila. É o caso de um homem vigoroso, cujos membros fossem momentaneamente amarrados. Instrução de um Espírito sobre os deficientes mentais e os cretinos, dada na Sociedade de Paris – Os cretinos são seres punidos na Terra pelo mau uso que fizeram de poderosas faculdades. Sua alma está aprisionada num corpo, cujos órgãos impotentes não podem exprimir seu pensamento. Esse mutismo moral e físico é uma das mais cruéis punições terrestres, muitas vezes escolhidas pelos Espíritos arrependidos que querem resgatar suas faltas. Tal prova não é estéril, porque o Espírito não fica estacionário na sua prisão de carne: os olhos hebetados veem, o cérebro deprimido compreende, mas nada pode ser traduzido, nem pela palavra, nem pelo olhar e, salvo o movimento, estão moralmente no estado dos letárgicos e dos catalépticos, que veem e ouvem o que se passa ao seu redor sem poderem exprimi-lo. Quando, em sonho, tendes esses terríveis pesadelos, nos quais quereis fugir de um perigo, quando gritais para pedir socorro, enquanto a língua fica presa à abóbada palatina e os pés ao solo, experimentais por alguns instantes o que o cretino experimenta sempre: paralisia do corpo ligada à vida do Espírito. Quase todas as enfermidades têm, assim, sua razão de ser; nada se faz sem causa, e o que chamais injustiça da sorte é a aplicação da mais alta justiça. A loucura também é uma punição pelo abuso de elevadas faculdades; o louco tem duas personalidades, a delirante e a que retém a consciência de seus atos, sem os poder dirigir. Quanto aos cretinos, a vida contemplativa e isolada de suas almas, sem as distrações do corpo, também pode ser tão agitada como as existências mais complicadas pelos acontecimentos; alguns se revoltam contra seu suplício voluntário; lamentam tê-lo escolhido e sentem um desejo furioso de voltar a uma outra vida, desejo que lhes faz esquecer a resignação na vida presente e o remorso da vida passada, que albergam na consciência, porquanto os cretinos e os loucos sabem mais que vós, ocultando-se na sua incapacidade física uma força moral da qual não fazeis a menor ideia. Os atos de furor ou de imbecilidade a que seus corpos se entregam são julgados pelo ser interior, que sofre e se envergonha. Assim, ridicularizá-los, injuriá-los, mesmo maltratá-los, como às vezes se faz com eles, é aumentar-lhes os sofrimentos, porque os faz sentir mais duramente sua fraqueza e sua abjeção; se pudessem, acusariam de covardia os que assim agem, pois sabem que suas vítimas não podem se defender. O cretinismo não é uma Lei de Deus e a Ciência pode fazê-lo desaparecer, porque é o resultado material da ignorância, da miséria e da imundície. Os novos meios de higiene, que a Ciência, tornada mais prática, pôs ao alcance de todos, tendem a destruí-lo. Sendo o progresso condição expressa da humanidade, as provas impostas se modificarão e seguirão a marcha dos séculos; tornar-se-ão todas morais; e quando a vossa Terra, ainda jovem, tiver realizado todas as fases de sua existência, tornar-se-á uma morada de felicidade, como outros planetas mais adiantados. Pierre Jouty, pai do médium Houve um tempo em que se pusera em dúvida a alma dos cretinos e se perguntava se eles, realmente, pertenciam à espécie humana. A maneira por que o Espiritismo os encara não é de alta moralidade e de grande ensinamento? Não há matéria para sérias reflexões, ao pensar que esses corpos desgraçados encerram almas que talvez tenham brilhado no mundo, que são tão lúcidas e tão pensantes quanto as nossas, sob o espesso envoltório que lhes sufoca as manifestações e que, um dia, o mesmo pode acontecer conosco, se abusarmos das faculdades que nos concedeu a Providência? De outro modo, como poderíamos explicar o cretinismo? Como fazê-lo concordar com a justiça e a bondade de Deus, sem admitir a pluralidade das existências, isto é, a reencarnação? Se a alma ainda não viveu, é que foi criada ao mesmo tempo que o corpo. Nesta hipótese, como justificar a criação de almas tão deserdadas quanto a dos cretinos, por parte de um Deus justo e bom? Porque aqui não se trata absolutamente de um desses acidentes — a loucura, por exemplo — que se pode prevenir ou curar. Esses seres nascem e morrem no mesmo estado. Não possuindo nenhuma noção do bem e do mal, qual a sua sorte na eternidade? Serão felizes como os homens inteligentes e trabalhadores? Mas por que este favor, se nada fizeram de bom? Estarão naquilo a que chamam limbo, isto é, num estado misto, que nem é felicidade nem infelicidade? Mas por que esta inferioridade eterna? É sua culpa se Deus os criou cretinos? Desafiamos todos os que repelem a doutrina da reencarnação a saírem desse impasse. Com a reencarnação, ao contrário, o que parece uma injustiça torna-se admirável justiça; o que é inexplicável explica-se da maneira mais racional. Aliás, não sabemos se os que repelem esta doutrina a tenham combatido com argumentos mais convincentes que o de sua repugnância pessoal em voltar à Terra. Respondemos-lhe: para que volteis, Deus não vos pede permissão, assim como o juiz, que não consulta a vontade do réu para enviá-lo à prisão. Todos têm a possibilidade de não reencarnar, desde que se aperfeiçoem bastante para fazerem jus a uma esfera mais elevada. O orgulho e o egoísmo não se compadecem, porém, com essas esferas felizes, e daí a necessidade de todos se despojarem dessas enfermidades morais, para o que é preciso trabalhar se quiserem alcançar essa meta. Sabe-se que, em certos países, longe de serem objeto de desprezo, os deficientes mentais são cercados de todos os cuidados. Tal sentimento não resultará de uma intuição do verdadeiro estado desses infortunados, tanto mais dignos de atenção quanto, por se verem repudiados na sociedade, seus Espíritos compreendem tal contingência? Considera-se mesmo como favor e verdadeira bênção a presença de um desses seres no seio da família. Seria isso superstição? Talvez, porque nos ignorantes a superstição se confunde com as ideias mais santas, por não lhe compreenderem o alcance. Em todos os casos, porém, é para os parentes ocasião de exercerem a caridade, tanto mais meritória quanto mais pesado lhes seja esse encargo, de nenhuma compensação material. Há maior mérito em cercar de afetuosos cuidados uma criança infeliz do que cuidar de um filho cujas qualidades ofereçam qualquer compensação. Sendo a caridade desinteressada uma das virtudes mais agradáveis a Deus, atrai sempre a sua bênção sobre os que a praticam. Esse sentimento inato e espontâneo vale por esta prece: “Obrigado, meu Deus, por nos terdes dado como prova um ser fraco a sustentar, um aflito a consolar.”
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Expiações terrestres
Tema Charles de Saint-G..., deficiente mental
Item 15