O pequeno Júlio desenvolvia-se como flor de esperança no jardim do lar, todavia, sempre mirrado, enfermiço. Desvelavam-se os pais por assisti-lo convenientemente, contudo, por mais adequados se categorizassem os tratamentos recalcificantes, trazia doloroso estigma na garganta. Extensa ferida na glote dificultava-lhe a nutrição. Farinhas suculentas concorriam com o leite materno para robustecê-lo, mas em vão. Entretanto, apesar dos cuidados que exigia, era uma bênção de felicidade para os genitores e para a irmãzinha, que sentiam em seu rostinho tenro um ponto vivo de entrelaçamento espiritual. Muitas vezes, conchegamo-lo ao coração, rememorando os trabalhos que lhe haviam precedido o regresso ao mundo, assinalando a ternura otimista com que Odila, transformada em generosa protetora da família, lhe acompanhava o desabrochar. O pequerrucho já começava a falar por monossílabos, em vésperas do primeiro ano de renascimento, quando nova luta surgiu. O inverno chegara rigoroso e vasto surto de gripe espalhara-se ameaçador. A tosse e a influenza compareciam pertinazes, em todos os recantos, quando, num dia de grande trabalho para nós, eis que a genitora de Evelina veio, novamente, ao nosso encontro. Dantes, procurava assistência para Zulmira, agora demandava auxílio para Júlio. O menino, assaltado por teimosa amidalite, jazia prostrado, febril. Dirigimo-nos incontinenti para o lar do ferroviário. Com efeito, o vento soprava, úmido, sobre o largo espelho da Guanabara. As ruas, pela vestimenta pesada dos transeuntes, davam ao Rio o aspecto de uma cidade fria. Alcançamos, sem detença, o domicílio de Amaro. O quadro, à nossa vista, era indubitavelmente constrangedor. Penetramos o aposento em que a criança gemia semi-asfixiada, no instante preciso em que o médico da família efetuava meticuloso exame. Clarêncio passou a reparar-lhe todos os movimentos. A garganta minúscula apresentava extensa placa branquicenta e a respiração se fazia angustiada, sibilante. O instrutor meneou a cabeça, como se fora defrontado por insolúvel enigma, e colocou a destra na fronte do facultativo, compelindo-o a refletir com a maior atenção. Zulmira e Evelina, sem perceber-nos a presença, fitavam o médico, preocupadas. Após longo silêncio, o clínico voltou-se para a dona da casa, afirmando:
— Creio devamos procurar um colega imediatamente. Enquanto a senhora telefona para o marido, chamando-o da oficina, trarei comigo um pediatra. A torturada mãezinha conteve a custo as lágrimas que lhe borbulhavam dos olhos. O médico tornou, cismarento, à via pública, e, enquanto Evelina, rápida, corria até o armazém próximo para dar ciência ao genitor de quanto ocorria, Zulmira, presumindo-se a sós, abraçou-se ao doentinho e, chorando livremente, ciciou:
— Ó meu Deus, com tanto amor recebi o filho que me enviaste!… Não me deixes agora sem ele, Senhor!… O pranto que lhe corria na face queimava-me o coração. Nada pude indagar, em vista da emotividade que me tomara o espírito, mas o nosso orientador, sereno como sempre, exclamou, compadecido:
— A difteria está perfeitamente caracterizada. A deficiência congenial da glote favoreceu a implantação dos bacilos. É imprescindível o socorro urgente. O instrutor começou a mobilizar recursos assistenciais de maior expressão, quando o ferroviário, desolado, ingressou no aposento. Conversando com a mulher, tentava reanimá-la, quando o pediatra, conduzido pelo colega, deu entrada na humilde residência. Ambos os médicos submeteram o petiz a prolongado exame, permutando impressões em voz baixa. O especialista, apreensivo, após manifestar a suspeita de crupe, reclamou a análise de laboratório, decidindo transportar consigo mesmo o material necessário à inspeção. Ao sair, prometeu opinar, dentro de algumas horas. Notificou ao pai agoniado que tudo lhe fazia crer tratar-se de garrotilho. Entretanto, reservava o diagnóstico definitivo para depois. Se a hipótese se confirmasse, enviaria um enfermeiro de confiança para a aplicação do soro adequado. Mantendo vigilância junto ao doentinho, o Ministro recomendou-nos, a Hilário e a mim, acompanhar o pediatra, de modo a prestar-lhe a colaboração possível ao nosso alcance. Seguimo-lo sem hesitar. O crepúsculo, encharcado de uma garoa fina, caía rápido. Em minutos breves, atravessávamos o pórtico de vasto hospital, onde o nosso amigo procurou a sala em que certamente se recolhia para os trabalhos que lhe diziam respeito. Chegados a estreito recinto, fomos defrontados por uma surpresa que nos impunha verdadeira estupefação. Mário Silva, em seu traje branco, palestrava com dona Antonina que acomodava ao colo a pequena Lisbela, pálida e ofegante. A jovem senhora, que não mais víramos, aguardava o especialista, trazendo a filhinha à consulta. Amparadas por Silva, francamente atraído para a simpática visitante, ambas tiveram acesso a gabinete particular, onde o facultativo diagnosticou uma pneumonia. Antonina foi aconselhada a voltar, de imediato, ao ambiente doméstico, para a medicação da filha. A penicilina devia ser administrada sem qualquer dilação. Mário, demonstrando imenso carinho pela criança, prontificou-se a assisti-la. Traria um automóvel e atenderia ao caso pessoalmente. O chefe passeou o olhar pelo mostrador do relógio e aquiesceu, ressalvando:
— Bem, você pode cooperar com as nossas clientes, mas preciso de seu concurso em bairro distante, às vinte e duas horas. O rapaz assumiu o compromisso de regressar a tempo e um táxi recolheu o trio, rolando na direção da casinha que visitáramos, certa vez. Ante o inesperado daquele encontro, sentimos necessidade de um entendimento seguro com o nosso orientador. Tornando ao quarto, onde o pequeno Júlio piorava sempre, fizemos breve relato do acontecido. Clarêncio escutou com interesse e ponderou, preocupado:
— Não podemos perder tempo. Dirijamo-nos à casa de Antonina. A lei está reaproximando os nossos amigos uns dos outros e Mário precisa fortalecer-se para exercitar o perdão. Os raios de ódio da parte dele podem apressar aqui o serviço inevitável da morte. Corremos ao domicílio da valorosa mulher. Com efeito, depois de haver iniciado o tratamento providencial da menina, agora acamada, Silva fixava a dona da casa, perguntando a si mesmo onde vira aquele torturado perfil de madona… Guardava a nítida impressão de haver conhecido Antonina em algum lugar… Agradavelmente surpreendido, sentia-se ali como se fora em sua própria casa. E a simpatia não se patenteava tão somente no coração dele. A senhora e os filhos cercavam-no de atenções. Intimamente deslumbrado, o enfermeiro declarava de viva voz estar experimentando uma paz que há muito não conhecia, com o que Antonina se regozijava, sorrindo. Percebendo que Haroldo e Henrique se mostravam apaixonados pelas disputas esportivas, deu curso a animada conversação em torno do futebol, conquistando-lhes o carinho. A mãezinha, preparando o café, ingressava no alegre entendimento, de quando em quando, a fim de podar o entusiasmo dos meninos, quando a palavra deles se evidenciava menos construtiva. Somente no decurso da afetuosa palestra, viemos a saber que nossa amiga se enviuvara. O esposo, segundo notícias recebidas de metrópole distante, havia falecido num desastre, vitimado pela própria imprudência. Lemos no olhar de Silva o contentamento com que obtinha semelhante informe. Começava a registar insopitável interesse pela vida naquele ninho agasalhante que se lhe afigurava pertencer-lhe. Às oito em ponto, Antonina, sem afetação, convidou com simplicidade:
— Sr. Mário, hoje temos nosso culto evangélico. Quer ter a bondade de partilhá-lo? Incompreensivelmente feliz, o rapaz concordou, de pronto. A reunião, nessa noite, foi efetuada ao redor do leito de Lisbela, que não desejava perder o benefício das orações. Um copo de água pura foi colocado junto à cabeceira da pequenina. E, de Novo Testamento em punho, acomodados os companheiros, Antonina recomendou a Henrique fizesse a rogativa inicial. O menino recitou o “Pai Nosso” e, em seguida, pediu a Jesus a saúde da irmãzinha doente, com enternecedora súplica. Vimos o nosso orientador acercar-se do recipiente de água cristalina, magnetizando-a, em favor da enferma que parecia expressivamente confortada, ante a oração ouvida, e, logo após, abeirar-se de Silva, que lhe recebeu as irradiações.
— Quem abrirá hoje o Livro? — Perguntou Haroldo, com graciosa malícia, fitando o hóspede inesperado.
— Certamente nosso amigo nos fará essa honra, — disse a genitora, indicando o enfermeiro. Mário, ignorando como expressar a felicidade que lhe fluía do coração, acolheu o pequeno volume, sob a atenção de Clarêncio, que lhe tocava o busto e as mãos, influenciando-o para a descoberta do texto adequado. O moço, algo trêmulo na participação de um serviço espiritual inteiramente novo para ele, sem perceber o amparo que o envolvia, abriu em determinada passagem, qual se agisse a esmo, passando o livro a Antonina, que leu em voz pausada o versículo vinte e cinco do capítulo cinco das anotações do Apóstolo Mateus:
— “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto te encontras a caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial para que sejas encerrado na prisão.” () A dirigente do culto, que, naquela noite, se revelava mais retraída, pediu a interpretação dos meninos que, de modo ingênuo, se reportaram às experiências da escola, afirmando que sempre adquiriam a paz, buscando desculpar as faltas dos companheiros.